sexta-feira, 23 de abril de 2021

PEDRO IGNÁCIO SCHMITZ, APRENDIZ DE ARQUEÓLOGO


7.2 Experiências com arte rupestre, pinturas.

 

Na página do Instituto, em Anchietano, Diversas 5, se encontra uma visão geral de nossos encontros com pinturas e gravuras no Centro do Brasil, sob o título Pinturas e gravuras da pré-história de Goiás e Oeste da Bahia, 1984.

 Na primeira parte desta postagem falo de encontros com a tradição Geométrica; na continuação, sobre o estilo Serranópolis e o estilo Caiapônia. 

 

A tradição Geométrica

O primeiro encontro com pintura rupestre brasileira ocorreu no ano de 1972, em Formosa, dez quilômetros ao norte de Brasília, em área de cerrado, na bacia do rio Paranã, um dos formadores do rio Tocantins. Durante um curso de introdução à arqueologia para alunos da Universidade Católica de Goiás, identificamos, , descrevemos, fotografamos e, depois, copiamos em tamanho natural as pinturas de sete pequenos abrigos de um espigão calcário, usando lâminas de plástico transparente, como se fazia na época. Em casa fizemos a redução das imagens, a classificação das representações, o uso de convenções para representar as cores, porque a publicação seria em preto-e-branco e em tamanho reduzido. Nesses abrigos encontramos a primeira representação da tradição Geométrica.

As pinturas cobrem as paredes e o teto, de 0,40 a 7,50 m de altura. São representações abstratas, geométricas ou livres, raramente figurativas, representando, esquematicamente, pisadas humanas, tartarugas, lagartos ou aves. As cores usadas: vermelho, alaranjado, vinho, vermelho escuro e preto. Às vezes se combinam duas cores, preto com vermelho, ou vermelho com alaranjado. As figuras costumam estar agrupadas e também destacam saliências e depressões. 

Divulgamos um resumo do trabalho e algumas figuras na publicação acima indicada. Não chegamos a divulgar o trabalho completo porque Alfredo Mendonça de Souza, da Faculdade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro, assumiu a pesquisa da região através do Projeto Paranã e publicou convenientemente seus resultados. 

 

Pinturas da tradição Geométrica em Formosa, GO


Pinturas da tradição Geométrica em Formosa, GO

 

Depois de Formosa, a tradição Geométrica foi, novamente, encontrada em abrigos areníticos do Alto rio Sucuriú (MS), em ambiente de cerrado, onde, a partir de 12.500 antes do Presente (10.500 anos antes de Jesus Cristo), tinham acampado grupos de caçadores da tradição lítica Itaparica, sem ocupações importantes posteriores. Alguns abrigos se constituem de pequenas abas protegidas da chuva em torres residuais, outros são furnas e galerias escuras na borda de uma chapada residual. Pinturas da tradição Geométrica e gravuras da tradição Pisadas se alternam em espaços iluminados e protegidos, formando painéis, ora de uma ora de outra técnica. Na postagem anterior mostramos uma gravura. Estas se constituem de pequenos e estreitos sulcos produzidos por fricção. 

Na presente postagem mostramos algumas pinturas. Elas são predominantemente lineares, abstratas, em tonalidades de vermelho e amarelo, servindo o amarelo como sombra, alternância ou preenchimento em figuras tracejadas em vermelho. Há sobreposições de pinturas, mas é difícil deduzir o que isto significa cronológicos. 

Além de documentar as pinturas e as gravuras, fizemos cortes estratigráficos nos abrigos para caracterizar a cultura material, a sequência e datação das ocupações. O trabalho não pode ser concluído contra nossa vontade. 

Em suas respectivas dissertações de mestrado na UNISINOS, Marcus Vinicius Beber fez o estudo da arte rupestre e reproduziu nela todas as cópias das pinturas e gravuras; Ellen Veroneze mostrou o desenvolvimento de todo o projeto e seus materiais. Ambos trabalhos estão disponíveis na página do Instituto sob o título ‘Dissertações’.


Pinturas geométricas do Alto Sucuriú, MS. O tracejado representa a cor amarela.

 

Pinturas geométricas do Alto Sucuriú, MS. O tracejado representa a cor amarela.


A imagem original


Pinturas geométricas do Alto Sucuriú, MS. O tracejado representa a cor amarela.

