quarta-feira, 2 de outubro de 2019

O POVOAMENTO GUARANI DO VALE DO RIO DOS SINOS


Pedro Ignácio Schmitz, Jairo Henrique Rogge,
Jefferson Aldemir Nunes, Ranieri Hirsch Rathke

O texto completo está on-line em Pesquisas, Antropologia 74, 2019, 195 páginas. A foto é de Denise Maria Schnorr, 1997. Aqui apresentamos pequena síntese.

A publicação oferece uma visão geral do antigo povoamento guarani no vale do rio dos Sinos, utilizando coleções e os correspondentes documentos, de levantamentos arqueológicos realizados nas décadas de 1960 e 1970. Os sítios arqueológicos foram colocados em seu contexto geográfico e iluminados com relatos de missionários jesuítas que estiveram entre os índios Carijó-Guarani, do Sudeste do Brasil nas primeiras décadas do século XVII.  Imagens da aldeia Mbyá-guarani de Riozinho, no alto vale do rio dos Sinos, como a do título, dão visibilidade às descrições arqueológicas e missionárias.
As coleções e respectivos documentos, conservadas nos museus, correspondem, aproximadamente, a setenta sítios arqueológicos. Eurico Th. Miller, em 1967 publicou um relatório sobre as primeiras explorações então realizadas. Posteriormente, em 2003, Adriana Schmidt Dias elaborou sua tese de doutorado sobre o povoamento do alto vale, a partir de novo levantamento, e Jefferson Z. Dias, em 2015, voltou aos sítios de Miller para sua tese sobre o povoamento do vale do rio Paranhana, principal afluente do rio dos Sinos.
Para a presente pesquisa estavam disponíveis boas coleções. No Museu Arqueológico do Rio Grande do Sul (MARSUL), em Taquara, estavam guardadas grandes coleções das décadas de 1960 e 1970, acompanhadas de minuciosa documentação, feitas por Eurico Th. Miller, que percorreu todo o vale; em menor proporção por Pedro Augusto Mentz Ribeiro, Plínio Dall’Agnol e Guilherme Naue (Ir. Valeriano), que estudaram a margem direita do vale médio. No Instituto Anchietano de Pesquisas/Unisinos (IAP) estavam coleções feitas, no mesmo período, em ambas as margens do vale médio por Pedro Ignácio Schmitz e companheiros.
O trabalho examinou coleções de 51 sítios de todo o vale, incluindo alguns vistos nas teses mencionadas. Algumas coleções, cujos dados constam no catálogo, não foram encontradas, fazendo mais falta, especialmente as de 15 sítios estudados por Miller no rio Rolante e vizinhanças.
As coleções e as anotações que as acompanham são significativas por serem as sobrevivências dos antigos assentamentos indígenas, que desapareceram sob o arado de ocupantes posteriores. Os últimos pesquisadores já encontraram poucos vestígios dessas antigas ocupações.




O primeiro levantamento dos sítios Tupiguarani foi realizado sob o enfoque histórico-cultural, trazido pelo PRONAPA (Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas), coordenado pelos arqueólogos americanos Clifford Evans e Betty J. Meggers (1965-1970). O programa propunha rápida cobertura de grandes extensões do território brasileiro, usando como referência geográfica as bacias hidrográficas. No presente caso, a do rio dos Sinos.
Os sítios eram identificados com uma sigla, na qual constava: Estado (RS), vale do rio (nesse caso, S) e o número sequencial do sítio levantado (p.ex. 272). A documentação dos sítios compunha-se de fichas descritivas do sítio com sua correspondente numeração, além de croquis, fotos e mapas. Nesse tempo não havia GPS e a máxima precisão alcançada era a dos Mapas do Exército, que também não eram de fácil aquisição. Abaixo, croqui do sítio RS-S-272, Morretes, no baixo vale do rio; para localização ver mapa acima.



O material recolhido não era tratado por unidade de objeto, mas como amostra de conjunto (de superfície, de quadrícula, ou de nível de escavação). Ele era recolhido sistematicamente, na superfície total do sítio, por superfícies delimitadas, por quadrícula, ou nível, evitando qualquer preferência ou seleção por tamanho, cor ou decoração.
Em laboratório, o material era lavado em água corrente e recebia um número de acervo por amostra, não por unidade de objeto. Por exemplo Catálogo MARSUL 442 corresponde a todo o material recolhido na superfície do sítio RS-S-272. A amostra assim numerada, com tinta nanquim, era guardada em saco plástico e acomodada em caixa plástica, ou de papelão.
A cerâmica da coleta era analisada para criar tipos à maneira das Ciências Naturais; em sua formação o antiplástico formava o gênero e o acabamento da superfície a espécie do tipo. As bordas eram desenhadas e produziam modelos de formas de vasilhame.




Bordas de cerâmica com acabamento Corrugado do sítio Estádio do Aimoré, São Leopoldo (RS-06).



                 Algumas reconstituições de formas de Corrugado do mesmo sítio.
Havia maior cuidado com a documentação gráfica dos recipientes pintados, como ilustra a imagem seguinte.





Com os tipos assim formados se criavam séries, baseadas na semelhança tipológica, posição estratigráfica e datação radiocarbônica. Séries parecidas por seus tipos se constituíam em fases e o agrupamento destas, também por semelhança, em tradições. Miller atribuiu a cerâmica do vale à tradição Tupiguarani, subtradição Corrugada e, dentro dela, criou duas fases: a Maquiné, mais antiga e a Paranhana, mais nova.
Os componentes das séries, ou fases, quando colocadas no espaço, poderiam mostrar a distribuição, a sequência cronológica e a movimentação dos assentamentos representados nas amostras.
O texto publicado abrange os sítios levantados no vale com exclusão parcial daqueles usados nas mencionadas teses. Há também certa quantidade de coletas, que constam no catálogo, mas não foram encontradas no acervo. E se apresenta da seguinte maneira: primeiro há uma descrição do vale. Segue o estudo individual dos sítios, agrupados por áreas ao longo do rio. E fecha com uma síntese das informações conseguidas, as quais reproduzimos a seguir.
O rio dos Sinos orientou a ocupação indígena do vale. Os assentamentos, sob a forma de pequenas aldeias, encontravam-se distribuídos ao longo do curso, ocupando as primeiras elevações do terreno. Estas se encontravam na proximidade da água de arroios ou nascentes; raramente junto ao rio porque este é margeado por banhados com vegetação intrincada. Onde os banhados são mais expandidos, como na margem esquerda do baixo curso, não se localizaram assentamentos.
A implantação da aldeia se fazia de tal maneira que as famílias pudessem alcançar variados ambientes em suas atividades diárias. A distância entre os assentamentos era adequada para não esgotar o ambiente e evitar conflitos.
Os assentamentos se mostravam ao pesquisador como uma, duas ou três pequenas manchas escurecidas, com fragmentos cerâmicos concentrados, que eram circundadas por um espaço maior, menos escuro, no qual os restos eram mais dispersos. Não havia forma específica para a disposição dessas manchas.
A cerâmica das aldeias reproduz o padrão Tupiguarani, subtradição Corrugada, ou Guarani, na pasta, na técnica de produção, no acabamento da superfície, na forma e no uso inferido.
Através das características da cerâmica buscamos agrupar os sítios, mas não formamos fases. Agrupando-os pelo antiplástico alcançamos três conjuntos. O primeiro, que usa caco moído, desdobra-se na parte baixa e média da planície do rio, podendo representar a conquista do vale. O segundo, que usa areia fina e média, proveniente do arenito Botucatu, ocupa lombas e colinas mais afastadas do rio, no médio e alto vale e pode representar a expansão e consolidação do povoamento. O terceiro, que usa areão composto por grãos de hematita e fragmentos angulosos de quartzo e feldspato, provenientes da decomposição do basalto, está mais próximo da encosta do planalto basáltico; este era dominado pelo povo da tradição Taquara, com o qual as aldeias mantêm contato. Este terceiro conjunto pode representar um recuo para o interior escapando da escravidão e da missão religiosa.
A utilização do acabamento de superfície para agrupar os sítios foi menos eficiente, mas acompanha o exercício anterior.
A espessura das camadas arqueológicas nos assentamentos mostra que as casas tinham alguma estabilidade; a pouca variedade de artefatos, mostra um modo de vida simples, de pequenos chacareiros em meio à floresta.
O povoamento é considerado recente, entre o século XV e o começo do XVII.
 Em tempos históricos a região era ocupada pelos índios Carijó, da família linguística Tupi-Guarani, a cujos antepassados e contemporâneos os sítios podem ser facilmente atribuídos. A analogia direta com o modo de vida destes serve para iluminar os dados arqueológicos referentes à casa, à aldeia, à cerâmica, à subsistência e à organização da sociedade. No fim do século XX um grupo Mbya-guarani voltou ao vale criando aldeia de poucas casas, cujas imagens ajudam a cobrir de carne e osso ao esqueleto produzido pelos arqueólogos.
O término da ocupação guarani, no começo do século XVII, foi traumático, produzido por doenças trazidas pelo colonizador e pela transferência forçada dos moradores para São Paulo e Rio de Janeiro por ação escravista e missionária. Se, posteriormente, aparecem indígenas falando guarani, eles são estrangeiros para os ocupantes descritos neste trabalho.

Texto: Pedro Ignácio Schmitz, Jairo Henrique Rogge, 
Jeferson Aldemir Nunes, Ranieri Hirsch Rathke.
Imagens: Denise Schnorr e Acervo do Instituto Anchietano de Pesquisas


Referências bibliográficas:
DIAS, A.S. 2003. Sistemas de assentamento e estilo tecnológico: uma proposta interpretativa para a ocupação pré-colonial do alto vale do rio dos Sinos, Rio Grande do Sul. (Tese de Doutorado). São Paulo: MAE/USP.
DIAS, J.L.Z. 2015. A ocupação pelos grupos ceramistas das tradições Taquara e Tupiguarani do médio vale do rio dos Sinos e do vale do rio Paranhana. (Tese de Doutorado). São Leopoldo: UNISINOS.
EVANS, C.; MEGGERS, B.J. 1965. Guia para a prospecção arqueológica no Brasil. Belém, Museu Goeldi.
MILLER, E.Th. 1967. Pesquisas arqueológicas no Nordeste do Rio Grande do Sul. Publ. Av. M. Pa. Emílio Goeldi 6: 15-38. 








quinta-feira, 19 de setembro de 2019

EM HOMENAGEM AO NATURALISTA PROF. PE. CLEMENTE JOSÉ STEFFEN, SJ


EM HOMENAGEM AO NATURALISTA
PROF. PE. CLEMENTE JOSÉ STEFFEN, SJ
*14/09/1925 –14/04/2003†

A FORMAÇÃO

1945, 28 de fevereiro – Colégio São José, Pareci Novo, RS. Noviciado, dois anos.
1958, 25 de março – Colégio Cristo Rei, São Leopoldo, ordenação sacerdotal, por D. Edmundo Kunz.
1959, Volta Redondo, RJ, Fazenda Três Poços, Terceira Provação.

