terça-feira, 16 de maio de 2017

Minha vivência como estagiário de patrimônio na Memória Sacra do Instituto Anchietano de Pesquisas/Unisinos

No início do semestre, durante a primeira aula da disciplina de Patrimônio Cultural, ao receber as explicações sobre as horas de atividades práticas, decidi desenvolver um trabalho relacionado à fé. Após orientação da professora, fui até o Instituto Anchietano de Pesquisas, sendo apresentada ao professor doutor Pedro Ignácio Schmitz. Durante suas explicações, o professor me acompanhou até o Museu Capela do Instituto Anchietano de Pesquisas, onde estão expostas três imagens de São Miguel Arcanjo. As imagens chamaram minha atenção devido à minha devoção, à sua beleza, e aos caminhos que percorreram até virem a ser restauradas e terem seus valores históricos reconhecidos.
Expressei, então, o desejo que essas imagens viessem a se tornar meu objeto de pesquisa dentro do Instituto. A partir da segunda quinzena do mês de março, dei início às atividades práticas, tendo a oportunidade de conhecer a rica biblioteca do Instituto. O acervo da biblioteca conta com um vasto material com o qual efetuei minha pesquisa, tendo acesso às imagens e bibliografia.
O primeiro contato com as imagens trouxe-me imensa admiração pelo trabalho desenvolvido para recuperar tão exuberantes obras. Ressalto que tais peças do acervo percorreram, durante séculos, caminhos muitas vezes permeados de abandono, e sem o devido reconhecimento de sua importância histórica e religiosa.
A presença das imagens do Arcanjo nas reduções jesuíticas, teve, além do caráter doutrinador, o desejo de proteção contra a cobiça, a maldade humana e a soberba. O Arcanjo Miguel portando sua lança que fere o dragão que se encontra sob seus pés e sua balança, é símbolo de força do bem contra o mal, e representa a justiça divina. Nas imagens missioneiras, a representação do mal tem feições humanas, com traços portugueses, demonstrando o grande temor do povo Guarani pelos bandeirantes.
Impossível não se encantar com a beleza das imagens, dos traços delicados aos rústicos, da grandiosidade da imagem barroca, de todos os significados que as três imagens do poderoso arcanjo carregam. Tais peças têm em si a memória e a luta de um povo, de homens que tinham na fé a esperança de ter suas vidas a salvo da maldade e cobiça. Os movimentos dos traços das obras demonstram a força que o Arcanjo Miguel representa, e sua vitória contra aquele que tinha em si os piores pecados.
Posso dizer que, devido ao acúmulo de muitas tarefas, talvez não tenha desenvolvido a pesquisa como gostaria, mas a oportunidade que me foi oferecida na disciplina é única, uma vez que no currículo acadêmico de meu curso são poucas as oportunidades de trabalhar objetos ligados ao patrimônio. Quero agradecer a compreensão e auxílio de toda a equipe do Instituto, que, durante duas semanas, me concederam espaço e material para trabalhar, além de me possibilitarem pensar na importância dessas obras para a construção de nossa nação.


Texto: SUELEN FLORES
Fotos: acervo IAP

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Minha vivência como estagiário de patrimônio na Memória Sacra do Instituto Anchietano de Pesquisas/Unisinos

Em meu período de horas práticas no Instituto Anchietano de Pesquisas, estive na tutela do Dr. Pedro Ignácio Schmitz e a sua equipe, aos quais sou imensamente grato por me oportunizar o estudo de uma escultura de madeira e duas estátuas de gesso da Imaculada Conceição. Trabalhando com esses objetos procurei verificar a importância que possuem e representam para a comunidade e a instituição. Busquei a melhor compreensão do que é patrimônio cultural de uma forma prática, absorvendo o conceito como um bem material ou imaterial, advindo da cultura e a significância que tal objeto tem para uma população.

Imaculada Conceição é nome dado a Maria de Nazaré advindo de sua pureza. Segundo a crença, Maria teria sido escolhida por Deus desde sua concepção e, ao se tornar consciente dos planos do Senhor, aceitou inteiramente estar em união com ele, sendo assim “cheia de graça”. Imaculada remeteria à crença de que Maria nunca havia sido tocada pelo pecado original o qual, para o cristianismo, todos carregam até o momento do batismo. Conceição é o ato de ser criado no seio de uma mulher.




 Nas obras conservadas pelo Instituto Anchietano de Pesquisas a representação da Imaculada Conceição foi feita com as mãos unidas como em uma prece ou com os braços abertos. Sua túnica branca representa a pureza de sua pessoa. O manto azul simboliza o céu, também mostrando a distinção de Maria do resto da humanidade em razão de sua graça. Em sua cabeça há uma coroa de doze estrelas. Sobre seus pés um globo. Muitas vezes também é possível encontrar uma lua nova. É interessante observar a serpente que rodeia o globo, essa também pode ser substituída pelo dragão, representação cristã do mal que se encontra no mundo. O pé da Imaculada Conceição está sobre a cobra que carrega a maçã, o fruto proibido.
A obra feita em madeira é do estilo barroco, mais rebuscada, foi recolhida nos Sete Povos das Missões no começo do século passado. Das estátuas de gesso uma é de Porto Alegre e a outra da Europa.
            O estilo barroco foi consolidado como opositor do racionalismo do Renascimento, que primava por obras harmônicas e simplicidade. Foi o primeiro movimento artístico que chegou ao Brasil com alguma expressão. Na religião serviu como auxiliar dos propagadores da fé e muitas catedrais e igrejas que hoje são parte do patrimônio mundial foram criadas no estilo barroco. Em nosso país essa forma de arte teve grande desenvolvimento devido às minas de ouro e diamantes em nosso território. Ele causou rápido crescimento econômico de algumas camadas da população que viviam nesses locais, bem como chamou atenção de pessoas com maiores condições financeiras que poderiam vir a se interessar por essa forma de arte. Artistas poderiam ser tutorados por benfeitores, paróquias, confrarias, etc.
Essas situações, até então atípicas no Brasil, poderiam ser mais facilmente encontradas em Minas Gerais, por seu ouro e pedras preciosas e no Nordeste, que acumulava riqueza do período de exploração da cana-de-açúcar.
Portanto temos na Memória Sacra obras que são sem dúvida peças únicas e que remetem a períodos importantes da história de nosso país e estado. Elas solidificam a memória com o passado, trazem experiências interpretativas únicas àqueles que as contemplam, sendo patrimônios valiosos da sociedade.
Texto e fotos: NORTON  NEVES

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Estatuária na Memória Sacra do IAP/Unisinos

            Tendo suas atividades iniciadas em 1913, no complexo que outrora sustentara o Colégio Conceição, o Seminário Provincial de São Leopoldo fora criado para suprir a necessidade por um novo espaço de formação para o Clero no Rio Grande do Sul, visto que o Seminário presente em Porto Alegre não conseguia mais atender toda a demanda.

No Seminário havia diversas capelas cada uma com suas estátuas de gesso algumas das quais foram transferidas para a Memória Sacra e que analiso nesta apresentação. A de São João Nepomuceno é de madeira e veio do Seminário São José de Pareci Novo.


Maria Imaculada Conceição
            Representação da Virgem Maria segundo o dogma da Igreja Católica, estabelecido em 8 de dezembro de 1854 por Pio IX (Bula "Ineffabilis Deus"), através do qual é dito que a Virgem Maria seria pura desde o momento de sua conceição, completamente livre do pecado original.
            Este dogma é representado em sua imagem pela Virgem Maria pisando sobre a cabeça de uma cobra que segura uma maçã na boca. Seu manto, cor azul, simboliza o céu, ao passo que os bordados em dourado simbolizam sua realeza. Esta imagem difere das representações mais refinadas que a apresentam com uma coroa sobre a cabeça e com um conjunto de anjos sob seus pés, por vezes acompanhados por uma meia lua.
            Existem duas imagens semelhantes da Imaculada Conceição no acervo do museu, distinguindo-se pela pintura (uma delas possui traços mais refinados e detalhados) e pela origem, sendo uma produzida na cidade de Munique, Alemanha, e outra em Porto Alegre.


 Mayer & Co. Munich. