sexta-feira, 27 de novembro de 2020

MARIA SALETE MARCHIORETTO, BOTÂNICA


Nasci no distrito de Dr. Ricardo, munícipio de Encantado, descendente de italianos tanto de pai, como de mãe, sou a quarta e última filha do casal, convivi com eles até terminar na época o 5º ano primário. Terminada esta etapa, me mudei para a cidade de Encantado, onde fiz o exame de admissão e ingressei no ginásio, na escola Estadual Farrapos. Nesta ocasião fui morar com meus irmãos que trabalhavam e estudavam na cidade. Meu amor pela botânica já veio desde meus primeiros anos vividos na pequena cidade do interior, onde em minhas brincadeiras, muitas vezes sozinha, pois meus irmãos mais velhos já tinham outros interesses, era coletar tipos diferentes de folhas e flores e brincar de professora mostrando para alunos imaginários as diferenças entre uma e outra.

No ginásio, sempre tive mais afinidade com a disciplina de Ciências, mantendo o mesmo interesse durante o 2º grau, cursando o científico na Escola de 2º grau São Pedro, onde a disciplina da Biologia era minha favorita. 

Comecei a trabalhar bastante jovem, quando ainda cursava o ginásio. Meu primeiro emprego foi na Malharia Petenatti, na cidade de Encantado, na função de tecelã. Tinha que acordar 5 horas da manhã e caminhar mais de meia hora para chegar ao local de trabalho, trabalhei ali por quase um ano. Após este tempo surgiu uma vaga na Cooperativa dos Suinocultores de Encantado, fui contratada para trabalhar no escritório de suprimentos da mesma, onde minha função era auxiliar de escritório. Nesta ocasião já estava cursando o científico, trabalhei lá por três anos.

Já havia concluído o então 2º grau e minhas expectativas eram de cursar uma faculdade. Nesta época, eram poucas as faculdades vigentes e a grande maioria ficavam muito distantes da minha cidade inviabilizando o meu ingresso. Fiquei um ano pensando e procurando por alternativas, pois não queria parar de estudar. Ainda não tinha certeza absoluta do que cursar, gostava muito de Nutrição, mas também tinha toda minha afinidade com a Biologia. Foi então, que em conversas com colegas de trabalho, surgiu a possibilidade de fazer o vestibular na UNISINOS. Estávamos no ano de 1975 e possivelmente para o período de aulas teríamos um ônibus saindo de Encantado com destino a São Leopoldo (UNISINOS), algumas vezes por semana, indo à tardinha e voltando no final do período das aulas. Então, eu e mais 2 colegas nos inscrevemos no vestibular, fizemos e iniciamos o período letivo de 1976, saindo de Encantado às 17:30 h e retornando por volta da 1:00 h da madrugada. Era bastante cansativo, pois trabalhava o dia todo, viajava, assistia as aulas e retornava. Neste primeiro semestre cursei duas disciplinas do Básico. Chegando o mês de julho, tirei férias e vim a São Leopoldo para cursar mais duas disciplinas no intensivo. 

Durante o intensivo conheci algumas pessoas, uma delas havia trabalhado na UNISINOS e se propôs a me apresentar ao Superintendente Administrativo Sr. Claudio Rambo, para me candidatar a uma vaga de trabalho. Fomos ao encontro do Sr. Claudio e ele nos informou que não havia nenhuma vaga disponível naquele momento, mas que eu preenchesse uma ficha e ficasse aguardando. Terminei o intensivo, me matriculei na disciplina que ainda estava faltando para concluir o básico e voltei para minha cidade. No retorno, qual foi minha surpresa, não haveria mais ônibus para a UNISINOS, fiquei desesperada, pois não queria parar de estudar. Pedi uma dispensa no serviço e vim a São Leopoldo, fui direto procurar o Superintendente Administrativo, expus minha situação e ele então me disse, esteja aqui no dia 15 de agosto para fazer os exames médicos para ser admitida. Desta forma retornei à minha cidade, rescindi meu contrato de trabalho e literalmente peguei minha mala e cuia e me mudei para São Leopoldo. 

Iniciei na UNISINOS em 18 de agosto de 1976, trabalhando no setor financeiro, como auxiliar administrativo. Trabalhei durante o primeiro ano na Antiga Sede da UNISINOS, no prédio que foi devastado pelo incêndio anos depois. Como o campus já estava em funcionamento a parte financeira foi transferida para lá também. Terminei o básico e ingressei no Curso de Ciências, que tinha diversas habilitações, entre elas, Biologia, Física, Matemática. Cursei antes o tronco comum das Ciências, para depois fazer a licenciatura plena em Biologia. As aulas ocorriam em turnos diversos, desta maneira eu ia jogando com meus horários de trabalho na Universidade. 

Durante o curso meu contato com professores como Aloysio Sehnem e Ronaldo Wasum fizeram despertar cada vez mais o interesse e afinidades com a botânica. Minha primeira saída de campo foi realizada para Salvador do Sul com Sehnem e Wasum, onde ficamos hospedados numa cabana pertencente ao colégio dos padres existente lá. Percorremos muitos quilômetros junto com os dois mestres, coletando e recebendo muitas informações sobre as diferentes plantas da região. 

Depois desta saída eu fui conhecer o Herbário PACA e fiquei ainda mais encantada pela possibilidade de trabalhar num local, que eu considerava mágico. Tentei junto ao Professor Ronaldo de alguma maneira trabalhar no Herbário como bolsista ou monitora, mas como tinha 40 horas no setor financeiro e mais as aulas, não tinha disponibilidade. Estava sempre atenta para a possibilidade de poder trabalhar em algo que estive ligado ao meu curso. Infelizmente esta oportunidade não aparecia, então como tinha feito um concurso para professora estadual, quando estava quase formada fui chamada, resolvi abrir mão de algumas horas na UNISINOS e fui dar aulas de Ciências na Escola Estadual Olindo Flores da Silva, na Scharlau, durante 6 anos.


Formatura do curso de Biologia- 1984


Já estava formada e ainda estava trabalhando no financeiro, quando em 1984, surgiu a oportunidade de eu trabalhar as horas que eu ainda tinha na UNISINOS no Instituto Anchietano de Pesquisas -Herbarium Anchieta, do qual o diretor era o Dr. Pedro Ignácio Schmitz e o curador do Herbário o Prof. Ronaldo Wasum. Então enfim, consegui entrar num setor ligado ao meu curso, e o melhor, ligado diretamente à botânica. 