O MAGISTÉRIO

1960 – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Praça João Pessoa, 35, São Leopoldo, RS. Estuda no primeiro ano de História Natural.
1961 - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Praça João Pessoa, 35, São Leopoldo, RS. Segundo ano de História Natural.
1962 - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Praça João Pessoa, 35, São Leopoldo, RS. Terceiro ano de História Natural. Auxiliar do Capelão das Irmãs Franciscanas do Colégio São José.
1963 – Rio Claro, SP, especialização em História Natural na Faculdade de Filosofia.
1964 – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Praça João Pessoa, 35, São Leopoldo, RS. Ensina Fisiologia Vegetal no terceiro ano do curso. Auxiliar do Capelão das Irmãs Franciscanas do Colégio São José. Quarto ano de magistério.
1965 – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Praça João Pessoa, 35, São Leopoldo, RS. Presidente do Departamento de História Natural, ensina Fisiologia Vegetal no terceiro ano do curso, Conselheiro da Faculdade.
1966 - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Leopoldo. Ensina Fisiologia Vegetal no terceiro ano, Ecologia vegetal no quarto ano, religião no primeiro ano do curso de História Natural. Capelão das Irmãs Franciscanas do Colégio São José. Sexto ano de magistério.
1967 - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Leopoldo. Ensina Fisiologia Vegetal no terceiro ano, Ecologia Vegetal no quarto ano, Religião no primeiro ano do curso de História Natura e no primeiro ano do curso de Matemática. Capelão das Irmãs Franciscanas do Colégio São José. Sétimo ano de magistério.
1968 – O mesmo. Oitavo ano de magistério.
1969 – O mesmo, menos Religião. Nono ano de magistério.
1970 – Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS. Ensina Fisiologia Vegetal no curso de História Natural, Antropologia no Ciclo Básico. Presidente do Departamento de Biologia e Geo-Ciências. Capelão das Irmãs Franciscanas do Colégio São José. Décimo ano de magistério.
1971- O mesmo. Décimo primeiro ano de magistério.
1972 – O mesmo. Orienta pesquisa de alunos. Décimo segundo ano de magistério.
1973 – O mesmo. Faz pesquisa de Botânica. Décimo terceiro ano de magistério. 
1974 – O mesmo. Décimo quarto ano de magistério.
1975 – O mesmo. Décimo quinto ano de magistério. A praça da Universidade mudou de nome passando de João Pessoa a Tiradentes.
1976 – Ensino Fisiologia Vegetal, Ecologia e Antropologia. Orienta a pesquisa de alunos. Continua capelão no Colégio São José. Décimo sexto ano de magistério.
1977 – O mesmo. Décimo sétimo ano de magistério.
1978 – O mesmo. Presidente do Departamento de Biologia. Décimo oitavo ano de magistério.
1979 – O mesmo. Diretor do Centro de Ciências Biomédicas. Décimo nono ano de magistério.
1980 – O mesmo. Capelão no Pensionato São José. Vigésimo ano de magistério.
1981 – O mesmo. Vigésimo primeiro ano de magistério. O endereço da Unisinos passa a ser Av. Unisinos, 950 – Cx. P. 275.
1982 – O mesmo. Vigésimo segundo ano de magistério.
1983 – O mesmo. Vigésimo terceiro ano de magistério.
1984 – O mesmo. Vigésimo quarto ano de magistério.
1985 – O mesmo. Vigésimo quinto ano de magistério.
1986 – O mesmo. Vigésimo sexto ano de magistério. Superior da Comunidade jesuíta a partir de 14 de outubro de 1985 por ausência do titular.
1987 – O mesmo. Vigésimo sétimo ano de magistério.
1988 – O mesmo. Vigésimo oitavo ano de magistério.
1989 – Ensina Fisiologia vegetal, Ecologia e Antropologia e orienta a pesquisa dos alunos. Capelão do Pensionato São José. Vigésimo nono ano de magistério.
1991 – O mesmo. Capelão do Pensionato São José e do Lar Santa Elisabeth. Trigésimo primeiro ano de magistério.
1993 – O mesmo. Trigésimo terceiro ano de magistério.
1994 – O mesmo. Ministro e Consultor da Comunidade Jesuíta. Trigésimo quarto ano de magistério.
1995 – Ensina Fisiologia Vegetal e Ecologia. Continua Ministro e Consultor da Comunidade Jesuíta. É capelão do Pensionato São José e do Lar Santa Elisabeth. Trigésimo quinto ano de magistério.
1999 – O mesmo. Trigésimo nono ano de magistério.
2002 – Ensina Fisiologia Vegetal e Ecologia. Capelão do Pensionato São José e do Lar Santa Elizabeth. Quadragésimo segundo ano de magistério.
2003 – 14 de abril, falecimento.


O PROFESSOR PARANINFO

Transcrição integral do discurso proferido pelo Professor Pe. Clemente José Steffen SJ aos formandos do Curso de História Natural de 1977/2 da Unisinos (incrivelmente atual).