 

A tradição São Francisco

Estudamos uma área com pinturas e gravuras rupestres em Correntina, Coribe e Santa Maria da Vitória, BA, em ambiente de caatinga, sobre o rio Corrente, afluente da margem esquerda do rio São Francisco, onde as pinturas cobrem as paredes de abrigos calcários da serra do Ramalho. Durante milênios tinham acampado ali, primeiro, populações caçadoras, depois cultivadoras e finalmente ceramistas da tradição cerâmica Una. A maior parte das pinturas é da tradição São Francisco, mas há sobreposições a carvão, que certamente são de outras populações. Em lajedos da margem do rio Corrente há gravuras do estilo Pisadas.

As pinturas da tradição São Francisco preenchem paredões inteiros com todos  seus nichos, mesmo os difíceis de escalar. Mais que pela temática, elas se caracterizam pela variedade de cores nos matizes de preto, de marrom, de vermelho, de amarelo, cores que nas figuras vêm associadas em pares, combinando preto com vermelho, preto com amarelo, vermelho com marrom, vermelho com amarelo, marrom com amarelo, usando uma cor como central e outra como preenchimento, sombra ou moldura. Na temática predominam combinações abstratas com forma de escudos feitos de tracejado multicolor; nas representativas, estilizadas, percebemos grupos dançando de braços dados, peixes dourados, tatus, muitos pés humanos. Por seu ar festivo, alegre, multicor, provocam um natural respeito místico, igual ao de uma velha igreja medieval.

O estudo da arte rupestre da Bahía está publicado em Publicações Avulsas do IAP 12. As Pinturas do Projeto Serra Geral. Sudoeste da Bahia. Pedro Ignácio Schmitz, Mariza de Oliveira Barbosa, Maira Barberi Ribeiro,1997.

Pinturas da tradição São Francisco, Coribe, BA

 

Pinturas da tradição São Francisco, Coribe, BA

 

Correntina: pinturas a carvão, posteriores à tradição São Francisco.


Texto e Imagens: Prof. Dr. Pedro Ignácio Schmitz 

sexta-feira, 9 de abril de 2021

PEDRO IGNÁCIO SCHMITZ, APRENDIZ DE ARQUEÓLOGO


7.1 Experiências com arte rupestre, gravuras.

Nesta postagem conto nossas experiências com arte rupestre, começando com as gravuras. 

Por arte rupestre entende-se a produção intencional de pinturas e gravuras sobre fundo rochoso. A denominação independe de maior ou menor refinamento e cuidado em sua produção. Ela pode resultar de aplicação de pigmentos coloridos sobre a rocha (pintura) ou de interferência física na rocha com retirada de massa (gravura). A pintura costuma ser realizada em superfícies mais consistentes, a gravura em menos resistentes. Ela tem a função de registro estável para a geração presente e para seus descendentes. 

No território nacional, desde a década de 1960, começaram a ser realizados levantamentos sistematizados dessas manifestações indígenas. Eles eram acompanhados de documentação e de classificação. A orientação predominante era de origem francesa e a grande mestra era Annette Lamming-Emperaire; mas não se podem omitir influências norte-americanas. Nas classificações, foram usados, de preferência, os termos de Tradição para identificar o modo de execução e a temática geral de um fenômeno observado sobre grande extensão territorial; EstiloFase ou Fácies para divisões temáticas dentro da Tradição.  

Este primeiro levantamento produziu conhecimento geral sobre grande parte do território brasileiro, teses acadêmicas e algumas publicações de impacto pela riqueza de suas ilustrações. 

Participamos dessa fase de atividades em diversas regiões em que realizamos projetos. Nas representações gravadas (gravuras), a participação foi maior na tradição chamada Pisadas (também denominada Meridional), presente em diferentes regiões brasileiras como em países vizinhos; a tradição Pantanal foi criação nossa, a partir de pesquisas em Goiás e no Mato Grosso do Sul. Nas representações pintadas (pinturas) os projetos realizados nos cerrados do Brasil Central nos puseram em contato com a tradição Geométrica, a tradição Nordeste e a tradição São Francisco.