Meu trabalho inicial no herbário foi de muito conhecimento e experiências novas, nunca vivenciadas anteriormente. Datilografei durante praticamente dois anos, fichas de coleta de materiais depositados no herbário, herborizei milhares de exsicatas, guardava material, auxiliava o curador em todas as atividades. O prof. Ronaldo era uma pessoa muito alegre, dinâmica e carismática, me fez ficar cada vez mais apaixonada por aquele ambiente e aprender muito mais do que em todo tempo de curso. Ele organizava saídas de campo para coletas para várias regiões do estado, onde conheci muito da vegetação e suas associações. Estas saídas eram sempre muito alegres, trabalhávamos muito, mas tudo feito com descontração o que se tornava muito mais produtivo.

Nesta fase, eu sentia necessidade de produzir algo, queria muito pesquisar, queria muito fazer um mestrado, mas os mestrados em botânica ou biologia eram raros no estado. Havia o mestrado em Botânica na UFRGS, mas esta exigia dedicação exclusiva e eu não podia me dar ao luxo de sair do emprego para fazer um mestrado. Na UNISINOS não havia nenhum mestrado. 

Em 1986, então iniciei um curso de especialização em Ecologia Humana, não era bem a área que eu queria, mas foi muito especial, professores de várias áreas do conhecimento, colegas de muitas cidades distantes, que vinham toda sexta-feira para o curso, pois as aulas eram sexta de noite e sábado de manhã, foi enriquecedora a troca de experiências.

Minha vida tomou um novo rumo em 1987, quando chegou ao Herbário o Pe. Josafá Carlos de Siqueira, vinha da PUC-RJ para passar uma temporada conosco no Instituto Anchietano de Pesquisas. Pe. Josafá tinha mestrado em Botânica e estava fazendo doutorado, se dispôs a me orientar em trabalhos científicos na área de taxonomia vegetal e assim comecei meus trabalhos nesta área e já em 1988, publiquei meu primeiro trabalho intitulado: ‘Estudo taxonômico das espécies dos gêneros Celtis Trema (Ulmaceae) no Rio Grande do Sul’. Muitos outros trabalhos foram realizados em parceria e orientação do Pe. Josafá.  E cada vez mais eu sentia a necessidade de um mestrado, mas as coisas não eram tão simples e a UNISINOS não possuía nenhum mestrado ainda. 

Em 1990, após minha licença maternidade, consegui a cedência do Estado para o herbário com as 20 horas, aumentando novamente minhas horas na universidade, realizando mais e mais trabalhos em conjunto com o Pe. Josafá. 

Em 1992 fui designada curadora do Herbário PACA, substituindo o Prof. Ronaldo que já estava morando e trabalhando na Universidade de Caxias do Sul. Na sequência foram anos de muito trabalho nas coleções, herborizando material, digitando os dados em um banco de dados, recebendo pesquisadores, professores e alunos, contando somente, por muito tempo, com um bolsista de 20 horas para me auxiliar.


Trabalho em conjunto com Pe. Josafá


 Em 1996, a UNISINOS me propôs sair do Estado e voltar as 40 horas, ou seja, com o tempo integral no herbário. Neste mesmo ano, começavam os rumores no antigo Centro 2, de quererem iniciar um curso de mestrado na Biologia. Os trâmites legais para formalização e aprovação do Mestrado levaram aproximadamente 3 anos. No final de 1999 foi aprovado e aberta a seleção para o Mestrado em Biologia: ‘Diversidade e Manejo de Vida Silvestre’. Neste ano chegou na Universidade o Prof. Dr. Paulo Günter Windisch, vindo da UNESP, especialista em Pteridófitas. Eu conhecia o Prof. Paulo anteriormente, pois inúmeras vezes ele visitou nosso herbário. Com a sua chegada fui procurá-lo, pois ele faria parte do corpo docente do mestrado e era um dos possíveis orientadores. Mesmo sendo sua área de atuação diferente da que eu pretendia trabalhar no meu mestrado, ele abraçou a causa e aceitou em me orientar com taxonomia e fitogeografia de dois gêneros de Amaranthaceae para o Brasil.

Em 2000, comecei o mestrado. Inicialmente foi um pouco complicado, pois fazia muitos anos que não estudava mais, e também por não ter me afastado do trabalho, mas devagarinho tudo foi se encaixando. 

O Prof. Paulo não foi só um orientador, foi um amigo, que me incentivava muito a participar de Congressos, me apresentando a numerosos pesquisadores nacionais e internacionais, conseguia bibliografias difíceis de encontrar, abrindo muitas portas de contatos que até hoje me são extremamente importantes. Pude também contar com a essencial coorientação do Dr. Josafá Carlos de Siqueira, parceiro e amigo de longa data.

Fui uma das primeiras da minha turma a defender a dissertação em dezembro de 2001, intitulada: ‘Diversidade, padrões de distribuição geográfica e estado de conservação dos representantes dos gêneros Froelichia Moench e Froelichiella R.E. Fries (Amaranthaceae) no Brasil’. Tendo obtido a nota máxima (dez), resultando desta a publicação três artigos em revistas especializadas.


Defesa da dissertação- 2001

 

Meu trabalho no herbário continuou concomitantemente com o mestrado, atendendo inúmeros pesquisadores, professores e alunos. Nesta época tinha como colega o biólogo Julian Mauhs, tivemos vários projetos em conjunto, fizemos muitas excursões em campo, que resultaram em várias publicações. Tivemos também bolsistas vinculados aos projetos, que nos davam um suporte especial para a conservação das coleções.

Coletas nos Campos de cima da Serra


Com o mestrado veio o firme propósito de seguir com os estudos e fazer o doutorado, fiquei aguardando que a UNISINOS nos oferecesse o doutorado em Biologia, mas foram passando três anos e nada, então comecei a correr atrás de outros lugares em que eu pudesse fazer e onde fosse possível, sem eu sair da UNISINOS. Surgiu na UFRGS a oportunidade de fazê-lo, entrei no doutorado em março de 2005, sob a orientação da Dra. Silvia Teresinha Sfoggia Miotto e coorientação do Dr. Josafá Carlos de Siqueira. Foi um período bastante intenso, com aulas, muitas viagens de coletas, atender o herbário, a família, mas também foi uma fase de muito crescimento, conhecimento, mudanças. 