Estimados amigos licenciados:
Escolhido, para paraninfar vossa turma, entre tantos dignos colegas, muitos certamente mais “crescidos em idade, sabedoria e graça”, não posso deixar de vos dirigir breves palavras de agradecimento, juntamente com minhas felicitações. Estas palavras quero dirigir-vos como professor e amigo. Como sacerdote quero concluir, a vosso pedido, com uma oração ao Todo Poderoso para ele implorar bênçãos para vossas atividades futuras.
Amigos licenciados.
O dia da formatura é um daqueles dias que durante os longos anos de formação nunca chega com suficiente rapidez, e quando finalmente chega, lastimamos que tão depressa tenha chegado. Não resta dúvida que é um dia de muita alegria para todos aqueles emocionalmente envolvidos. Afinal, é o coroamento de penosos trabalhos, de sofridas horas de estudo, de renúncia a magníficos dias de sol, de concentração em vigílias noturnas, de momentos preciosos roubados ao convívio familiar e das pessoas amadas. Quanto mais penosa, porém, foi a escalada desta montanha, maior e mais justa a alegria dos que agora se acham em seu topo. E todos nós participamos desta alegria, desta sua alegria. E principalmente os que já os precedemos nesta caminhada, sabemos que com justeza vos podemos apresentar nossas felicitações. Por isso nossos parabéns não são gratuitos, mas honestamente merecidos.
Nos alegramos com o dia da formatura e de coração o festejamos, ele não deixa de ter seu sabor de tristeza, pois é também, infelizmente, uma despedida. Não me lembro de um único aluno sequer, que alguns anos depois de formado, voltasse a rever sua escola e mestres, e não manifestasse saudades dos seus bons tempos. E não é apenas o aluno que tem saudades de sua escola e de seus mestres. Com experiência própria podemos afirmar que nós professores também sentimos saudades de nossos discípulos. E se de outras turmas guardo gratas lembranças, com mais razão a lembrança desta há de despertar-me as saudades por longos e longos anos. Se nos lembramos com saudades daqueles nossos alunos com os quais tivemos apenas uma relação de professor-aluno, muito maior será esta saudade, muito mais sentimos a despedida daqueles com os quais durante anos mantivemos uma relação de amizade.
E para nós professores esta situação se repete de ano em ano, com o passar de sucessivas turmas, e somos tentados a recorrer a um mecanismo de renovação afetiva, liberando o nosso afeto de uma amizade, para dar lugar a outra. Ou então lutamos contra a natural condição de insuficiência afetiva de nosso coração, que, segundo o grande mestre da etologia Konrad Lorenz, não tem uma capacidade afetiva ilimitada, decorrendo daí o perigo de, não podendo ter amizade com todos, terminemos por não tê-la com ninguém.
Se a despedida de uma turma amiga é sentida pelo professor, é este sentimento compensado pela satisfação que posteriormente sente, quando vê estes mesmos alunos vencerem na sua atividade, projetarem-se em seu campo de trabalho, destacarem-se em sua especialidade. Maior orgulho ainda sente o professor quando vê um aluno seu, que seguiu suas pegadas, adiantar-se-lhe, a ponto de ultrapassá-lo, pois quanto mais o aluno se destaca, maior o mérito do professor, que soube orientá-lo e encaminhá-lo. Se não for normal os alunos por nós formados nos ultrapassarem em conhecimentos, estaremos regredindo em vez de progredir.
E é saindo daqui, meus amigos, que dareis o primeiro passo para dentro do futuro que vos espera. Ele vos convida a destacar-vos ou na ciência e na pesquisa, ou no magistério, ou em ambos. Em qualquer dos ramos, porém, que escolheres, devereis estar preparados para enfrentar mudanças, talvez até, ou provavelmente mesmo, mudanças radicais. Durante os melhores anos da vossa atividade profissional, participareis destas mudanças e tereis que ajudar a humanidade a encontrar e a enveredar por um caminho novo, porque o que estamos trilhando está prestes a desembocar no cáos, em catástrofes imprevisíveis. Não é sem razão que nunca uma idéia se espalhou tão rapidamente e se firmou tão solidamente como a da ecologia, da preocupação pela conservação do ambiente. Há mais ou menos dez anos ainda se lia em jornal este comentário: “Não se preocupem, a mania da ecologia já quase terminou. No próximo ano teremos a Liberação da Mulher. Depois a contra-revolução masculina em 1972. E depois qualquer outra coisa”. Estamos encerrando 1977; muita outra coisa apareceu e sumiu do cenário, das manchetes e das telas, e a ecologia está aí, cada dia mais insistente, cada dia mais perturbadora. Passou da esfera intelectual e científica para o domínio popular. É urgente que seja aceita nas esferas oficiais, para que conste nos planejamentos e realizações governamentais o que até bem pouco era apenas preocupação de particulares, sob pena de serem mais válidas hoje do que então, as palavras que Jonathan Swift escreveu em 1726: “E assim exprimiu ele a sua opinião: quem quer que pudesse fazer crescer duas espigas de milho ou duas folhas de grama no lugar onde antes só crescia uma, mereceria mais gratidão da humanidade e prestaria à pátria serviço mais importante que o de toda a raça de políticos reunida”. E não é outra a situação que já enfrentamos; a cada dia aumenta inexoravelmente o número de ocupantes do nosso limitado planeta, e em lugar do aumento das áreas produtivas e de sua produtividade, constatamos sua redução, pela degradação em conseqüência do mau uso e pela desertificação, correndo paralelamente a degradação de todo o ambiente, pelos fatores poluentes os mais variados e cada qual mais terrível.
É a vossa geração que deverá dar o passo decisivo, que constitui talvez a última chance para a humanidade mudar o rumo. A ciência deverá identificar os erros e apontar os remédios, e o magistério educar para sua aceitação e posta em prática. Sei que nisto terá que entrar uma alta dose de generosidade e idealismo, porque por este trabalho não haverá quem pague condignamente. Mas afinal, alguém terá que dar o exemplo. Segundo a nossa mentalidade egoísta tudo é feito em função de benefícios próprios e imediatos, como bem diz Frank Frazer Darling, referindo-se aos desbravadores do oeste americano: “nossos objetivos não eram altruístas para conseguir mais alimentos para os nossos milhões de seres, e sim tudo aquilo que fosse produzido serviria para pagar a boa vida que havíamos escolhido”. E é tão lamentável esta nossa falta de altruísmo e, pelo contrário, tão desbragado nosso egoísmo, que ninguém recua perante a dilapidação de um patrimônio, que a natureza em milhões de anos de paciente atividade preparou, não só para nossos antepassados e para nós, como também para os nossos pósteros. É sintomática a atitude daquele lavrador, que alertado sobre os danos que estava causando às suas terras com suas práticas agrícolas incorretas e sobre as conseqüências que isto traria a sua posteridade respondeu que “a posteridade nunca tinha feito nada por ele”. E mais doloroso que tudo é a brutal realidade, que, à medida que embotamos nossa sensibilidade em relação aos bens da natureza, embotamos também a sensibilidade de nossa consciência em relação ao bem supremo, que é a vida dos nossos irmãos, a ponto de já se dizer cinicamente que “a morte de um indivíduo é uma tragédia, enquanto a morte de um milhão é uma estatística”.
Que gigantesca tarefa para os educadores, a de modificar esta mentalidade, de dominar a agressividade que de ano para ano mais se extravasa, como nos EEUU, onde no ano letivo de 1975, 63.000 professores foram agredidos por alunos, foram praticados por estes 270.000 roubos nas escolas, e danificadas propriedades escolares no valor de 200 milhões de dólares.
Como vêdes, amigos licenciados, tereis que contribuir para que muita coisa seja mudada, e mudada urgentemente. E esta é uma tarefa hércula, para dar conta da qual nossas forças humanas nos abandonam. Sabemos por demais como infelizmente o homem tecnológico, confiando apenas em si e em seus recursos, está sofrendo os efeitos da dispensa do auxílio do Criador. Como desejo de todo o coração que vossa atividade, onde quer que a desenvolvais, seja uma contribuição fecunda para dias melhores para a humanidade, quero terminar com uma prece ao Todo Poderoso, invocando suas bênçãos sobre vós e vossos futuros trabalhos.
“Senhor, pedimo-Vos que concedais um olhar benevolente para estes jovens no dia de sua formatura. Abençoai o seu contentamento e a alegria do seu coração, que compartilham com seus familiares. Melhor que ninguém, Vós sabeis quanto lhes custou chegar a este dia, e sabeis também que sem Vossa ajuda, solicitada ou não, não o teriam alcançado. Por isso em seu nome Vos agradeço todo bem que de Vós receberam. Tendo sido nossos alunos, confiados a nós para receber ensinamentos e formação, somos responsáveis, pelo menos em parte, pelo que são. Por isso Vos pedimos que com Vossa onipotência generosa compenseis as nossas limitações e acrescenteis o que por deficiência ou negligência nossa não receberam.
Vós sabeis em que mundo hostil serão agora lançados e as gigantescas tarefas que os aguardam. Encontrarão um mundo em que grassa uma onda de pessimismo e descontentamento, geradores de infelicidade; onde o modesto, o sóbrio, contente com o que tem, é induzido à insatisfação e à revolta, pela miragem do que podia ter; um mundo em que o amor está sendo substituído pela justiça; em que os que têm não são exortados a dar, mas os que não têm são ensinados a exigir; um mundo em que estamos regredindo do espírito de amor, para o espírito do olho por olho e dente por dente. Fazei que os que hoje encaminhamos para a vida profissional Vos encontrem neste mundo perturbado. Que Vos encontrem em seus irmãos: na inocência das crianças, no vigor dor adultos, na sabedoria dos velhos idosos. Que Vos encontrem ao contemplar, estudar e compreender vossa natureza. Que Vos encontrem e encontrando-Vos encontrem a verdadeira sabedoria e se tornem em Vossas mãos instrumentos para o bem, orando como orava Vosso Servo São Francisco:
“Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor.
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão.
Onde houver discórdia, que eu leve a união.
Onde houver dúvidas, que eu leve a fé.
Onde houver erros, que eu leve a verdade.
Onde houver desespero, que eu leve a esperança.
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria.
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó mestre, fazei que eu procure mais 
consolar que ser consolado.
Compreender que ser compreendido.
Amar que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
É perdoando que se é perdoado,
E é morrendo que se vive para a vida eterna”.

O PROFESSOR EM CAMPO



Foto 1 – Em atividade de campo no Rio dos Sinos, município de São Leopoldo/RS, década de 1970.

Foto 2 – Em atividade de campo na “Picada Verão”, município de Sapiranga/RS, década de 1980.


Foto 3 – Em atividade de campo, década de 1990.

O nosso mais sincero agradecimento por todos os ensinamentos

Para visualizar os demais trabalhos desenvolvidos pelo Pe. Clemente e o acervo do Projeto Plantas Medicinais acesse: http://www.anchietano.unisinos.br/index1.htm


FOTOS: acervo IAP
Texto: Denise Schnorr
Tradução latim-português: Pedro Ignácio Schmitz


Referências Bibliográficas

CATALOGUS PROVINCIAE BRASILIAE MERIDIONALIS SOCIETATIS IESU, Porto Alegre: Typographia do Centro, 1936, 1937, 1938, 1939, 1940, 1941.
CATALOGUS PROVINCIAE BRASILIAE MERIDIONALIS SOCIETATIS IESU, Porto Alegre: Tipografia do Centro S.A., 1942, 1943, 1944, 1945, 1946, 1947, 1948, 1949, 1950, 1951, 1952, 1953, 1954, 1955.
CATALOGUS PROVINCIAE BRASILIAE MERIDIONALIS SOCIETATIS IESU, Porto Alegre: Livraria Selbach, 1956, 1957, 1958, 1959, 1960.
CATALOGUS PROVINCIAE BRASILIAE MERIDIONALIS SOCIETATIS IESU, Porto Alegre: Gráfica Editora Santa Maria, 1961, 1962.
CATALOGUS PROVINCIAE BRASILIAE MERIDIONALIS SOCIETATIS IESU, Porto Alegre: Oficinas Gráficas da Tipografia do Centro S.A., 1963, 1964
CATALOGUS PROVINCIAE BRASILIAE MERIDIONALIS SOCIETATIS IESU, Porto Alegre: Oficinas da Gráfica Editôra a Nação S.A., 1965, 1966, 1967.
CATALOGUS PROVINCIAE BRASILIAE MERIDIONALIS SOCIETATIS IESU, Porto Alegre: Escola Gráfica DOM BOSCO, 1968.
CATALOGUS PROVINCIAE BRASILIAE MERIDIONALIS SOCIETATIS IESU, Sancti Pauli: Editus a Conferentia Provincialium S. J. in Brasilia, die 29 iulii 1969.
CATALOGUS PROVINCIAE BRASILIAE MERIDIONALIS SOCIETATIS IESU, 1970.
CATALOGUS PROVINCIAE BRASILIAE MERIDIONALIS SOCIETATIS IESU, São Paulo: Tipografia Canísio da Ação Social, 1971.
CATALOGUS PROVINCIAE BRASILIAE MERIDIONALIS SOCIETATIS IESU, São Paulo: Edições Loyola, 1972, 1973, 1974.
CATALOGUS PROVINCIARUM NECNON VICEPROVINCIARUM BRASILIAE SOCIETATIS IESU, São Paulo: Edições Loyola, 1975, 1976, 1977, 1978, 1979, 1980, 1981, 1982.
CATALOGUS PROVINCIARUM ET VICEPROVINCIARUM BRASILIAE SOCIETATIS IESU, São Paulo: Edições Loyola, 1983.
CATALOGUS PROVINCIARUM BRASILIAE SOCIETATIS IESU, São Paulo: Edições Loyola, 1984.
CATALOGUS PROVINCIARUM BRASILIAE SOCIETATIS IESU, Editus a Conferentia Provincialium S. J. in Brasilia. (CPJB). Sancti Pauli, die 1 martii 1985, 1986, 1987, 1988, 1989, 1991.
CATALOGUS PROVINCIARUM BRASILIAE SOCIETATIS IESU, São Paulo: Edições Loyola, 1993.
CATALOGUS PROVINCIARUM BRASILIAE SOCIETATIS IESU, Editus a Conferentia Provincialium S. J. in Brasilia. (CPJB). Sancti Pauli, die 1 martii 1994, 1995.
CATALOGUS PROVINCIARUM BRASILIAE SOCIETATIS IESU, São Paulo: Edições Loyola, 1999, 2002, 2003, 2004.


quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Profº. Drº. Pedro Ignácio Schmitz: 90 anos de vida



No dia 30 de agosto deste ano, comemoramos o aniversário do nosso mestre Profº. Drº. Pedro Ignácio Schmitz, nosso querido Padre Inácio. Organizou-se, em tal data, uma pequena festa surpresa em homenagem a este que foi mentor e amigo de muitos graduandos, mestrandos e doutorandos ao longo de sua trajetória acadêmica. 

Ad multos annus!