 

A tradição Pisadas

Meus primeiros contatos com gravuras indígenas se deram em 1972 ao escavar abrigos de caçadores da tradição Umbu na bacia do rio Ibicuí e na bacia do rio Jacuí, em companhia de José Proenza Brochado. Ali encontrei a essência da tradição (ou estilo) Pisadas. Os rasos e iluminados abrigos areníticos tinham sido ocupados pelos nativos entre mil anos antes de Cristo e mil anos depois de Cristo. Testemunho da ocupação eram as numerosas lascas, as pontas de projetil e os outros instrumentos de pedra, na parte abrigada pela rocha, onde as famílias indígenas tinham permanecido longos períodos enquanto realizavam suas atividades de subsistência nos arredores. Marcando as paredes, de alto a baixo e de lado a lado, com os sinais de sua identidade grupal, elas tornavam o local doméstico (habitável e seguro) e as marcas deixadas o identificavam como sendo de suas famílias. Quando voltassem, depois de passar estações em espaços desabrigados em busca de alimentos e matérias primas, ou mesmo depois de longas temporadas em regiões afastadas, não teriam dificuldade em reconhecer o local onde eles, ou seus antepassados, já tinham vivido. 

Essa marcação consistia de pequenos sulcos, independentes, agrupados ou cruzados e depressões mais ou menos profundas, em cujo conjunto se podiam identificar pisadas de aves e de felinos (onças), às vezes formando trilhas. Em algumas depressões, especialmente nas de onça, ainda se observa a sobreposição de pigmentos vermelhos ou pretos sugerindo sua retomada em rituais de atualização, em que contariam, para as novas gerações, a história de suas antigas caçadas. Este é um contexto de populações que vivem da caça e da coleta e ainda não dominam a cerâmica e o cultivo. (Pesquisas, Antropologia 34,1982)

Na continuação das pesquisas, encontrei representações rupestres semelhantes às registradas acima, em diversas partes do Brasil, geralmente em companhia de pinturas: em Goiás (Caiapônia e Rio do Peixe, na bacia do rio Araguaia; em Serranópolis, na bacia do rio Paranaíba), no Tocantins (Monte do Carmo, na bacia do Tocantins); na Bahia (Correntina, na bacia do São Francisco) e no Mato Grosso do Sul (Alto Sucuriú, na bacia do rio Paranaiba). Ocupavam as paredes de abrigos areníticos largos e pouco profundos, que tinham sido habitados por populações caçadoras e coletoras pré-cerâmicas. A participação num estilo de gravação não quer dizer que partilhavam todos os elementos da cultura.  (Pesquisas, Antropologia 34, 52, Publ. Av. 11 (Serranópolis, GO), 8 (Caiapônia, GO), 12 (Serra Geral, BA), Marcus Vinicius Beber(dissertação de mestrado).

 

 

Gravuras na Linha Sétima, RS (RS-MJ-53)

 


Gravuras na Gruta de Canhemborá, RS (RS-MJ-15)

 

 


Gravuras no sítio GO-JA-14, Serranópolis, GO.

 


Gravuras no Alto Sucuriú, MS (MS-PA-02)

 

A tradição Pantanal

Em 1973, pesquisando as nascentes do rio Tocantins e do Alto rio Araguaia (GO) e, mais tarde, o Pantanal perto de Corumbá (MS), entramos em contato com uma tradição de gravuras bem diferente da tradição Pisadas: é a que chamamos de tradição Pantanal, ligada a populações ceramistas e próximas às aldeias em que moravam. Nas duas regiões seus executores partilhavam uma tradição de representação rupestre, mas não a totalidade de suas culturas; em Goiás seriam agricultores da tradição cerâmica Aratu (Pesquisas, Antropologia 30); no Pantanal, de pescadores e caçadores da tradição cerâmica Pantanal (Pesquisas, Antropologia 54). As gravuras, em Goiás, continuam ao longo do rio Tocantins, sob a forma de grandes círculos. 

Suas representações cobrem extensos lajedos horizontais e blocos próximos, na proximidade de corpos de água como lagoas, banhados, canais ou rios. As grandes figuras, construídas com largos e profundos sulcos (5 a 7 cm), compõem-se de ícones variados, entre círculos simples, concêntricos ou radialmente divididos, figuras em cruz, ou onduladas, pisadas de animais terrestres, anfíbios e aquáticos, grandes serpentes, ou sulcos reunindo e incorporando figuras; nos blocos erguidos também figurações humanas. Na distribuição espacial, notam-se diferenças entre os do Pantanal e os do cerrado do rio Tocantins. Na postagem sobre o Pantanal ilustramos as ilustrações do Mato Grosso do Sul, aqui mostramos algumas figuras do Alto Tocantins. Certamente as figuras mostram ícones de sua mitologia, e a distribuição no espaço local podiam ter sido pautas para o desenvolvimento de correspondentes rituais.