Coletas em Minas Gerais-2007


 

Mesmo atendendo tantas coisas junto com o doutorado, fui a primeira aluna da minha turma a defender o doutorado com a tese intitulada: ‘Os gêneros Hebanthe Mart. e Pfaffia Mart. (Amaranthaceae) no Brasil’, em 11 de julho de 2008 com o conceito “A”. Foi um dia muito especial na minha vida, a concretização de um sonho acalentado por muitos anos. Como resultado da tese tive seis trabalhos publicados em revistas especializadas.


Banca da Tese de Doutorado-2008


Tornei-me uma especialista nas famílias Amaranthaceae, Microteaceae, Phytolaccaceae, tendo publicado numerosos trabalhos em revistas especializadas nas áreas de taxonomia, conservação e fitogeografia.

Desde a conclusão do doutorado, participo de numerosos projetos e mantenho a curadoria do herbário; seguem alguns: Flora do Brasil 2020; Lista da Flora ameaçada de extinção do RS e do Brasil; Lista das plantas ameaçadas do Espirito Santo; Listagem das plantas da Mata Atlântica; Flora das Caatingas do Rio São Francisco; INCT – Herbário Virtual da Flora e dos Fungos; Flora de Santa Maria; Flora do Campus UNISINOS.

Tive também projetos aprovados e executados por algumas fontes financiadoras tais como: FAPERGS: Modernização do Herbário Anchieta; Análise da ocorrência de espécies ameaçadas de Amaranthaceae Juss. no Rio Grande do Sul. CNPq: Informatização e modernização do Herbário Anchieta- PACA; INCT – Herbário Virtual da Flora e dos Fungos (2018- atual). UNIBIC: Fenologia das espécies arbóreo-arbustivas em mata arenosa da restinga no Litoral Central do Rio Grande do Sul; Estudo taxonômico e considerações fitogeográficas do gênero Pfaffia Mart. (Amaranthaceae) no Brasil; Análise fitogeográfica das fanerógamas no Rio Grande do Sul: I- Amaranthaceae; Análise fitogeografia das fanerógamas no Rio Grande do Sul: II Caryophyllaceae e Phytolaccaceae; Análise fitogeografia das fanerógamas no Rio Grande do Sul: III Nyctaginaceae; Taxonomia e fitogeografia da família Acanthaceae no Rio Grande do Sul.


Coletas no Litoral, plantas ameaçadas do RS

 

Ao longo dos anos consegui parcerias com diversas instituições como: Department of Higher Plants, Biological Faculty, Lomonosov Moscow State University; Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP; Universidade Federal de Minas Gerais; Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Universidade FEEVALE; Universidade de Brasília - UNB; Instituto Federal Farroupilha, São Vicente do Sul, entre outras.

No decorrer da minha carreira de botânica ocupei vários cargos tais como: Secretaria da Rede de Herbários do Rio Grande do Sul: 1997-2000; Coordenadora da Rede de Herbários do Rio Grande do Sul: 2002-2006; Conselheira da Rede de Herbários do Rio Grande do Sul: 2006-2011; Vice diretora Regional do RS da Sociedade Botânica do Brasil: 2010-2012; Coordenadora da Rede de Herbários do Rio Grande do Sul: 2012-2014; Vice coordenadora da Rede de Herbários do Rio Grande do Sul: 2015-atual;  Editora assistente da revista Pesquisas, Botânica: 2008-atual.

Sou revisora de numerosos periódicos como:  Rodriguésia, Boletín de la Sociedad Argentina de Botánica; Iheringia. Série Botânica; Brazilian Journal of Biology; Check List, entre outros.
Participei também de mais de 30 bancas de doutorado, mestrado e graduação em diversas instituições de ensino e pesquisa.

Atualmente me mantenho ativa na curadoria do herbário, recebendo a visitas de pesquisadores de diferentes instituições de ensino e pesquisa, que utilizam o acervo para desenvolver trabalhos técnicos, monografias de conclusão de curso, dissertações e teses. Também informando a comunidade acadêmica e científica todo o valor das nossas coleções, disponibilizando os dados online, mantendo-os atualizados constantemente, desta maneira, proporcionando a realização de inúmeros trabalhos científicos. Ainda executo alguns projetos, mesmo com pouco tempo para estes, pois zelar por uma coleção de 143.000 exemplares, é uma tarefa bastante intensa. Constantemente sou consultada para identificar material das famílias que sou especialista, auxiliando desta maneira muitos alunos e/ou pesquisadores em seus projetos de pesquisa.


Texto e fotografias: Dra. Maria Salete Marchioretto

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

O PAI DO INSTITUTO FAZ 130 ANOS; PARABÉNS!

 Esta postagem é feita em homenagem ao Colégio Anchieta (1890), o pai do Instituto Anchietano, em seus 130 anos de atividade. O filho também já tem 64 anos de atividades e deseja contar, informalmente, um pouco das circunstâncias em que foi gerado, dos seus parteiros e de seu desenvolvimento. Escrevi a certidão de nascimento e devo ser o último dos presentes naquele momento.

Falo sobre o contexto, os primeiros sócios e a trajetória.



 Figura 1: O majestoso antigo Colégio Anchieta, onde o Anchietano nasceu.


O contexto:

O Instituto Anchietano de Pesquisas nasceu em 1956 no antigo Colégio Anchieta, na Rua Duque de Caxias, em Porto Alegre. Em sua origem está um punhado de jesuítas preocupados com a divulgação das pesquisas que estavam fazendo, a sobrevivência de suas coleções originais e a preservação da preciosa bibliografia especializada, adquirida com muito esforço, sem nenhum apoio institucional. 

O tempo em que o Instituto nasceu existia, em Porto Alegre, uma Universidade Pública e uma Universidade Católica, que formavam técnicos e cidadãos respeitáveis, não especialmente cientistas. Com características semelhantes existiam, na área metropolitana e pelas cidades do interior, Faculdades isoladas, federadas ou agregadas e outras estavam se formando. Aqui estão incluídas as Faculdades que os jesuítas de São Leopoldo estavam abrindo ao público.

Grande parte da produção cultural nascia de Institutos Históricos, Geográficos e/ou Etnográficos, que ofereciam vazão social à produção intelectual de seus cidadãos respeitáveis. Neles, ao lado dos mais variados temas, se buscava saber qual era, afinal, a identidade social do povo rio-grandense e qual parte em sua formação, competia a paulistas, açorianos, índios missioneiros e imigrantes europeus. O CTG formulou uma síntese possível. 

Na cidade havia, também, ginásios e colégios, confessionais ou públicos, entre os quais o Colégio Anchieta, que se propunham como atividade básica a educação de seus alunos para a sociedade do tempo; ela se fazia num contexto de produção e fruição cultural. O museu escolar era exigência para o reconhecimento oficial da instituição. Ele cobria especialmente o campo da História Natural e podia tornar-se uma plataforma de pesquisa original, que superava os objetivos iniciais. Foi o que aconteceu no Colégio Anchieta e desencadeou o processo de fundação do Instituto. 

Eu tive a graça de viver no Anchieta (figura 1), do começo de 1955 ao fim de 1958 como professor e estudante de História na Universidade Federal. Na residência do Colégio viviam 33 jesuítas, a maior parte ocupada com os afazeres da escola; outros se dedicavam à produção e divulgação de cultura, ao atendimento social e religioso e ainda os que estudavam nas duas universidades da cidade. A instituição oferecia cursos diurnos para jovens de famílias de classe média do centro da cidade, e cursos noturnos para operários e outros trabalhadores. Os jesuítas constituíam grande parte da mão-de-obra e os estudantes faziam prever um futuro promissor para suas obras. 

Então, uma tarde de sábado fui convocado para secretariar uma reunião na sala em que costumavam reunir-se os congregados marianos da casa. Ali, naquela tarde, nasceu o Instituto Anchietano de Pesquisas, uma sociedade civil de jesuítas ligados à produção e divulgação de Ciência e de Cultura. O futuro era previsto grande, multidisciplinar e multinacional. Eu escrevi a Ata da Fundação.


Quem eram os fundadores?

A ideia da fundação partiu de duas personalidades representativas na sociedade gaúcha: Padre Luiz Gonzaga Jaeger, historiador e agente religioso e Padre Balduíno Rambo, botânico e atuante ecológico. 

Os sócios fundadores eram sacerdotes jesuítas, com formação básica em Humanidades, Filosofia e Teologia, formação considerada suficiente para atuar em qualquer das obras da Congregação, mesmo na produção de ciência.

Vou identificar alguns fundadores e sócios admitidos nas primeiras horas.

Luiz Gonzaga Jaeger (1889-1963), como historiador procurava mostrar a importância da obra dos jesuítas, especialmente em sua relação com os índios guaranis e a contribuição desses missioneiros na formação da identidade gaúcha. Para consolidar o culto aos mártires jesuítas, ele buscou elementos materiais para indicar Caaró como lugar do martírio de Roque González e companheiros, e Santa Lúcia do Piaí como o de Cristóvão de Mendoza. Usava como plataforma de ação e divulgação o Instituto Histórico do Rio Grande do Sul. Seus continuadores foram Arnaldo Bruxel (1909-1985), que envelheceu enterrado em arquivos públicos, e Arthur Rabuske (1924-2010), um historiador multiforme

Balduino Rambo (1905-1961), botânico, preocupou-se com o conhecimento e a sistematização do mundo vegetal do Estado. Para ajuda-lo na tarefa convocou outros religiosos, jesuítas ou não-jesuítas, dividindo com eles o estudo. Entre os parceiros estavam Aloísio Sehnem (1912-1981), livre-docente-doutor, encarregado das Briófitas, e Canísio Orth (1906-1977), responsável pelas plantas medicinais. Ele mesmo ficou com a plantas superiores (que produzem flores), mas também recuperou o trabalho sobre os fungos e liquens de um antecessor, João Evangelista Rick (1869-1946). Para conseguir uma visão abrangente, sistêmica da vegetação, sobrevoou e fotografou boa parte do Brasil, e seu teco-teco fez mais de uma aterrisagem forçada. Notável foi sua preocupação com a formação de parques e a conservação de matas nas propriedades agrícolas. Sua base de operações era o museu do Colégio Anchieta, onde sua coleção de plantas somava mais de 80.000 espécimes. Também batalhou pela inclusão dos imigrantes na formação da identidade social gaúcha.

Pio Buck (1883-1972), suíço, interessou-se pelos insetos gaúchos. Ele reuniu 120.000 exemplares em sua coleção, onde se destacam as borboletas e os cascudos. Sua base de operações era o museu e seus auxiliares os alunos do colégio. A coleção continua na instituição de origem. 

Josef Hauser (1920-2004), húngaro, que estudava planárias e João Oscar Nedel (1921-2012), abelhas, são os primeiros doutores por universidades europeias, ultrapassando o nível de formação clássica dos jesuítas. Com essa qualificação aparecem, logo, Matthias Schmitz (1916-1975), alemão, químico e Milton Valente (1912-1989), especialista em Língua Latina e História Romana. A atuação deles não é mais pelo museu e o colégio, mas pela Universidade.

João Alfredo Rohr (1908-1984) optou pela arqueologia depois se retirar do magistério e da direção do Colégio Catarinense. Seu trabalhou resultou em considerável acervo de material cultural e biológico de antigas populações indígenas de Santa Catarina. Sua atuação também garantiu a preservação dos sambaquis do Estado, os maiores do litoral brasileiro. Como base de atuação criou o museu que leva seu nome. 

Pedro Ignácio Schmitz (1929- ), livre-docente-doutor, tornou-se arqueólogo por indicação de Balduíno Rambo. Sua proposta de criar uma amostragem representativa das antigas culturas indígenas do Brasil, com o apoio de equipes regionais, resultou em boas vidualizações para os estados subtropicais do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, e para os estados tropicais de Mato Grosso do Sul, Goiás, Bahia e Pernambuco. Sua base de operações é a sede do Instituto, junto à UNISINOS, em São Leopoldo. 

Adalberto Holanda Pereira (1927-1996) era missionário entre os índios do Mato Grosso. Sua vida foi centrada em documentar os mitos de tribos indígenas atingidas pela ação missionária. Dez de seus levantamentos, às vezes bem volumosos, foram publicados pelo Instituto. Uma choupana junto ao rio, na proximidade de uma aldeia indígena, era a sede de seu trabalho. José de Moura e Silva (1928-2016) e João Dornstauder (1904-1994), austríaco, seus companheiros de missão, também pertenceram ao Instituto.