Foto 1: Pe. Ignácio chega a sua festa surpresa
Foto 2: Pe. Ignácio encontra Profª. Ítala Becker

Foto 3: O encontro de dois grandes amigos e colegas - Pe. Ignácio e Profª. Ítala Becker

Foto 4: Pe. Ignácio e Profª. Ítala Becker

Foto 5: Pe. Ignácio soprando as velas


Foto 6: Pe. Ignácio e Profª. Marluza M. Harres

Foto 7: Equipe e amigos.
Fileira superior da direita para esquerda: 1- Ms. Suliano Ferrasso; 2- Dr. Marcus Beber; 3- Gabriel Azevedo; 4- Raniere Rathke; 5- Drª. Marluza M. Harres; 6- Drª.  Marina Barth; 7- Acompanhante da Profª. Ítala; 8- Drº. Pedro Ignácio Schmitz; 9- Ivone Verardi; 10- Drª. Maria Salete Marchioretto; 11- Laura de Jesus d. S.  ; 12 - Msª. Fabiane Rizzardo; 13- Msª. Natália M. Mergen; 14 - Bernardo Ternus; 15- Dr. Luís Fernando Rodrigues. Fileira inferior da direita para esquerda: 1-  Dr. Jairo Rogge; 2- Jefferson Nunes; 3- Bióloga Denise Schnorr; 4- Drª. Ítala Becker.


Texto: Gabriel Azevedo de Oliveira
Imagens de: Fabiane Rizzardo; Marina Barth; Márcio Mattos.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

ARQUEÓLOGO: QUEM É VOCÊ, O QUE VOCÊ FAZ, PARA QUÊ ISTO SERVE?



Quando começamos nossos projetos de pesquisa, em 1965, arqueólogo ainda não era um conceito popular. Quando muito se confundia sua pessoa com a imagem cinematográfica de Indiana Jones. Já eram conhecidos e identificados os agentes de outros campos semelhantes, como botânico, geólogo, zoólogo, observador de pássaros, todos pessoas ‘extra-vagantes’. A arqueologia não estava ligada a grandes empreendimentos construtivos, que identificam seus operadores pelo equipamento, a vestimenta, a ostentação de poder econômico. O arqueólogo se identificava como professor, era pobre, não tinha crachá e se assemelhava mais a um peão de estância. E sua atividade podia ser, facilmente, confundida com coleta de coisas velhas e quebradas para uma coleção ou um museu, aventura de férias escolares, diletantismo ou mesmo excentricidade.

Como responder à primeira pergunta do primeiro curioso: O que você achou? Quais os objetos mais importantes de sua pesquisa? Como fazer entender que o trabalho fazia parte de um amplo programa, cujo objetivo era amostrar as culturas indígenas do território nacional, identificando seus assentamentos e artefatos, sua implantação no ambiente, sua cronologia e, se possível, seus descendentes indígenas coloniais. A história dos nossos índios?

Esta postagem quer mostrar como foram executados alguns de nossos projetos em termos de financiamento, hospedagem e mobilidade, credenciamento junto aos moradores e a comunidade, atividades realizadas, divulgação popular e científica.

Para o trabalho havia alguns recursos proporcionados pelo IPHAN e alguma bolsa pelo CNPq, um convênio universitário, eventualmente uma verba de outro órgão público. Nunca se pensou em remuneração pelo trabalho, que era considerado parte do cargo ou da bolsa dos membros da equipe ocasional. Mas era sério: produção e disponibilização de conhecimento, típica atividade universitária.

A recepção não foi igual em todos os lugares em que trabalhamos. Em alguns, os arqueólogos ficaram durante anos e nem os donos dos terrenos em que realizavam a pesquisa se interessaram pelo assunto. Em outros, a população local visitava, em massa, os locais de trabalho, obrigando a equipe a manter um guia para atende-la. Não chegamos a falar nas escolas porque a pesquisa era realizada durante o recesso escolar; só num caso, mas era a escola que se deslocava maciçamente para o sítio próximo, participando das atividades. Quem divulgava os achados era a rádio e o jornal da localidade; alguma vez foram entrevistas na TV, em outra um frequentadíssimo curso de extensão, ou a fala na igreja depois da missa dominical e até num jantar do Rotary Clube.

Durante os 50 anos de pesquisa pelo Brasil afora a equipe nunca foi rejeitada ou molestada pela população, nem tivemos perturbação ou destruição de nosso trabalho, com duas exceções, uma no sertão pernambucano, em que dois bêbados, na ausência noturna dos arqueólogos destruíram dois crânios expostos; a outra, em Serranópolis, onde um esqueleto que permanecera exposto após o término dos trabalhos do ano, foi desmantelado.

Hoje a história do índio é conhecida até os confins do território nacional.


***
CAXIAS DO SUL, RS. Pinheirais, colonização italiana, buracos de bugre.


Os colonos italianos de Caxias do Sul e arredores conheciam ‘buracos de bugre’, que engoliam bezerros nos potreiros e eram estorvo nas plantações. O bom mesmo era entulhá-los. Fernando La Salvia, professor de Geografia da Universidade de Caxias do Sul, participante dos simpósios da Área do Prata, foi o primeiro a fazer um levantamento deles, registrando 43 conjuntos em Caxias do Sul, 7 em Flores da Cunha e 4 em São Francisco de Paula. As ruinas dos antigos assentamentos dos ‘bugres’ algumas vezes só conservavam, superficialmente, alguns cacos de cerâmica, mas geralmente exibiam um, dois, até 50 ‘buracos de bugre’. Logo se pensou associar esses lugares aos índios Kaingang, dos quais se conheciam vários caciques lendários, famosos ao tempo da primeira colonização, como Braga, Doble, Nikué, por suas relações com os colonos alemães e estancieiros lusos. Em Caxias mesmo sobrevivia só um, convivendo pacificamente com os primeiros imigrantes. Os ‘buracos de bugre’ eram geralmente associados aos pinheirais, embora também houvesse alguns nos campos.

Mário Gardelin, que era Secretário de Turismo do município de Caxias achou o assunto interessante e assim nasceu um convênio com o Instituto Anchietano de Pesquisas Solidariamente se pensou numa pesquisa, para a qual foi escolhido um assentamento em Água Azul, composto por 36 estruturas entre casas subterrâneas e montículos funerários. Foram, então, escavados 4 ‘buracos’ entre grandes, médios e pequenos e 3 pequenos montículos próximos.

Por quem? Um grupo de jovens arqueólogos gaúchos e catarinenses ajudados por fortes trabalhadores contratados nas famílias italianas da comunidade e pagos pela Secretaria de Cultura de Caxias do Sul, em função de turismo futuro.

A equipe tinha condução da universidade e se hospedava numa pensão próxima.

O resultado? Os buracos foram logo interpretados como moradias de piso rebaixado, paredes e teto de palha sobressaindo do chão. Os montículos foram lidos como sepulturas de populações que praticavam manejo florestal, tendo como centro o pinheiro Araucária. O povoamento cobriu do século VI ao século XVIII, quando os povoadores começaram a ser conhecidos como Coroados, Guaianás e finalmente como Caingangues. Itala Irene Basile Becker fez o estudo minucioso dos costumes desses últimos.

Os materiais recuperados foram guardados no acervo do IAP sob os números de Catálogo 54-58, 74-77 e como Coleção Santa Lúcia do Piaí: M1 a M70. O material que ficou na Universidade de Caxias se extraviou.

Como foi a participação da comunidade local? O trabalho pesado das escavações foi realizado por trabalhadores contratados nas famílias locais; seus familiares vinham duas vezes ao dia trazer o lanche (pão caseiro, queijo, salame e vinho) levando de volta as novidades da escavação. Mário Gardelin, como jornalista, cuidava que os jornais espalhassem as notícias pelo Estado e o Brasil (veja abaixo).

E o pinheiral, em que se encontrava o assentamento, em algumas horas do dia parecia vivo com a gente que se movia ao redor dos buracos dando seus palpites.

Para os colegas arqueólogos ficaram os seguintes textos:

SCHMITZ, P.I. (cood.). 1967. Casas subterrâneas no planalto do Rio Grande do Sul. In: Arqueologia no Rio Grande do Sul, Pesquisas, Antropologia 16: 2-10.


BASILE BECKER, I.I. 1976. O índio Kaingang no Rio Grande do Sul. Pesquisas, Antropologia 29, 264 páginas.

LA SALVIA, F. 1983. A habitação subterrânea: uma adaptação ecológica. In: Günter Weimer (org.). A arquitetura no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Mercado Aberto, p. 7-26.

SCHMITZ, P.I.; BASILE BECKER, I.I.; LA SALVIA, F.; LAZZAROTTO, D.; MENTZ RIBEIRO, P.A.  1988. Pesquisas sobre a Tradição Taquara no Nordeste do Rio Grande do Sul. Arqueologia do Rio Grande do Sul, Brasil. Documentos 2: 5-74.

SCHMITZ, P.I.; BASILE BECKER, I.I. 1991. Os primitivos engenheiros do Planalto e suas estruturas subterrâneas: a Tradição Taquara. In: Schmitz, P.I. (org.). Pré-História do Rio Grande do Sul. Arqueologia do Rio Grande do Sul, Brasil. Documentos 5: 67-105.
E os jornais?

 Folha da Tarde, 8 de maio de 1967. Arqueólogos descobrem aldeia indígena de idade desconhecida em Caxias do Sul, 10 x 10 cm.
18 de maio de 1967. Arqueólogos querem reconstruir aldeia subterrânea em Caxias do Sul, 21 x 14,5 cm.

Correio do Povo, 21 de maio de 1967. Pesquisas arqueológicas em Caxias do Sul revelam povo indígena desconhecido, 28 x 14 cm.

Folha da Tarde, 11 de janeiro de 1968. Convênio em Caxias, 16 x 4,5 cm.

Correio do Povo, sem data conhecida. De Mário Gardelin: Estudo de anos, um prefeito entusiasmado, o local, a casa grande, 27 x 9,5 cm.

Jornal do Brasil, 8 de janeiro de 1969. Índios gaúchos moravam no subsolo, 47 x 21 cm.

O Pioneiro, Caxias do Sul, 6 de março de 1969. Sítio arqueológico. Pesquisador estuda os vestígios, 18 x 26 cm.

Correio do Povo, 29 de maio de 1969. Arqueólogos confirmam: Casas subterrâneas de 1.500 anos em Caxias, 16 x 9 cm.
8 de junho de 1969. O mundo que a terra esconde, 52 x 33 cm.

Zero Hora, 17 de junho de 1969. Cavernas misteriosas na Serra (Veranópolis), 36 x 23 cm.