Gravuras em Jaraguá, GO (GO-JU-54).

 

 


Gravuras em Jaupaci, GO (GO-JU-28).

 

 


Gravura em Jussara, GO (GO-JU-11).



Gravuras em Jussara, GO (GO-JU-25).

 

 

Outras tradições de gravuras.

Além das indicadas, lembro que no Nordeste do país existe uma tradição de gravuras estilizadas ou abstratas, a tradição Itaquatiaras, cujo protótipo são as belíssimas gravuras da Pedra do Ingá, na Paraíba. Essas representações são encontradas em blocos rochosos junto de afloramentos de água, no semiárido da região. Ao tempo das chuvas elas estão, ao menos parcialmente, cobertas pela água; ao tempo da seca estão por cima delas. É manifesta a ligação com a presença de água na região em que a mesma costuma ser escassa. Assim é possível usar as gravuras como sinalizador do escasso líquido. 

Ao longo do rio Amazonas e seus afluentes são ainda mais numerosas as gravuras, em vários estilos regionais, num dos quais predominam as caras humanas. Localizadas nas margens e nos blocos de cachoeiras, são ao mesmo tempo, identificadoras do local, sinalizadoras de perigo para os que se arriscam, mas também representações dos protetores míticos que lhes podem valer. 

Como, geralmente, se trata de figuras abstratas ou altamente estilizadas, não é fácil conhecer todo o significado temático. No estilo Pisadas, o sentido de domesticação do espaço familiar e de pertença a um grupo maior é bastante manifesto. Na tradição que denominamos Pantanal o aspecto mítico-ritual parece mais acentuado.


Texto e Imagens: Prof. Dr. Pedro Ignácio Schmitz 

sexta-feira, 26 de março de 2021

PEDRO IGNÁCIO SCHMITZ, APRENDIZ DE ARQUEÓLOGO

 6. Morar dentro do chão.


Nossos projetos no Planalto Meridional

A casa subterrânea era uma habitação comum em diversas partes do mundo, em certo período da história humana. Em princípio, era uma adaptação a ambientes frios, mas também podia tornar-se um identificador cultural: nós, os que moramos sob o chão

No Planalto Sul-Brasileiro, onde existem milhares de casas subterrâneas, elas são associadas ao povoamento pré-colonial de uma população do tronco linguístico Jê, família linguística Macro-Jê, cujos descendentes coloniais falavam Kaingang, Xokleng ou Ingaín. Os de língua Kaingang predominavam no Sul e no Oeste das terras altas, os de língua Xokleng, na parte mais alta e Leste. O pequeno grupo Ingaín desapareceu rapidamente e deixou pouca informação. 

Além de diferenças linguísticas, os grupos também podiam ser distinguidos por outros elementos da cultura. Usando como discriminador a cerâmica produzida, os arqueólogos separam um grupo que chamam de Tradição cerâmica Taquara, bastante comum na área ocupada pelos de língua Kaingang, e um grupo de Tradição cerãmica Itararé, comum na área ocupada pelos de língua Xokleng. Eles também registram diferenças no tratamento dos mortos; no primeiro grupo, deposição ou enterramento dos mortos; no segundo, a presença de cremação dos corpos.

Os linguistas concluíram que a origem desta população é o Brasil Central, entre Minas Gerais e Goiás, donde se teriam começado a deslocar para o Sul ao redor de mil anos antes de Cristo, ou três mil anos atrás. Os arqueólogos costumam percebê-los quando já estão bem instalados, tanto no território da Tradição Taquara como no da Tradição Itararé, a partir de quinhentos anos depois de Cristo, isto é mil e quinhentos anos depois. Os assentamentos do primeiro período são difíceis de identificar por não terem cerâmica, nem casas subterrâneas. 

Nossos projetos buscaram cobrir amplos espaços de ambas versões cerâmicas, no sentido de captar suas variações culturais e cronológicas 

O primeiro contato com as casas subterrâneas ocorreu no município de Caxias do Sul e comunas vizinhas, na década de 1960 e consistiu no levantamento de sítios, coletas superficiais, escavações sistemáticas e datações. Dele resultou a caracterização inicial da cultura da Tradição cerâmica Taquara atinente às casas e seu agrupamento, aos túmulos de seus mortos, à cerâmica doméstica, aos artefatos líticos e à cronologia das instalações. Também se buscou a caracterização e história dos índios Kaingang do período colonial, considerados seus descendentes. Desse tempo merece destaque Fernando La Sálvia por suas formulações para as casas e Ítala Irene Basile Becker pela recopilação dos dados sobre os índios Kaingang coloniais.

 Depois dessa pesquisa, a equipe trabalhou durante três décadas nos cerrados do Brasil tropical. Ao voltarmos às casas subterrâneas na área da Tradição Taquara, dirigimos nossa atenção, primeiro, ao município de Vacaria, onde, além de pequeno levantamento, escavamos dois grandes sítios como teste para as formulações produzidas em Caxias do Sul. Acrescentamos o estudo de um abrigo funerário junto a uma cascata, no qual tinham sido depositados, superficialmente, dezenas de corpos correspondentes a ambos sexos e todas as classes de idade de uma comunidade indígena local. Assumiram destaque no projeto os biólogos que caracterizaram essa população. 

Continuando nossa cobertura do planalto rio-grandense voltamos a atenção ao município de São Marcos, localizado entre Vacaria e Caxias do Sul. Fizemos levantamento sistemático em toda a superfície do município, realizamos coletas superficiais, cortes estratigráficos e escavações sistemáticas buscando entender, agora, a distribuição das diversas categorias de sítios no espaço geográfico. Como mais importante contribuição destaco a confirmação de que os pequenos montículos alongados junto às casas são túmulos individuais de moradores. Eles se multiplicaram na medida em que faltavam abrigos próximos, nos quais normalmente se guardavam os corpos dos falecidos. Mesmo assim, localizamos no município vários pequenos abrigos rochosos, sempre com poucos (um ou dois) mortos neles sepultados. 

Até aqui trabalhamos no Rio Grande do Sul, em área da Tradição cerâmica Taquara. O seguinte projeto cobriu o município de Taió, no vale do rio Itajaí, em Santa Catarina, área da Tradição cerâmica Itararé. No município, ao lado de numerosos assentamentos com pontas de projetil da tradição Umbu, estudamos um sítio com 12 casas subterrâneas, nas quais predominam datas do século VI ao VIII de nossa era; elas coincidem com as mais antigas do Rio Grande do Sul. Mas as depressões das casas são mais rasas, os materiais estão do lado de fora delas e não há cerâmica, de nenhuma das tradições.

Os nove anos do seguinte projeto, no município de São José do Cerrito, no planalto de Lages, proporcionaram dados mais sólidos sobre a história antiga do Jê no Sul do Brasil. No projeto testamos, com alguma sorte, as afirmações dos linguistas sobre a origem e desenvolvimento do grupo Jê do Sul. Debaixo de uma casa subterrânea geminada encontramos um assentamento isolado sem casa subterrânea e sem cerâmica, datado do quinto século antes de Cristo, i. é, apenas 500 anos depois da pleiteada primeira migração do Brasil Central (Figura 14). Depois, no Rincão dos Albinos, nos deparamos com um assentamento de 107 casas (Figura 6), de características e datas semelhantes às de Taió. Nos séculos XII e XIII apareceram casas muito grandes acompanhadas de potentes aterros funerários (Figuras 1 a 5), ainda com pouca cerâmica e de pequenas dimensões, parcialmente moldada em cesto (Figura 13). A partir do século XIV elas foram substituídas por pequenas casas agrupadas ou geminadas (Figuras 7 a 11), com vasilhas de barro cada vez mais abundantes e maiores da Tradição Itararé (Figura 12), indicando aumento de cultivos. Esse povoamento indígena durou até a primeira metade do século XVII, quando os paulistas começaram a percorrer e, finalmente, dominar a região. Acredita-se que foi desse planalto que se originaram os Xokleng (Botocudos) encontrados pelos colonizadores alemães de Blumenau.

A pesquisa foi exitosa e forneceu dados confiáveis para todo o período de povoamento indígena pleiteado pelos linguistas, desde perto da chegada até sua expulsão pelos bandeirantes paulistas. 

A cultura das casas subterrâneas.

As famílias Jê que se deslocaram dos cerrados quentes trocaram um ambiente rico em frutas e sementes por campos frios de recursos escassos antes da chegada do pinheiro; talvez a maior riqueza do ambiente fossem os butiazais, dos quais sobrou uma amostra nos campos de palmas. Em pequenos grupos familiares se manteriam dispersos e móveis, sem casas subterrâneas, sem cerâmica e sem cultivos. Nas estações frias talvez se refugiassem em abrigos rochosos existentes junto às altas nascentes. Eles se manteriam como caçadores e coletores móveis durante séculos até melhorarem os recursos com o aparecimento e a multiplicação dos pinheiros em meados do primeiro milênio. Deles estudamos um assentamento do século quinto antes de Cristo nos Campos de Lages.

Percebemos sua mudança no século VI de nossa era quando, no planalto de Santa Catarina, estudamos aglomerados de casas subterrâneas muito rasas, ainda sem cerâmica, primeiro em Taió e, depois, em Rincão dos Albinos.  Eram o resultado de acampamentos sucessivos junto a dois antigos capões de pinheiros, onde as famílias indígenas se reuniam para colher o pinhão que amadurece no outono. Os capões de pinheiros ainda eram poucos, razão de sempre voltarem aos mesmos. A colocação das choupanas de piso rebaixado no mesmo lugar resultou um denso aglomerado de depressões sobrepostas ou invadidas. 

Nesse mesmo tempo já temos, no planalto de Caxias do Sul, casas subterrâneas grandes e fundas e cerâmica Taquara bem caracterizada

Com a expansão dos pinheirais sobre os campos, a partir do ano mil vão-se multiplicar as aldeias de casas subterrâneas que estudamos em Santa Catarina, em território da Tradição Itararé, e no Rio Grande do Sul, em território da Tradição Taquara.

A casa subterrânea para a caracterizar o assentamento em ambas regiões. Ela é o lugar da moradia e dentro dela permanecem os pequenos fogões com a panelas quebradas e os restos de alimentos. Também alguns rudes instrumentos de pedra. A casa pode ser grande, funda e abrigar toda a comunidade; ou pequena, unifamiliar, agrupada com outras iguais; ou ainda geminada, duas habitações sob o mesmo teto abrigando famílias aparentadas. Os assentamentos sugerem que as comunidades locais eram pequenas.

A casa era escavada em terreno firme na encosta suave de coxilhas, onde a água das chuvas escorre facilmente, mas perto de uma nascente ou banhado de altura, onde têm acesso a água. O telhado da casa podia ser em colmeia quando pequena; em chapéu chinês quando grande. A escavação das casas grandes exigia a colaboração de toda a comunidade e podia levar muitas semanas ou meses de construção. As casas provavelmente eram estacionais, sendo ocupadas e desocupadas diversas vezes, como mostram as sucessivas camadas de terra que acabaram por entulhá-las.

 Os instrumentos domésticos eram predominantemente panelas de barro que, na Tradição Taquara, têm paredes mais grossas e retas, exibindo, muitas delas, as rugosidades provenientes da cesta em que foram moldadas. Na Tradição Itararé, as paredes são mais finas, levemente infletidas, escurecidas e brilhosas a ponto de refletir a luz. Elas costumam ser pequenas e parecidas, com capacidade não superior a dois litros. Fabricadas pelos membros da casa, eram utilitárias; externamente se cobriam de fuligem e internamente conservavam crostas dos alimentos. Mesmo quebradas, permaneciam nos fogões em que tinham sido usadas.

Outros instrumentos utilitários eram feitos em rocha local, a maior parte simplesmente lascada para dar forma e gume, algumas polidas criando uma lâmina de machado, uma mão-de-pilão ou um pilão.

As pequenas aldeias se dispersavam pelo território, cada uma com seus pinheirais, suas matas para lenha, madeira, frutas, sementes e animais; seus campos com butiazais e, no final, também seus pequenos cultivos de milho, feijão, abóbora e inhame. 

No período colonial já não se percebem essas estruturas construtivas e também se perde a cerâmica. Não conhecemos os pormenores da mudança; apenas sabemos que são diferentes. 

 

1.     A paisagem das casas subterrâneas: o campo com pinheiros; a casa enterrada com 20 m de diâmetro e 7 de profundidade; atrás, o aterro para cremar os mortos, com 30 m de diâmetro e 3 m de altura.

 

2. Escavando o piso da casa.

 

3.     As cores do solo indicam períodos de ocupação.

 

 

4.     Este aterro funerário: este mede 20 m de diâmetro e 2 m de altura.

 

5.     Escavando o aterro da figura 1.

 

6.     Aglomerado de casas subterrâneas no Rincão dos Albinos; cada depressão é uma casa.


7.     Casa geminada em São José do Cerrito.


8.     Escavando uma casa de tamanho médio em São José do Cerrito.

 



9.     Material no piso da casa acima.

 

10.  Um pequeno fogão com a panela quebrada, no mesmo piso.

 


11.  Também havia fogões no pátio da casa.

  

12.   Uma panela da Tradição Itararé.


13.  Uma panela da Tradição Taquara.

 

14. O fogão do sítio datado do século V antes de Cristo.

 

15.  A equipe de 2016.


Texto e Imagens: Prof. Dr. Pedro Ignácio Schmitz





sexta-feira, 12 de março de 2021

PEDRO IGNÁCIO SCHMITZ, APRENDIZ DE ARQUEÓLOGO

5. No Agreste Nordestino 

A participação neste projeto resultou do convite do reitor da UNICAP (Universidade Católica de Pernambuco) para acompanhar o trabalho de Jeannette Maria Dias de Lima, recém contratada pela universidade.

Jeannette vinha escavando um sítio com numerosos esqueletos no município Brejo da Madre de Deus, no agreste pernambucano, um pouco além de Caruaru. Brejo é a capital nacional da cenoura e, na Semana Santa, se faz ali uma famosa representação da Paixão de Jesus. 

O abrigo em escavação se localiza na baixa encosta da Serra granítica do Estrago, a 650 m de altitude sobre o nível do mar, a pequena distância de uma lagoa de água permanente, posteriormente drenada para plantação de cenoura.

Durante o ano de 1982 e a primeira parte de1983, Jeannette vinha fazendo escavações no abrigo, em fins de semana, ajudada por alunos da universidade. Foi quando o reitor me convidou a participar na saída de dezembro de 1983, que durou uma semana. 

Nas saídas anteriores, Jeannette e alunos vinham realizando escavações a partir da linha de goteira, tendo encontrado 30 sepultamentos, não muito bem conservados porque apanhavam o respingo da chuva junto da boca. Na expedição de dezembro, quando continuamos a escavação para o interior do abrigo, encontramos 27, que estavam mais bem conservados. Na oportunidade recolhi carvão para datação das principais camadas que tínhamos exposto. Elas mostraram que, antes de se tornar cemitério, o abrigo tivera ocupações antigas de caçadores e coletores, que tinham deixado densas camadas de cinzas. 

As primeiras ocupações, acampamentos de caçadores-coletores são do final do Pleistoceno, de 10.000 a 9.000 anos a.C. Durante o Ótimo Climático, 5.000 a 3.000 a.C., o abrigo parece não ter sido ocupado. Após o Ótimo Climático retornam os acampamentos, agora ocasionais, de caçadores e coletores. E nos três primeiros séculos depois de Cristo o abrigo se torna cemitério de uma população que tinha sua aldeia na proximidade, provavelmente ao pé da encosta, junto à lagoa. Parece não ter havido nova ocupação depois do cemitério.

O pequeno abrigo mostrava ocupações antigas e muitos sepultamentos e o trabalho executado até então não correspondia a sua importância. Por isso foi programada uma temporada mais longa, de trinta dias, para a realização de trabalho mais calmo e mais técnico. Isto ocorreu no mês de julho de 1987, quando concluímos a escavação do núcleo central e sondamos as bordas laterais do abrigo. Apareceram mais 23 sepultamentos. 

Ao todo foram escavados 80 esqueletos depositados em covas individuais. Dos 58, cujo estado de conservação permitiu classificação por faixa etária e sexo, 20 foram classificados como indivíduos imaturos, ou não adultos sem identificação sexual, 13 como adultos femininos, 25 como adultos masculinos. Parece uma boa amostra do que teria sidoa amostra da população do povoado, que ali foi depositada durante três séculos.

Os mortos estavam depositados em covas individuais forradas com fibras vegetais, envoltos em esteiras ou palha, acompanhados de seus ornamentos (colares de sementes, de contas de osso ou de amazonita), instrumentos (duas flautas de osso longo de mamífero) e armas (um tacape). Para o sepultamento, os membros superiores e inferiores eram dobrados sobre o corpo, este envolvido em esteira ou palha e fortemente amarrado por grossas cordas, resultando em fardo mais cômodo para o transporte. Sepultamentos de imaturos podiam estar protegidos por pedras formando nichos; um estava depositado num cesto; outro numa espata de palmeira. 