A trajetória da instituição

O Instituto nasceu no Colégio Anchieta, no Centro de Porto Alegre, onde a sede ficou até a morte de Balduíno Rambo, seu diretor, em setembro de 1961, quando ele foi transferido para junto das Faculdades que os jesuítas estavam formando no centro da cidade de São Leopoldo, junto ao rio dos Sinos (figura 2); as faculdades se transformaram na Universidade do Vale do Rio dos Sinos.  Nesses prédios, que tinham abrigado o Ginásio Conceição e o Seminário Central, ele permaneceu cinquenta anos. Agora ele está no Campus da Unisinos, onde ocupa toda a ala B05 (figura 3) e mais um espaço no piso térreo da biblioteca. 

Ali se encontram: a Secretaria, a Edição da Revista Pesquisas, a Biblioteca, salas de pesquisadores e bolsistas, o Herbário Anchieta com 142.000 espécimes originários das coleções de Rick, Rambo e Sehnem, com os básicos disponíveis em rede mundial de herbários (figura 4, a Reserva Técnica da arqueologia, com catálogo digitalizado, on-line (figura 5), a correspondente sala de Memória Indígena (figura 6); também a sala de Memória Sacra, com esculturas missioneiras, estátuas, vestes, livros e objetos litúrgicos (figura 7). As vestes já foram digitalizadas, os livros sacros parcialmente. As Salas de Memória atendem as escolas da região e visitantes em geral.

O Colégio Anchieta, agora Av. Nilo Peçanha, em Porto Alegre, fez questão de conservar a coleção de Pio Buck em seu Museu de Ciências Naturais. E o Colégio Catarinense, em Florianópolis, mantém as coleções de João Alfredo Rohr, no museu que leva o nome do arqueólogo. Essas coleções são administradas pelos respectivos colégios e ficam à disposição de alunos, pesquisadores e visitantes.  

Com isto se cumpre o item do Estatuto, que fala de preservação, continuidade e utilidade das coleções. 

Outro item do Estatuto, a divulgação da pesquisa, não foi descurado. Em 1957 saiu o primeiro número anual de Pesquisas, Revista de Permuta Internacional, abrangendo os diversos campos de estudo. A partir do terceiro número, ela se desdobrou em séries: Botânica editou 75 números; Antropologia, 75 números; História, 30 números; Zoologia, 33 números. Foi criada ainda a série Arqueologia do Rio Grande do Sul, Brasil, Documentos, com 11, e Publicações Avulsas, com 12 volumes. As séries História e Zoologia foram absorvidas pela UNISINOS. Inicialmente impressa em papel, a revista passou a ser digital e os números anteriores estão sendo igualmente digitalizados.

A criação da Revista Pesquisas seguiu o caminho traçado por outros grupos de pesquisadores jesuítas. Assim, já em 1902, os jesuítas portugueses tinham fundado a revista Brotéria, na qual João Ev. Rick publicou seus primeiros estudos de Fungos e Líquens. 

No correr dos anos, os sócios do começo foram desaparecendo, o total dos jesuítas, contra as expectativas iniciais, diminuiu drástica e repentinamente, os especialistas migraram para a, então, jovem Unisinos. O Instituto foi-se encolhendo, mas continua vivo e atuante. Vencido o limiar da pandemia do Covid-19, como outros setores e instituições, ele merece uma reestruturação dentro da Universidade. 


Breve avaliação:

Olhando para trás, percebe-se que o Instituto nasceu e se desenvolveu num período de transição. Ele nasceu num grande colégio de jesuítas de formação ampla e geral; atendia a melhor sociedade urbana provincial; num período em que a produção de Ciência e Cultura passava dos colégios e dos Institutos Históricos para organizações acadêmicas universitárias; o cientista deixava de ser isolado, autodidata e exploratório e começava a ser treinado, para trabalhar em equipe, com metodologia controlada, problemas específicos de interesse supranacional; a revista regional, por não mais criar impactos frente aos  grandes periódicos digitais, em inglês, desapareceu, ou foi digitalizada; as coleções materiais foram digitalizadas e seus conteúdos, digitalizados,  colocados em redes mundiais.

A pergunta final: O Instituto Anchietano de Pesquisas representou algo e foi útil para a sociedade transicional desse tempo? Quem viveu toda a transição e nela se realizou como pessoa e como profissional da Ciência, responde: Representou e precisa continuar. 

 


Figura 2. Aqui, na beira do Rio dos Sinos, o Anchietano ficou 50 anos.

 


Figura 3. Sede atual do Anchietano, no Campus da UNISINOS.



Figura 4. A maneira como são guardadas as plantas no Herbário.

 


Figura 5. A maneira como são guardadas as amostras da Arqueologia.

 


Figura 6. Aspecto da Sala de Memória Indigena.

 


Figura 7. Aspecto da Sala de Memória Sacra.



Texto: Prof. Dr. Pedro Ignácio Schmitz 

Imagens: Acervo de Imagens Instituto Anchietano de Pesquisa

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

EU E A ARQUEOLOGIA

 Suliano Ferrasso, hoje pai de um lindo menino, Biólogo por formação, Arqueólogo por assim dizer ‘osmose’, descendente de italianos, nascido em Caxias do Sul, RS.

O início do processo de ‘osmose’ com a Arqueologia se iniciou em 2008, dois semestres antes se iniciava a formação em Biologia. Desde muito cedo o assunto de populações pré-históricas me atraía, em especial entender quais eram as bases que sustentavam estes povos, ou seja, qual era a sua alimentação. 

Entre idas e vindas no início do curso de Biologia procurava absorver o que era possível, seja com leituras de livros e artigos, seja na busca por estágios em museus. Num primeiro momento pude me aproximar da paleontologia com um estágio no Museu da História Geológica da UNISINOS, juntamente com a prof. Dr. Tania Lindner Dutra, cuja experiência e sabedoria acerca da práxis científica foram muito enriquecedoras para mim. 

Em 2007/2 cruzei com um curso intitulado ‘Zooarqueologia de Sítios Históricos’, o termo Zooarqueologia me causou uma inquietação. O que isto seria, o que estudaria, e principalmente qual era o profissional que trabalha esta área. Realizei o curso e lá conheci o zooarqueólogo, Dr. André Luis Jacobus, este biólogo por formação que há muito tempo se dedicava a estudar o tema, e com o qual durante o curso muito pude aprender e entender o que é definido por Zooarqueologia. Através dele descobri então o Instituto Anchietano de Pesquisas (IAP), também da UNISINOS. Com a recomendação do André Jacobus, fui ao IAP a procura de um estágio. Lá fui muito bem recebido pelo Me. André Osório Rosa, também biólogo por formação e que também se dedicava a pesquisa zooarqueológica num setor do IAP que possui estreita ligação com a arqueologia. No decorrer das idas ao IAP fui conhecendo e sendo bem recebido por toda a equipe. O Dr. Pedro Ignácio Schmitz, pessoa incrível e um grande pesquisador com o qual aprendo até hoje. O Dr. Marcus Vinícius Beber, historiador por formação. O Dr. Jairo Henrique Rogge, geólogo por formação. Dentro desta equipe interdisciplinar pude ir então vivenciando e aprendendo por ‘osmose’ sobre a Arqueologia. Desta forma se iniciou a minha vivência com ‘Eu e a Arqueologia’.

Comecei no IAP como Estagiário Voluntário em 2008, no decorrer do tempo fui Bolsista de Iniciação Científica, e depois em 2011 pude integrar o quadro funcional do IAP, onde trabalho desde então. Durante este tempo todo foram muitas horas de análise e interpretação no Laboratório de Zooarqueologia, entremeados a muitas saídas de campo com a equipe do IAP. 

Em laboratório, o Zooarqueólogo necessita se abastecer de muito conhecimento, muita leitura sobre o assunto (teorias, métodos e perspectivas). De uma forma bastante abreviada o estudo zooarqueológico é anatomia comparada. Compara-se os vestígios alimentares pré-históricos com elementos conquiliológicos e ósseos de animais atuais, a partir desta informação básica se identifica nos vestígios as marcas de uso por populações pré-históricas e cruzando informações biológicas e culturais se começa o esboço dos padrões alimentares na pré-história. Esse conjunto de fatores (conhecimento prévio, identificação e interpretação) se desenvolve em laboratório, estudando diante de uma bibliografia, analisando um vestígio biológico e dando significado ao mesmo com a melhor interpretação possível.

A etapa que rende mais histórias e infinitamente muito aprendizado são as saídas de campo. Nestas ocasiões se aprende principalmente a distância entre a teoria e a prática. Nem sempre é fácil dividir uma Kombi entre oito pessoas, mais todos os equipamentos e bagagens numa viagem de seis horas num dia de sol de 36 graus. Começam aí os desafios e vemos como isso aproxima as pessoas.

Minhas vivências de campo me possibilitaram conhecer diferentes fisionomias sempre com a perspectiva da presença humana pretérita no meio ambiente. Isto é algo muito incomum dentro da formação em Biologia. Essa possibilidade de ampliar e visualizar estas dinâmicas sempre foi o que mais me atraiu, e sempre me motivou a continuar investindo nessa área. Pude participar de vários projetos, mas vou destacar três destes: Projeto Arroio do Sal (estudo de sítios litorâneos), Projeto São José do Cerrito (estudo de estruturas subterrâneas) e Projeto Uruguaiana (estudo de Estâncias Missioneiras).

No Projeto Arroio do Sal comecei a ter contato com o ecossistema marinho, sua riqueza em termos de fauna e flora, o seu complexo sistema de barreiras que caracteriza nosso litoral e o torna uma fisionomia única, isso tudo com a presença humana em tempos pretéritos atestado pela presença de Sambaquis e acampamentos de culturas ceramistas. Foram ótimas as saídas de campo, com a equipe muito discutimos sobre métodos de prospecção arqueológica e muito fui aprendendo sobre a Arqueologia. E também fui pensando sobre o que via nas aulas de biologia sobre questões ecológicas.

No Projeto São José do Cerrito pude experimentar a vivência num ambiente muito complexo e rico como a chamada Mata de Araucária, ou Floresta Ombrófila Mista, lá em meio a toda a riqueza biológica se encontram vestígios de populações pré-históricas do tronco Jê Meridional. Os vestígios destas populações são as popularmente chamadas ‘casas subterrâneas’, que através de seu estudo se pode verificar a estreita ligação deste povo com a Mata de Araucária e com tudo que ela oferece em recursos faunísticos e florísticos. Foram muitos anos de idas e vindas e muito estudo sobre estes povos. Nestas saídas de campo pude aprender muito sobre como escavar sob as aulas junto com o prof. Pedro Ignácio Schmitz.

No Projeto Uruguaiana foi uma outra experiência rica, em diversos sentidos, em termos de ambiente pude ter contato com um bioma extremamente rico e seriamente ameaçado, o famoso Pampa gaúcho. Pude ter contato e conhecer o verdadeiro gaúcho da fronteira, com seus costumes e seu jeito característico. A experiência se fosse por isso já seria ótima, mas foi muito além, e foi muito desafiadora, pois tive de novamente ir aprendendo por ‘osmose’ sobre um tema novo para mim até então, a Arqueologia Histórica. Novamente estar junto a uma equipe multidisciplinar foi fundamental, aprendi muito com os professores Marcus V. Beber e Jairo H. Rogge em campo, sobre o que olhar e como olhar, na medida do possível eu também ajudava a entendermos o ambiente no qual estávamos inseridos. Em laboratório tive muitas aulas com o prof. Pedro Ignácio Schmitz, a partir desse conjunto de aprendizados e saberes também pude ir contribuindo para agregar valor ao projeto.

Toda essa vivência dentro do ambiente da Arqueologia foi uma escolha minha e sempre me empenhei em dar meu melhor, com certeza ser determinado foi algo de definiu muitas coisas, mas igualmente a isto, ser bem recebido e ter pessoas dispostas a compartilhar e ensinar foi fundamental, sem os quais muito provavelmente não teria chegado até este ponto. Neste sentido costumo brincar, que é uma forma de descontrair, mas que é muito sério, aprendi Arqueologia por ‘osmose’ graças as oportunidades que tive, e que eu assumi com responsabilidade, e também por ter apoio de ótimos pesquisadores que muito me ensinaram.

Hoje sou  Mestre em Biologia, em Diversidade e Manejo da Vida Silvestre, e continuo buscando trazer este conhecimento adquirido formalmente para dentro da Arqueologia, junto a uma importante equipe. Que é formada por pesquisadores, e também por funcionários que auxiliam nas tarefas administrativas dentro da instituição, este trabalho conjunto fazem os resultados renderem bons frutos.

Desta forma esboço aqui um pouquinho do meu ‘Eu e a Arqueologia’, com certeza daria para escrever muito mais histórias, mas este foi parte de um começo.

 

Projeto Arroio do Sal. Escavação de um Sambaqui.



Projeto Arroio do Sal. Escavação de uma grande quadrícula em um Sambaqui.



Projeto São José do Cerrito. Equipe do IAP chegando, em atividade de campo.



Projeto São José do Cerrito. Vista de uma ‘casa subterrânea’, com a sua respectiva escavação.



Projeto São José do Cerrito. Escavação de uma quadrícula em uma ‘casa subterrânea’.



Projeto Uruguaiana. Visão geral das taipas de pedra dos currais na Estância São Sebastião.



Texto e Imagens: Ms. Suliano Ferrasso

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

RESERVA MBYÁ-GUARANI, RIOZINHO/RS


No ano de 1997 o Campus da Unisinos era dividido em “Centros”. Havia áreas e laboratórios onde se desenvolviam trabalhos específicos de cada área de conhecimento e linha de pesquisa do curso de Ciências Biológicas. No Centro de Ciências da Saúde, bloco “D”, no corredor da Botânica, localizava-se o Laboratório de Plantas Medicinais e Fisiologia Vegetal, coordenado pelo Prof. Clemente José Steffen, eu fazia parte da sua equipe.

No Laboratório de Plantas Medicinais uma das linhas de trabalho era a etnobotânica. Com este enfoque a equipe realizou, em setembro de 1997, uma saída a campo para a cidade de Riozinho/RS, Reserva Mbyá-guarani.

Devidamente acordado com a prefeitura e licenciados para visitar a Reserva, seguimos, a partir da sede do município, transportados por uma “tobata”, subindo por uma estrada de difícil acesso. 

Nosso objetivo era conhecer plantas por eles utilizadas para diferentes finalidades.

 

A chegada na Reserva


Recebidos pelo Cacique, autorizados e acompanhados pelo mesmo, tivemos o privilégio de conhecer um pouco da história daqueles que estavam se estabelecendo na Reserva. Eles estavam migrando de diferentes localidades, onde vivenciaram realidades divergentes daquela que ali encontraram, na nova Reserva.

As casas trazidas pelas famílias que chegavam pouco a pouco eram remontadas para, num primeiro momento, abrigá-los. 

 

Casa construída com materiais reciclados, trazida por uma família recém chegada à Reserva 

                                                                                                                        

Uma nova casa em construção com materiais disponíveis na Reserva

 

A casa do Cacique, casa de reza

 

O fogo no interior de uma casa para cozimento e aquecimento

 


O revestimento que permite a saída da fumaça


O resgate na utilização de materiais naturais com estruturas que proporcionam ao mesmo tempo a proteção térmica e a ventilação necessárias foi importante também para a manutenção de questões referentes à saúde. As casas anteriormente construídas com materiais reciclados plásticos não permitiam a saída da fumaça, causa de problemas respiratórios relatados. 

Conhecemos as espécies vegetais utilizadas para a confecção de cestarias. O material recém coletado é processado na forma de longas tiras. Quando seco, parte é submetido ao processo de tingimento e a novo processo de secagem. Nos foi permitido assistir uma roda de mulheres confeccionando os cestos e constatar o instigante resultado de padrões sempre únicos de cada uma.

 

Material recém coletado para a trama das cestarias, amarração e alças

 


            Cestaria pronta para o uso na Reserva e para a venda

 

Presenciamos a preparação para a área de lavoura. A pequena área de roça, preparada com a queimada controlada da vegetação, que, após um ciclo de cultivo é abandonada para que a vegetação se reestabeleça, sem exaurir o solo.

 

Preparação da área para o cultivo, em sistema rotativo

 

O pilão utilizado para o processamento dos grãos produzidos na Reserva


Minha gratidão a todos pelo acolhimento e generosidade, pelos saberes compartilhados e pela vivência inesquecível


Texto e fotos: Bióloga Denise Schnorr

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

JAIRO ROGGE...ARQUEÓLOGO

 Meu nome é Jairo...o Henrique foi herdado de meu avô paterno e o sobrenome Rogge remete a minha descendência alemã, embora nunca tenha aprendido a falar o idioma, nem tampouco algum dialeto teuto-riograndense. Nasci em Taquara, RS, no ano emblemático de 1964, filho de pai funcionário público e mãe professora.

Vivi e cresci naquela cidade até 20 anos de idade, terminando o Segundo Grau (hoje, Ensino Médio) na Escola Técnica Monteiro Lobato - CIMOL, após 4 anos e meio cursando Eletrotécnica. No entanto, não era esse o caminho – de resistores, capacitores e os ainda pouco conhecidos circuitos integrados - que me aguardava. Muito antes, na minha pré-adolescência, ao ganhar de presente a famosa coleção Prisma, da Editora Melhoramentos, fui seduzido por assuntos que giravam em torno do conhecimento sobre o passado. Entre os diversos livros e diferentes assuntos que compunham essa coleção, foi o de Arqueologia, de Francis Celoria, que devorei em pouco tempo, lendo-o e relendo-o sem cessar. Com a adolescência, os livrinhos da Prisma acabaram ficando para trás, frente à novas prioridades da vida que se anunciavam. No entanto, dentre os livros daquela coleção, esse é o único que ainda tenho, já com páginas amareladas, capa amassada, algumas folhas soltas, mas que continua impávido em uma das prateleiras de minha biblioteca. De fato, olho para ele com carinho e certa nostalgia enquanto escrevo este texto.


Capa do livro “Arqueologia”, de Francis Celoria.

Editora Melhoramentos, Série Prisma.

 

A semente, mesmo sem eu ainda saber, havia sido plantada. Mas o impulso fundamental que me fez iniciar, de fato, a jornada pelo mundo da arqueologia, ocorreu ainda no último ano de escola técnica, em 1983, quando estava fazendo meu estágio final. Com boa parte do tempo livre e desejando ocupá-lo com atividades mais edificantes, reencontrei numa tarde André Luiz Jacobus, que então era funcionário estadual cedido ao Museu Arqueológico do Rio Grande do Sul (MARSUL) e atuava na coordenação técnica dessa instituição pública. Já conhecia André Jacobus há bastante tempo pois, além de morarmos na mesma vizinhança, ele também havia sido auxiliar na biblioteca do Colégio Santa Terezinha, o conhecido “colégio das freiras”. Ao reencontrá-lo, me falou da necessidade de auxílio na organização do acervo do Museu, perguntando se eu teria interesse em ajudar. Na semana seguinte, estava lá e não...não havia salário ou nenhuma forma de pagamento. Passei o final desse ano e o ano de 1984 intercalando pequenos “bicos” na área de eletrotécnica, só para ganhar uns trocados, com as atividades de limpeza, organização e catalogação do acervo do Museu. Também nessa época tive minhas primeiras participações em eventos de arqueologia (como os “simpósios de arqueologia sul-riograndense”), onde passei a conhecer um pouco mais não só sobre as diferentes temáticas arqueológicas, mas também seu ainda pequeno, mas curioso grupo de participantes. Em fins de 1984, era a hora de pensar em uma formação universitária...e as opções se voltaram para História e Geologia. Acabei escolhendo essa última!