Jornal do Brasil, 17 a 24 de junho (1969?). Índios viviam em subterrâneos, 40,5 x 19 cm.

O Estado de São Paulo, 3 de julho de 1969. Achado em Caxias um cemitério do ano 800, 50 x 19 cm.
29 de agosto de 1969. Descobertas arqueológicas na zona de Caxias do Sul datam do ano 430 DC, 12 x 9 cm.

Jornal do Sinos, 5 de setembro de 1969. Instituto Anchietano incentiva pesquisa, 35 x 36 cm.

Correio do Povo, 2 de novembro de 1969. Mário Gardelin: O tesouro do Morro Grande, 14 x 36,5 cm.

Folha da Tarde, 2 de setembro de 1969. Arqueologia esquecida não tem verbas. (Fernando La Salvia), 36 x 25 cm.

Este foi o primeiro contato com as casas subterrâneas. Dele resultaram as primeiras explicações e surgiram outras tantas questões que ocupariam a equipe em outros tantos projetos: Vacaria (veja adiante), São Marcos, no Rio Grande do Sul; Taió e São José do Cerrito, em Santa Catarina.

Figura 1: Escavando uma casa pequena.


Figura 2: Um túmulo que ia ser escavado e seus expectadores.

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SANTA VITORIA DO PALMAR, RS. Cerritos, campos de touros, coleções.

Emídio P. Martino, dono da Farmácia Central, durante seis meses, usou a Rádio local, na hora dos avisos e recados do meio-dia, para anunciar que viriam uns arqueólogos. Se nos banhados de sua fazenda existiam cômoros nos quais o gado se abrigava durante as inundações de inverno, que passasse na farmácia para deixar a informação e juntamente a autorização para os arqueólogos os visitarem. Nessa hora todos os rádios das fazendas estavam ligados e os fazendeiros em estado de alerta.

Foi assim que, no verão de 1967, quando os arqueólogos se apresentaram na Farmácia Central, o dono lhes entregou um mapa com a localização de 42 sítios distribuídos pelo extenso município e as correspondentes autorizações de acesso. Na porta esperava um jipe com o motorista da prefeitura que conhecia todos os caminhos, e também havia uma reserva no Hotel Brasil.

 Em 15 dias a pequena equipe (Schmitz, Basile Becker, La Sálvia e Ir. Valeriano [Guilherme Naue]) visitou os sítios do mapa que somavam uma centena e meia de aterros, localmente conhecidos como ‘cerritos’. Problema de acesso não havia, porque, além da autorização por escrito, quando o jipe chegava na sede da fazenda, o motorista puxava o revolver para a frente e tranquilizava: ‘agora podemos ir’.

Foram realizados cortes em aterros grandes e pequenos, uns e outros acampamentos de populações caçadoras, mas só nos pequenos apareciam sepultamentos estendidos e um pouco de cerâmica (tradição Vieira), deixados por uma população meridional antiga, antecessora de Charruas e Minuanos. Sem datas.

Durante os anos de pesquisa nenhum humano ia conferir nosso trabalho, mas era frequente a companhia de uma centena de jovens touros, que ficavam olhando os buracos sem entender. Mas na hora do meio-dia chegava o pesado touro dono do campo; diante dos profundos cortes estratigráficos, berrava desesperadamente porque algum competidor teria feito buracos maiores que os que ele deixara.

Este foi o primeiro contato com os ‘cerritos’. O trabalho foi interrompido por ocasião de uma chuva interminável e apesar da promessa de que voltaríamos no ano seguinte, o trabalho nunca foi retomado. Cerritos foram, depois, estudados pela equipe nos municípios de Rio Grande, Camaquã, Palmares do Sul e Osório. 

Devido à dispersão da população nas grandes estâncias de criação, a rádio era mais eficiente que o jornal para manter a comunidade ao par dos resultados, como tinha sido para sua localização. E assim aconteceu que, num meio-dia de muito calor, fiquei encerrado na cabine da rádio do município falando durante uma hora sem interrupção sem ver ninguém, mas sendo escutado por muitos.
O material foi recolhido ao acervo do IAP: números 102-124, 135, 534-568. Ali também está grande amostra de restos biológicos e muito poucos restos humanos.

É necessário admitir que, se o trabalho dos arqueólogos proporcionou uma primeira visão geral da ocupação indígena nos dois últimos milênios, seus materiais são muito pobres quando comparados com os das ricas coleções que algumas pessoas antigas, não tão antigas e até atuais têm em suas casas.


A publicação também saiu muito atrasada: SCHMITZ, P.I.; GIRELLI, M.; ROSA, A.O. Pesquisas arqueológicas em Santa Vitória do Palmar. Arqueologia do Rio Grande do Sul, Brasil. Documentos 7: 5-96, 1997.

SCHMITZ, P.I.; NAUE, G. (Ir. Valeriano); BASILE BECKER, I.I. apresentam uma síntese ampla em ‘Os aterros dos campos do Sul: a tradição Vieira’. Arqueologia do Rio Grande do Sul, Brasil. Documentos 5: 107-132.

O jornal Liberal, em 30 de janeiro de 1971, publicou a única notícia. Visitantes ilustres, (os arqueólogos), 12 x 6 cm.

 Figura 1: La Salvia e Basile Becker e um peão escavando aterro. Do acervo do IAP.


Figura 2: Material de uma coleção. Do acervo do IAP.


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VACARIA, RS. Antes de Vacaria missioneira, antes de Vacaria paulista, casas subterrâneas e abrigo funerário.


A partir de 1997, depois de longa estada pelos cerrados do Brasil tropical, a equipe do Instituto Anchietano de Pesquisas voltou às casas subterrâneas do Planalto Meridional buscando, agora, especificamente, compreender a estrutura e utilização das casas, a composição da aldeia, o tempo e o ritmo dessa construção.

No interflúvio entre os rios Quebra-Dentes e Refugiado, afluentes do rio das Antas, foram localizados 11 assentamentos com muitas casas subterrâneas e um abrigo funerário com quantidade de ossos humanos superficiais misturados.

Tínhamos condução própria e nos hospedamos em hotel da cidade.

Foram escolhidos para estudo três sítios: o sítio RS-A-27, de Nelson Lima e Agostinho Vieira, com13 casas, um montículo grande e um médio; o sítio RS-A-29, de Pedro Vieira Borges, com 20 casas, um montículo grande e cerca de 20 estruturas menores, que pareciam ser túmulos individuais; o sítio RS-A-28, de Dinartino Borges de Vargas, um minúsculo abrigo rochoso em alto paredão basáltico, junto a uma queda de água e na proximidade de um assentamento com casas subterrâneas.

No primeiro assentamento foram realizadas intervenções em oito casas e no montículo grande; e, entre as casas, foram realizados 100 cortes de 1 x 1 m. Nas intervenções se recuperou grande quantidade de cerâmica. As datas do sítio indicam ocupações do século X ao século XIX de nossa Era.

No segundo assentamento foram realizadas escavações em sete casas e no montículo, com resultados semelhantes ao primeiro.

No abrigo funerário, conhecido localmente como ‘Perau das Cabeças’, os biólogos da equipe identificaram partes de ao menos 65 indivíduos, de ambos os sexos, representando 47 adultos, um adulto jovem, cinco jovens, 10 crianças e dois lactentes, provenientes de vários assentamentos com casas subterrâneas e ali depositados superficialmente e sem acompanhamento.

Os resultados corresponderam generosamente às questões formuladas sobre a construção e ocupação das casas e sobre a paulatina estruturação do assentamento. O abrigo funerário abriu uma janela para o tratamento dos mortos pelos ancestrais dos índios Kaingang: quando na proximidade havia um abrigo, ali eram depositados os mortos; quando não, eles eram enterrados em túmulos individuais. Posteriormente foram estudados diversos abrigos funerários coletivos, mas também numerosos túmulos individuais.

As estruturas de povoamento estavam preservadas em campos e capões de mato, sem chamar atenção e sem estorvar as atividades pastoris, como fenômenos da própria natureza. Para o trabalho no lugar não precisamos nenhum credenciador local; nossas pesquisas anteriores atestavam nossa competência. A relação com os proprietários tanto no RS-A-27, como no RS-A-29, agropecuaristas familiares lusos, se tornou uma relação de amizade, quase de familiaridade, mas sem curiosidade com relação aos resultados porque estes ficavam muito distantes do seu lidar cotidiano.

Era diferente a reação dos vizinhos do abrigo funerário. Ele fora transformado em lugar de respeito e peregrinação e nele havia uma cruz. Durante um mês os biólogos da equipe estudaram os ossos e, como não deram conta do serviço, foi pedido um empréstimo dos ossos por um mês para estudo em laboratório. Passados, então, três meses sem a prometida devolução, os moradores do lugar reclamaram a devolução dos ‘seus’ ossos. Lá estão eles de volta, associados e misturados em seu pequeno nicho, borrifados pela água que, da chapada se precipita paredão abaixo, para, depois de irrigar a densa floresta da encosta, se misturar às do rio Refugiado. Alguma vez durante o ano o murmurar da cascata, que embala os ossos, é interrompido por um grupo de pessoas que vêm rezar e cantar junto a eles, pedindo sua proteção.

Os materiais cerâmicos e lítios foram depositados do IAP: 1266-1333, 1266bis-1271bis, 1273bis-1275bis, 1354-1420, 1422-1577.

As observações arqueológicas, deram origem a várias publicações.

ROSA, A.O. 1999. Sepultamentos indígenas no Planalto Meridional do Rio Grande do Sul. Anais da X Reunião da SAB. Em CD-Rom.

KREVER, M.S.B; HAUBERT, F. 2001. Estudo dos remanescentes humanos do Planalto Sul-Riograndense: Projeto Vacaria. Anais da XI Reunião CientífiCa da SAB. Em CD-Rom.

SCHMITZ, P.I.; ROGGE, J.H.; ROSA, A.O.; BEBER, M.V.; MAUHS, j.; ARNT, F.V. 2002. O Projeto Vacaria: Casas subterrâneas no planalto rio-grandense. Pesquisas, Antropologia 58: 11-105.

SCHMITZ, P.I.; ROGGE, J.H. 2004. Dados e reflexões para o sistema de assentamento de populações ceramistas do Planalto do Rio Grande do Sul. Revista de Arqueologia 17: 101-115,
E os jornais divulgaram adequadamente.

Correio Vacariense, 29 de novembro de 1997. Estudos arqueológicos nesta região. Estudos arqueológicos em torno de Vacaria. 26 x 17 cm. Caricatura: escavações arqueológicas em Vacaria, 11 x 17 cm.

Jornal da Serra, 29 de novembro de 1997. Arqueólogos realizam pesquisa em Vacaria. Sítio arqueológico será pesquisado em Vacaria. 26 x 15,5 cm.

Correio Vacariense, 27 de janeiro de 2001. Arqueólogo conta a verdadeira história sobre os Índios Caingangues na região de Vacaria, 20 x 18,5 cm.
03 de fevereiro de 2001. Os chamados ‘buracos de bugres’ são conjuntos que formaram as antigas aldeias, 11 x 16,5 cm e 16 x 25 cm.
7 de fevereiro de 2001. Pesquisadores da Unisinos descobrem cemitérios dos Índios Cainguangues, 17,5 x 12 cm.
31 de janeiro de 2001. Índios Caingangues habitavam os Campos de Cima da Serra, 24 x 17 cm.

Pioneiro, 27 e 28 de janeiro de 2001. Caingangues têm história desenterrada. Grupo de arqueólogos está fazendo um estudo sobre aldeias indígenas, realizado na localidade de Refugiado 20 quilômetros de Vacaria durante os três anos de trabalho, elementos bastante significativos foram descobertos. 32 x 26 cm. As aldeias abrigaram diversas gerações, 13 x 26 cm.

Correio Vacariense, 27 de janeiro de 2001. Descobertas trazem novos dados, 21 x 8 cm.

Correio do Povo, 4 de fevereiro de 2001. Caingangues moravam em casa subterrânea, 9,5 x 26 cm.


Figura 1: escavando uma casa grande e pouco profunda. Do acervo do IAP.



Figura 2: Biólogos estudando os esqueletos do abrigo funerário. Do acervo do IAP.


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IÇARA, SC. As vacas de Mussuline e o cemitério indígena.

O projeto surgiu do convite de escavar um sambaqui feito pelo coordenador de Curso de Aperfeiçoamento na UNISUL, Criciuma, no qual dei uma disciplina sextas-feiras à noite. O sambaqui estava ameaçado de destruição por comerciante de areia e seria a oportunidade para conhecer esse tipo de assentamento arqueológico. Não era este o sítio predestinado para o momento; mais tarde fizemos a escavação.

Preparado o projeto, numa segunda-feira, a Kombi da UNISINOS nos deixou no lugar com o equipamento para estabelecer o canteiro de escavação. Acontece que o sítio era uma duna no meio de campo de dunas, corria um forte vento nordeste e em minutos os arqueólogos se tinham transformaram em estátuas de areia. Fim de projeto, embarcar e voltar para casa.

Será que na região não existe outro sambaqui interessante? Foi a pergunta.

Um guardador de vacas em campo próximo se achega: “No campo em que eu cuido as vacas de Mussuline Zanette existem conchas espalhadas na superfície da grama. Eu levo vocês até lá.” E ali, naquele dia e momento, nasceu o projeto Içara, um dos mais interessantes que chegamos a fazer.

Na barranca de antiga barra abandonada do rio Araranguá, no capim ralo do campo das vacas, apareciam realmente conchas marinhas formando manchas mais ou menos isoladas. A sondagem executada mostrou uma fina, mas intacta camada de conchas, predominantemente ostras, com grande quantidade de ossos de peixe, destacando-se os de bagres adultos. Havia também ossos bem conservados de antas, porcos do mato e veados, que cobriam os esqueletos humanos, um cemitério.

A Secretaria de Cultura do município nos ofereceu abrigo em escola próxima e a Kombi da APAE nos levava e buscava.

Em verões sucessivos, a escavação cobriu 364 m2, aproximadamente a metade do sítio, recuperando restos de 84 indivíduos humanos, entre homens, mulheres, crianças, jovens, adultos e velhos, além de toneladas de conchas, ossos de peixe e de mamíferos, muitos instrumentos líticos semelhantes aos das casas subterrâneas do planalto, reduzidos a pequenos fragmentos.

Dos esqueletos humanos, alguns estavam inteiros e conservados, outros chamuscados ou parcialmente queimados, outros, enfim, reduzidos a pequenos fragmentos calcinados ou a mera cinza; estes formavam pacotes mais ou menos densos, que conservavam a forma e o tamanho dos cestos em que tinham sido carregados. A maneira em que os mortos foram depositados responde à distância temporal e espacial entre a morte e a deposição, sendo os falecidos na proximidade sepultados de corpo inteiro (estendido ou fletido), os menos próximos transformados em fardo e assim carregados, ou o corpo submetido a uma cremação incompleta do corpo; os mais afastados teriam os esqueletos já secos cremados,  colocados num cesto e, na oportunidade, levados para o repouso no jazigo à beira do rio; se a ida para o cemitério demorasse, num mesmo cesto podiam estar juntadas as cinzas de até oito indivíduos morridos nesse prazo.

Feita a deposição, os parentes enlutados permaneceriam algum tempo festejando os falecidos para, novamente, voltarem a migrar na planície litorânea até uma próxima visita. Os restos dos animais consumidos na ocasião indicam que a visita se dava no verão, quando os grandes bagres entravam pela boca do rio para desovar nas nascentes.  As primeiras visitas teriam encontrado junto à foz do rio um banco de ostras de tamanho extraordinário por não ter sido anteriormente explorado. A camada de resíduos não é espessa, e forma círculos ao redor das covas de sepultamento, indicando os espaços ocupados pelos enlutados através do tempo. Nenhum fragmento cerâmico.

Duas datas de carbono 14 colocam o sítio no século VI de nossa Era.

A pergunta passou a ser: quem é você? Ela continua dividindo os arqueólogos, puxando-os para dois lados: sambaqui ou grupo Jê meridional.

Como as escavações eram realizadas na temporada de veraneio, e o sítio está perto da praia do Rincão, a visita de moradores próximos e distantes não parava, sendo necessário liberar um dos arqueólogos para atender as pessoas e cuidar das vacas e dos bezerros que cercavam as quadrículas. Os comentários dos visitantes eram os mais desencontrados; é que no local havia uma comunidade tradicional de açorianos, uma igreja pentecostal, italianos como a família de Mussuline e passavam veranistas de toda classe.

Os bezerros, por sua vez, se comportavam como crianças; enquanto você os fitava, tinham a cara mais inocente, quando virava as costas pulavam para dentro do canteiro, mexiam em tudo e aí deixavam sua marca, um belo cocô. Ainda mais sapeca era uma vaquilhona preta, de cabeça levantada, que não respeitava nem a densa grade que cobria os esqueletos à noite e, de manhã, estava ali sua marca, como a dos bezerros.

O material está guardado no acervo do IAP: o lítico sob os números A.1 a Z.15; o zoológico e o humano separados.

O estudo do assentamento produziu uma dissertação e várias publicações. Diversos arqueólogos retomaram o material guardado, mediram os crânios, fizeram DNA e a discussão da identidade do sítio continua: sambaqui ou grupo Jê meridional.

As publicações:

GOMES, M.P. 1998. Os sepultamentos do sítio arqueológico de Içara, SC (SC-IÇ-O1), Trabalho de conclusão do curso de História da UNISINOS, São Leopoldo.

GOMES, M.P.; HAUBERT, F.; KREVER, M.L.B. 1999. Os sepultamentos de Içara I: as formas de sepultamento. Revista do CEPA, 23(29): 31ss. Santa Cruz do Sul, UNISC.

SCHMITZ, P.I.; ROSA, A.O.; IZIDRO, J.M.; HAUBERT, F.; KREVER, M.L.B.; BITENCOURT, A.L.V.; ROGGE, J.H.; BEBER, M.V. 1999. Içara: um jazigo mortuário no litoral de Santa Catarina. Pesquisas, Antropologia 55, 164 páginas.

IZIDRO, J.M. 2001. O jazigo funerário de Içara no contexto litorâneo catarinense (Dissertação de Mestrado). São Leopoldo, UNISINOS. 155 páginas, anexos.

Os jornais espalhavam generosamente as notícias e traziam mais e mais visitantes.  
  
Diário de Notícias, 22 de julho de 1992. Ossos humanos, armas e cerâmica rústica. Sambaquis de Índios Charruas descobertos em Barra Falsa, 42 x 32,5 cm.

Diário Catarinense. 12 de janeiro de 1994. Descoberta ossada de 2 mil anos. 13 x 14,5 cm.

Tribuna Criciumense, 14 de janeiro de 1994. Escavações com novas descobertas prosseguem na Barra Velha – Içara. 9 x 22 cm.

Zero Hora, 14 de janeiro de 1994. Arqueologia. Descobertas ossadas de 2 mil anos. 15 x 15 cm.

Vale do Sinos, 29 e 30 de janeiro de 1994. Índios cremavam mortos no Sul há dois mil anos. 15 x 9 cm.

Primeira Hora, Vale do Caí. 3 de fevereiro de 1994. Arqueólogo de Bom Princípio descobre ossadas indígenas em Santa Catarina. 14 x 10 cm.

Boletim Informativo de Içara, s.d. (1995). Pesquisas arqueológica têm continuidade na Barra Velha, 16 x 11 cm.

Jornal Olho Vivo, 30 de junho a 7 de julho de 2000. Unisinos publica resultados das escavações arqueológicas em Içara, 14 x 17 cm.


Figura 1: Escavando no campo de vacas. Do acervo do IAP.

Figura 2: Visitantes. Do acervo do IAP.

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SERRANÓPOLIS. GO. Os caçadores 12.000 anos atrás não viviam sem pintar toda a casa.

Em 1973, depois de sete anos de pesquisa no Sul, começou o Programa Arqueológico de Goiás, com cinco projetos de 20.000 Km2 cada um: um no Norte, um no Sul, um no Leste, um no Oeste e um no Centro. No primeiro ano foi executado o do Centro, junto ao rio das Almas, um dos formadores do rio Tocantins. No segundo ano, o do Oeste, junto ao Alto Araguaia. No terceiro ano a área prevista, do Leste, junto ao rio Paraíba, se mostrou muito vazia e seria necessário buscar outra área. Foi então que Binômino da Costa Lima, de Jataí, nos surpreendeu com um recado urgente, falando que em Serranópolis, no Sudeste de Goiás, conhecia 40 abrigos rochosos pintados e que ainda ninguém aceitara pesquisa-los. Ele acompanhara as notícias do jornal sobre nossas pesquisas e ficou desesperado quando o mesmo jornal noticiou que em vez de continuarmos nossa rota para o Sul, estávamos infletindo para o Leste. Foi assim que ganhamos o melhor projeto do Programa, fora da programação prevista.

As pesquisas em Serranópolis nos ocuparam em 1975, 1976, 1978, 1980, 1982 e 1999. Foram realizados cortes estratigráficos em todos os abrigos, além de uma escavação de 40 m2 no maior deles. As pinturas e petroglifos foram todos documentados.

Para o lugar existem várias dezenas de datações por C14, mostrando que a ocupação teria iniciado no fim do último período glacial, ao redor de 12.500 anos atrás. A história do povoamento dos abrigos mostra três períodos, o primeiro de caçadores, denominado tradição Itaparica; o segundo, também de caçadores, denominado tradição Serranópolis; o terceiro, de cultivadores ceramistas, denominado tradição Una, o qual se estendeu até a colonização europeia. A arte rupestre foi denominada fase Serranópolis.

Como éramos estranhos na região, precisávamos de credenciamento.

O primeiro que acreditou em nosso trabalho foi Sr. Binônimo, importante morador de Jataí, que nos apresentou ao Sr. Manuel Braga, proprietário do lugar em que iríamos começar o trabalho. Este nos recebeu amistosamente e explicou que anos atrás teriam acampado ali uns índios, que deixaram pintadas as paredes das grutas. Falou ainda que estava abrindo um caminho a partir da estrada para as pessoas terem acesso aos abrigos para ver as pinturas, e que desbastaria o cerrado que cercava os paredões para sua maior visibilidade.

Expliquei a ele que as pinturas podiam ter dez mil anos e pedi que mantivesse o cerrado e protegesse as preciosas pinturas. Sua família passou a nos receber com doces como se fôssemos da família, uma das filhas abriu uma Pousada (a das Araras) e seu Manuel, mais tarde me comunicou, orgulhoso, que tinha mantido o cerrado, um dos poucos preservados na região e agora bem valorizado.

O segundo credenciamento foi o da dona da pensão, onde parávamos na então ‘corrutela’ de Serranópolis e espalhou pelo povoado: ‘Eles são diferentes do rondonistas que ficam tomando cerveja no bar; saem de manhã para o trabalho e voltam de noite; nos domingos estão em casa passando a limpo suas anotações.’

O terceiro foi do Sr. Diogo Lemes da Silva, no qual fizemos a escavação e que nos hospedou na velha casa de sua fazenda. Depois de três semanas de escavação no GO-JA-01, em janeiro de 1978, parte da equipe voltou a Goiânia para ver os familiares e na volta trouxeram o jornal O Popular, que em sua primeira página estampava em grandes letras ‘Serranópolis teve um primeiro povoamento há mais de 10.000 anos atrás’. Seu Diogo: ‘Então vocês não estão brincando’, convidou os fazendeiros vizinhos para uma reza do terço, um churrasco e um grupo de pagode animou uma famosa noite. Um companheiro da equipe trouxe uma placa de metal de mais de um metro de altura, que foi solenemente inaugurada com a presença das autoridades.

Não tardou o reconhecimento social: a fala num jantar do Rotary em Jatai, o título de cidadão honorário de Serranópolis, o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Católica de Goiás, mais tarde a patronagem do Laboratório de Arqueologia do Museu Histórico de Jataí para o líder da equipe, promoções todas de nosso patrono Binômino da Costa Lima e do coordenador do projeto pela Universidade Católica de Goiás, Prof. Altair Sales Barbosa.

Aconteceram duas depredações: a destruição do único sepultamento do GO-JA-01 (foto abaixo) no interstício de duas expedições, a intervenção indevida nas pinturas, que o jornal noticiou amplamente.  
Publicados os resultados, vieram os questionamentos nacionais e de alguns norte-americanos a respeito da idade e da representatividade de Serranópolis na ocupação do continente. A aceitação se tornou geral quando pesquisadores treinados e aceitos em importantes centros europeus retomaram os materiais, discutiram as propostas anteriores e confirmaram Serranópolis como um lugar central para compreender o povoamento americano em sua área tropical.

Os materiais resgatados foram divididos entre o IGPA/UCG e o IAP/UNISINOS. No acervo do IAP: GO-JA-437-453, 467-533, 680-764, 1144-1172, 1264bis. Grande amostra de restos biológicos. Cópias originais de pinturas e petroglifos.

Publicações de referência:

SCHMITZ, P.I; SALES BARBOSA, A.; JACOBUS, A.L.; RIBEIRO, M.B. 1989. Serranópolis I. Pesquisas, Antropologia 44, 208 páginas.

SCHMITZ, P.I.; SILVA, F.; BEBER, M.V., 1997. Serranópolis II: As pinturas e gravuras dos abrigos. Instituto Anchietano de Pesquisas: Publicações Avulsas 11.

SCHMITZ, P.I., ROSA, A.O.; BITENCOURT, A.L.V. 2004. Serranópolis III. Pesquisas, Antropologia 60, 285 páginas,

FOGAÇA, E.; LOURDEAU, A. 2008. Uma abordagem tecno-funcional e evolutivo dos instrumentos plano-convexos (lesmas) da transição Pleistoceno/Holoceno no Brasil Central. Fundhamentos 7: 261-347.

LOURDEAU, A. 2010. Le technocomplexe Itaparica: définition technofonctionnelle des industries à pieces faconnées unifacialement à une face plane dans le centre et le nord-est du Brésil pendant la transition Lléistocène-Holocène et l’Holocène ancien. Tese de doutorado. Nanterre: Université Paris Ouest.

Os jornais:

Correio do Povo, 10 de agosto de 1975. Pesquisadores gaúchos descobrem em Goiás grande depósito arqueológico. 40 x 14 cm. Ossos reabrem debate sobre o primeiro brasileiro. 35 x 10,5 cm.

O Estado de São Paulo, 25 de agosto de 1976. Cientistas estudam brasileiro de 11 mil anos. 23 x 11 cm.

O Globo, 25 de fevereiro de 1976. Descobertas as ossadas mais antigas do Brasil, 15 x 23 cm.

O Popular, 16 de janeiro de 1980. UFG (errado UCG) levantará clima de há 10 mil anos. UCG reconstitui clima goiano de há 10 mil anos. Arqueólogos virão para um seminário, 31 x 18 cm.

Folha de Goiás, 3 de agosto de 1982. Arqueologia. Em Goiás, a prova de 12 mil anos de existência de índio; e IGPA, recupera 50 anos. 50 x 33 cm (página inteira).

Folha de São Paulo, 26 de fevereiro de 1996. Arqueólogo vê espaçonaves em estranhos desenhos rupestres. 31 x 30 cm.

O Popular, 4 de fevereiro de 1996. Descoberto esqueleto de 10 mil anos. Encontrada em Serranópolis/GO o que pode ser a mais antiga ossada humana do Brasil. 25 x 15,5 cm.

O Popular, 4 de fevereiro de 1996. Encontrado esqueleto de 10 mil anos. Ossos podem ser mais antigos descobertos no País e revelam dados importantes do passado. 33 x 16 cm. Visitas às escavações, 12 x 11 cm. Região é referência, 7 x 11 cm. Chegada dos pesquisadores, 8 x 11 cm.

Folha do Sudoeste, 28 de julho a 4 de agosto de 1999. Ciência. O que faziam os homens por aqui há 11.ooo anos. 17 x 33 cm. Pousada das Araras. Cientistas estudam como os povos habitavam a região, há cerca de onze mil anos, uma população de pouco mais de 30 pessoas migrava até 300 quilômetros, mas tinham a “Pousada das Araras” com referência, 46 x 33 cm.

O Popular, 1º de agosto de 1999. Pintura de 11 mil anos é retocada, 30 x 20 cm. Decoração das casas primitivas, Morador descobriu as pinturas. Projeto é exemplo de preservação, 52 x 20 cm. Estacas de passarela revolvem sedimentos. Carpinteiro acha que ajudou a melhorar aspecto da gruta. Especialistas pesquisam solventes para a remoção, 52 x 29 cm. Funcionário contratado pela Funatura copia e retoca pinturas rupestres de 11 mil anos em um dos mais ricos sítios arqueológicos da América do Sul. Crime contra a Pré-História, 26 x 3 cm.


Figura 1: a grande placa do abrigo GO-JA-01. Do acervo do IAP.

Figura 2: O sepultamento do abrigo GO-JA-01, que foi destruído no intervalo entre duas expedições. Do acervo do IAP.

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CORUMBÁ, MS. Centenas de aterros e extensas gravuras.


Como para Goiás, tínhamos um programa de quatro projetos de 20.000 km2 também para o Mato Grosso do Sul. Depois do Projeto Alto Sucuriu, no planalto, chegara a vez do Projeto Pantanal.

Assim, sob o guarda-chuva de um convênio com a UFMS, em julho de 1990, a equipe se deslocou a Corumbá, onde aguardavam o geógrafo Sérgio Izquierdo e a geóloga Angélica Bezerra. Eles não conheciam nenhum sítio arqueológico, mas Angélica lembrava ter visto algumas conchas na borda do grande lago Jacadigo. Fomos, na sua margem e nos campos alagadiços vizinhos havia realmente grandes aterros de conchas e ossos de peixes. Logo, o dono de uma pousada na outra margem do rio Paraguai informou que, ao nivelar uma pista de pouso para pequenos aviões, teriam surgido ossos humanos. Numa visita, no sábado seguinte, contamos mais algumas dezenas de aterros.

Sabendo da chegada dos arqueólogos, o caixa do Banco do Brasil falou a um deles que na encosta florestada do Maciço do Urucum, onde cultivava suas verduras, apareciam fragmentos de grandes panelas de barro.

Depois chegou a notícia de grandes lajedos cobertos por extensas e profundas gravuras, como os do Dr. Moutinho, Fazenda Figueirinha e da chácara dos Salesianos. No fim já eram 5.

E finalmente os jovens da Pastoral da Terra, que trabalhavam com o bispo local, informaram sobre os restos de duas missões do período imperial do Brasil.

Este foi o material com que nos ocupamos nos seguintes nove anos. Centenas de aterros de uma população que pescava, caçava e recolhia moluscos de água doce ao longo das lagoas e nos campos que alagavam anualmente; cinco grandes lajedos horizontais cobertos de extensas e profundas gravuras; várias aldeias de agricultores guaranis na encosta florestada do Maciço do Urucum; e ruinas de duas missões religiosas de meados do século XIX.

O primeiro aterro, do início do povoamento do pantanal, data de 8.500 anos atrás; a partir de 5.000 anos eles se multiplicam e passados mais dois milênios começam a produzir a cerâmica da tradição Pantanal, que hoje os identifica. As gravuras, geométricas ou representando pisadas de animais, certamente eram deles e podiam funcionar como orientação para seus passos de dança nas festas rituais.

Ao tempo da Conquista viviam na área índios canoeiros e pescadores da família linguística Chaquenha, como Guaicurus e Paiaguás.

As aldeias guaranis faziam parte da província do Itatim, da família linguística Tupi-guarani. Ao tempo da Conquista, alguns serviam aos colonos espanhóis da cidadezinha espanhola de Xerez, outros foram missionados pelos jesuítas e reunidos em reduções.

Ao pé do Maciço do Urucum e em terrenos mais secos do interior do Pantanal, viviam índios da família linguística Arawak, como os Xaray e Chané (Laianá e Terena), que, no século XIX, foram reunidos em duas missões, junto com índios do grupo chaquenho, sob o comando de frades franciscanos, contratados diretamente da Itália.

Tudo isso se tornou matéria-prima para nosso trabalho e resultou em publicações e dissertações de mestrado.

Nossa hospedagem, no começo, foi no velho palácio episcopal, em Corumbá, onde partilhávamos o fogão com as mulheres de assentados, que traziam os filhos para consulta médica. Depois o salesiano Padre João, reitor do Santuário Sagrado Coração, junto à praça central, nos hospedou durante anos no colégio desocupado. Mas para alcançar lugares interessantes que estavam afastados da cidade, nos abrigamos em hotéis do interior, num centro de pesquisa, num centro comunitário, na sede de uma fazenda e até passamos noites ao relento; uma vez, porque a velha Kombi quebrou num caminho isolado e, outra vez, porque um forte vento sul impediu que nossa pequena embarcação nos levasse de volta através das águas encapeladas; ficamos dormindo numa pequena ilha.

Enquanto dependíamos da única Kombi do Centro Universitário da UFMS, em Corumbá, nossa locomoção era insegura e pouco eficiente. Ressabiados, aprendemos a contratar uma Kombi; mas também andamos muito nos ônibus que iam para o interior e no pequeno barco do prof. Izquierdo.

As informações sobre nosso trabalho e seus resultados fluíam bem. Muitas noites os salões do Centro Universitário se enchiam de alunos dos cursos de extensão que promovíamos e lá estavam cravados nossos amigos da CPT. Os jornais e a estação de TV local nos entrevistaram mais de uma vez. A mais dramática foi depois da noite que ficamos presos na ilha, quando a população imaginou que podíamos ter naufragado.

Nossa relação com o povo das fazendas e da cidade foi sempre limpa e tranquila. As moças e moços gaúchos do CPT (Comissão Pastoral da Terra) eram nossos anjos da guarda, facilitando os contatos também nos assentamentos.

Mas quando programamos nossa última expedição para fechar o projeto já não nos deram acesso às fazendas por causa de drogas, de roubos e da insegurança geral da região. Hoje, só podemos agradecer esta atitude dos proprietários. Não éramos conscientes da ameaça da onça pintada, em cujo território estávamos nos movimentando e que, de noite, seguia nosso rasto. Por fim, quando, em casa, baixamos a imagem de satélite do Google Earth sobre os aterros que tínhamos estudado e nos propúnhamos continuar estudando, os vimos em longas filas ao longo do rio, os mais antigos mais perto, os mais novos correspondentemente mais longe da água, mostrando que o potencial do rio tinha aumentado em consequência do aumento da umidade ambiental. Nós tínhamos feito datas para as sucessivas filas e o trabalho não estava perdido. Também observamos, na mesma imagem, que nas duas fazendas contíguas, que tínhamos trabalhado, ao longo do rio, não existiam menos que 400 aterros.

As amostras de material estão no acervo IAP Corumbá: números MS1 a MS456. Ai também estão amostras biológicas e os documentos das gravuras.

As publicações:

GIRELLI, M. 1995. Lajedos com gravuras na região de Corumbá, MS. (Dissertação de Mestrado). UNISINOS São Leopoldo.

GIRELLI, M. 1995. Lajedos com gravuras na região de Corumbá, MS. Estudos Leopoldenses 32 (147): 91-107, São Leopoldo.

PEIXOTO, J.S. 1995. A ocupação Tupiguarani na borda oeste do Pantanal sul-matogrossense: Maciço do Urucum. (Dissertação de Mestrado). Porto Alegre, PUCRS, 127 páginas.

SCHUCH, M.E.J. 1995. Xaray e Chané: índios frente à expansão espanhola e portuguesa no Alto-Paraguai. (Dissertação de Mestrado). São Leopoldo, UNISINOS, 87 páginas.

EREMITES DE OLIVEIRA, J. 1995. Os argonautas Guató. Aportes para o conhecimento dos assentamentos e da subsistência dos grupos que se estabeleceram nas áreas inundáveis do Pantanal Matogrossense. (Dissertação de Mestrado). Porto Alegre, PUCRS. 210 páginas.

SCHUCH, M.E.J. 1997. Missões capuchinhas entre os Guaná Sul-matogrossenses. (Dissertação de Mestrado). São Leopoldo, UNISINOS. 61 páginas, anexos.

MAGALHÃES, M.L. 1997. Paiaguá: os senhores do rio Paraguai. (Dissertação de Mestrado). São Leopoldo, UNISINOS. 181 páginas.

HACKBART, P. da S. 1997. Análise do petroglifo MS-CP-41 – Corumbá, MS. Trabalho de conclusão do Curso de História na UNIISINOS. 71 páginas.

PEIXOTO, J.S.; SCHMITZ, P.I. 1998. A missão Nossa Senhora do Bom Conselho, Mato Grosso do Sul. Pesquisas, História 30: 133-155.

SCHMITZ, P.I.; ROGGE, J.H.; ROSA, A.O.; BEBER, M.V.  1998. Aterros indígenas no Pantanal do Mato Grosso do Sul. Pesquisas, Antropologia 54, 271 páginas.

HERBERTS, A.L. 1998. Os Mbayá-Guaicuru: área, assentamento, subsistência e cultura material. (Dissertação de Mestrado). São Leopoldo, UNISINOS, 262 páginas.

SBEGHEN, A.C. 1998. Análise dos remanescentes faunísticos de um sítio do Pantanal Sul-Mato-grossense. Trabalho de conclusão do Curso de Biologia na UNIISINOS. 93 páginas.

CYPRIANO, D.C.C. de A. 2001. Os Toba do Chaco: missão e identidade séculos XVI, XVII e XVIII. (Dissertação de Mestrado). São Leopoldo, UNISINOS, 211 páginas.

SCHMITZ, P.I.; ROGGE, J.H.; ROSA, A.O.; BEBER, M.V.; VALER DE FREITAS, E.A. 2009. Aterros da tradição Pantanal nas fazendas Sagrado Coração de Jesus e Bodoquena, Corumbá, MS. Pesquisas, Antropologia 67: 321-374.

E os jornais:

Correio do Estado, 15 de maio de 1990. Gaúchos pesquisam sítios arqueológicos. Pesquisa na região de Corumbá começa a partir de 1º de julho.  30 x 33 cm.

Correio do Estado, 9 de julho de 1990. Sítios arqueológicos começam a ser pesquisados em Corumbá. 18 x 16 cm.

Correio do Estado, 30 de julho de 1990. Sítios em Corumbá animam arqueólogos. Durante os últimos 20 dias foram descobertos três tipos de sítios arqueológicos. Professor contesta as teses. Em Bonito, achados restos de uma civilização dos Incas. 50 x 33 cm. Pesquisa no Pantanal é concluída, 16 x 26 cm.

Jornal?, 1990 Corumbá alvo de pesquisas arqueológicas, 20 x 21 cm.

O Globo, 11 de agosto de 1990. Arqueologia estuda povos primitivos do Pantanal, 18 x 16 cm.

Zero Hora, 19 de agosto de 1990. Uma descoberta arqueológica no Pantanal, 18 x 24 cm.

O Globo, 9 de setembro de 1990. Arqueólogos pesquisam primeira população que ocupou o Pantanal.

Reporter AJB, outubro de 1990. Os pantaneiros de 8 mil anos. A história e a pré-história do homem e seu rastro de conquistas, sangue e apropriação da natureza. 24 x 17,5 cm.

Informativo UNISINOS, outubro 1990. UNISINOS participa de pesquisa no Pantanal, 20 x 19 cm. Pantanal. Equipe de Arqueologia faz pesquisa na região, 28 x 17 cm + 14 x 18 cm. Total: 62 x 18 cm.

Vale do Sinos, 20-21 de outubro de 1990. Primeiros gaúchos podem ser originários da Ásia, 11 x 17,5 cm. Primeiros gaúchos são originários da Ásia? e Um longo caminho desde a Sibéria. 38 x 29 cm.

Jornal da Universidade. 48, agosto de 1990. Projeto arqueológico do CEUC agora no Pantanal, 19 x 11 cm.

NH, 11 e 12 de agosto de 1990. Gaúchos fazem descoberta arqueológica, 19 x 4 cm.

Correio de Corumbá, 14 a 22 de junho de 1991. CEUC promove Curso sobre a Pré-História. 29 x 5 cm.

American Antiquity, vol. 57, n. 1, p. 150-151, janeiro de 1992, Brazil – Mato Grosso do Sul. 39 x 7 cm.

Diário da Serra, (Campo Grande) 28 e 29 de julho de 1996. Arqueólogos estudam ancestral pantaneiro, 51 x 30 cm (uma página).

Jornal do Brasil (on-line), Editoria Ciência, 4 de setembro de 2000. Pantanal esconde segredos milenares. Arqueólogos identificaram mais de 200 sítios dos primitivos povos canoeiros que habitaram a região há 3.400 anos, 30 x 17 cm.


Figura 1: O lago Jacadigo, nosso barquinho e, ao fundo, o Maciço do Urucum. Do acervo do IAP.




Figura 2: Arqueólogos varrendo o lajedo para destacar as gravuras que o cobrem. Do acervo do IAP.

Texto: Profº. Drº. Pedro Ignácio Schmitz