Como o espaço era pequeno, acontecia que um sepultamento perturbasse um anterior; seus ossos eram, então, reunidos num cesto, em boa ordem e novamente depositados. Tudo mostra o cuidado com que os vivos tratavam os seus falecidos. Como arqueólogo, mais de uma vez, me emocionei, mexendo com sepultamentos de crianças, quando tentava expor os pequenos corpos, tão cuidadosamente sepultados por seus familiares. 

O abrigo era seco, excetuando a parte frontal onde respingava a chuva e um ponto ao fundo por onde entrava o fluxo vindo da encosta. Na parte seca, junto com os esqueletos, ficaram preservados muitos outros elementos: as forrações da cova, as esteiras que envolviam os corpos, colares que usavam, os cabelos e seu corte, o cérebro seco num crânio e muito restos fecais na bacia dos mortos. A boa conservação possibilitou a execução de muitos e variados estudos, biológicos, sociais e culturais.

O material foi recolhido ao museu da UNICAP, onde uma parte ficou exposta. Alguns esqueletos tiveram de ser devolvidos ao museu do Brejo porque a umidade do litoral os estava prejudicando. 

Os primeiros trabalhos foram divulgados na Revista Symposium da UNICAP. Depois, Jeannette escreveu a dissertação a partir dos materiais dos dois primeiros anos de escavação e a defendeu, rm 1986, na UNICAP. Em 2001 redigiu uma tese de doutorado na Universidad Autónoma de México, usando todos os materiais recuparados, mas não a concluiu, vitimada por um câncer.

Para não se perder o precioso material, em cuja escavação havia participado, selecionei elementos válidos de artigos, da dissertação e da tese incompleta e publiquei em Pesquisas, Antropologia 69. Mais tarde completei as informações (o diário de campo), que foram publicadas na Revista Clio, Série Arqueológica da UNICAP. Com isso o precioso trabalho não se perdeu.

 A referência básica que uso é DIAS DE LIMA, J.M.; SCHMITZ, P.I.; MENDONÇA DE SOUZA, S.M.F.; BEBER, M.V. 2012. A Furna do Estrago no Brejo da Madre de Deus, PE. Pesquisas, Antropologia 69.

Com algumas fotos de 1987 procuro ilustrar a forma de sepultamento da Furna do Estrago, no Brejo da Madre de Deus.


A paisagem: na frente, o lugar da antiga lagoa; no fundo a Serra do Estrago, em cuja baixa vertente se encontra o abrigo estudado.

 

Os blocos de granito rolados da encosta. No grande bloco da direita está o abrigo.


O pequeno e raso abrigo e a equipe de escavação de dezembro de 1983.

 

As camadas arqueológicas: camada 7 = 10.000 a.C.; camada 5 = 9.000 a.C.; os sepultamentos = entre 100 e 300 anos depois de Cristo. As covas se sobrepunham e penetravam profundamente nessas camadas.


A distribuição dos sepultamentos no espaço escavado. Fonte: Dias et al., 2012.

 

O sepultamento 87.23, adulto, masculino, ainda com seu envoltório de palha.

 

O mesmo sepultamento 87.23 sem o envoltório de palha, a cabeça envolta numa rede ou cesta de trançado muito aberto. Usava colar com 15 contas de osso de ave, mais 7 contas de molusco terrestre.

 

Esqueleto 87.6, adulto, masculino, o corpo coberto por ocre vermelho, envolto em esteira e deitado sobre mais outra esteira e mais um forro de palha. Usava colar de 78 contas de ossos de ave.

 

O mesmo sepultamento 87.6, mostrando melhor as duas esteiras e mais o forro da sepultura.

 

Esqueleto 87.3, de criança, deitado em cova forrada por fibras vegetais e cercada por pedras. Usava colar com 5 contas de osso de ave.

 

Restos do cesto no qual foi sepultada criança (87.2), que usava colar com 5 contas de marisco marinho.

 

Sepultamento 87.18, re-depositado, de adulto, masculino, colar com 3 contas de molusco terrestre, 5 contas de osso de ave e 3 contas de amazonita. 


Texto e Imagens: Prof. Dr. Pedro Ignácio Schmitz