O ano de 1985 chegou com o ingresso na Unisinos, no curso de Geologia e a mudança para São Leopoldo. Mas, um pouco antes disso, em uma conversa com André no Museu, ele me falou de escavações arqueológicas que um certo Instituto Anchietano de Pesquisas iria realizar em Ivoti. A pergunta foi: tem interesse em participar? Se sim, posso conversar com o Pe. Ignácio e ver se ele deixa! Naquele momento, só havia visto uma ou duas vezes o Pe. Pedro Ignácio Schmitz mas, é claro, ouvido e lido muito sobre ele e suas pesquisas. É claro que eu tinha interesse. Assim, em janeiro de 1985 me vi, por duas semanas, auxiliando a equipe do IAP na escavação de um abrigo sob rocha na então localidade de Picada Capivara, Ivoti (hoje município de Lindolfo Collor). Minha primeira escavação arqueológica: e a primeira vez a gente nunca esquece! Foi aí, de fato, que a decisão em ser arqueólogo foi tomada.

 

Escavações em abrigo sob rocha, Picada Capivara, Ivoti, 1985. Foto. P. I. Schmitz


A partir da entrada no curso de Geologia e dessa primeira experiência em uma escavação arqueológica, teve início um longa trajetória no IAP e na Unisinos, a partir daquele mesmo ano, 1985 até os dias de hoje, inicialmente como bolsista de IC, depois como funcionário (1992) e como professor do curso de licenciatura em História (1996) e do Programa de Pós-graduação em História (2010). Nesse meio tempo, concluí o curso de Geologia (1991), o mestrado (1995) e o doutorado (2004), sempre nessa casa.

Uma vez dentro do IAP, foram muitas as participações em projetos de pesquisa, tanto em campo como em laboratório. Escrever sobre cada um deles e tudo que me proporcionaram em termos de conhecimento e vivência seria tarefa árdua e demandaria algumas centenas de páginas: Corumbá, Içara, Quintão, Vacaria, São Marcos, Arroio do Sal, Taió, São José do Cerrito, Estâncias Missioneiras...são alguns deles. E todos, sem exceção, deixaram suas marcas. Entre esses e outros tantos, me deterei um pouco no Projeto Corumbá e, com isso não quero absolutamente diminuir a importância dos demais...mas ele foi, sim, um divisor de águas em minha trajetória.

O Projeto Corumbá foi desenvolvido entre os anos de 1990 e 2001, tendo como sede a cidade que lhe emprestou o nome, no coração do pantanal do Mato Grosso do Sul, esse mesmo que hoje arde em chamas. Durante todos esse anos, com uma pequena interrupção entre 1999 e 2000, a equipe do IAP se deslocava, durante o mês de julho, para aquela região e, juntamente com uma equipe ligada a Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (liderada por José Peixoto, que também foi bolsista do IAP), realizava pesquisas de campo em um vasto entorno, nas área alagadiças do pantanal propriamente dito, nas morrarias, nas lagoas.

Não participei dos dois primeiros anos do projeto, mas a partir de 1992 até 2001, uma grande área foi pesquisada, muitos sítios escavados e uma quantidade enorme de informações foram geradas sobre a pré-história local e regional.  As pesquisas permitiram identificar, pela primeira vez, uma ocupação multicomponencial na área do pantanal, por grupos caçadores e coletores, grupos ceramistas e populações indígenas históricas, com uma abrangência temporal que se inicia há 8.000 anos atrás e vem até nossos dias. 

No entanto, além do êxito do projeto em produzir um conhecimento até então praticamente inédito, a isso se juntou a possibilidade de conhecer um Brasil mais profundo, com seus problemas mas também com suas facetas multiculturais, suas gentes e suas belezas naturais. As andanças pelo pantanal, pelas morrarias, pelos rios e lagoas (e mesmo seus perigos) da região tornaram essa experiência extremamente rica, em termos de conhecimento arqueológico, de percepção de mundo e de cidadania!

 

Escavação de um sítio arqueológico às margens do Rio Verde, localidade de Albuquerque, Corumbá, MS. Foto: P. I. Schmitz

 


 

Escavando um sepultamento em um aterro, Fazenda Sagrado Coração, Corumbá, MS. Foto: P. I. Schmitz



 

Petroglifo, Fazenda Moutinho, Corumbá, MS. Foto: P. I. Schmitz

 

Escrever sobre toda a riqueza de experiências ao longo desses anos, tanto nas atividades voltadas à pesquisa quanto na docência, é tarefa difícil. Da mesma forma, nomear cada pessoa, cada colega com quem tive contato durante esses anos de IAP, seria quase impossível, pois essa instituição foi passagem e celeiro de muitos(as) arqueólogos(as) que hoje atuam em diversas áreas do país. Por isso, nomeio aqui parceiros(as) de longa data nessa jornada, Marcus Vinícius Beber, Suliano Ferrasso, Salete Marchioretto, Denise Schnorr, Ivone Verardi e Jandir Damo, sem esquecer os(as) bolsistas Gabriel Oliveira, Luan Garcia, Ranieri Rathke, Jefferson Nunes, Márcio Mattos, Natália Mergen, Fabiane Rizzardo e Rafaela Nogueira, mas ao mesmo tempo lembro e reverencio a todos(as) com quem a compartilhei, em algum momento ao longo desses anos. 

Por fim, ao contar um pouco de minha trajetória, tento também fazer uma singela homenagem aos que me mostraram e ainda mostram o caminho: André Luiz Jacobus (in memoriam) e Pe. Pedro Ignácio Schmitz, mestre, a quem devo tanto!


Texto e Imagens: Dr. Prof. Jairo Henrique Rogge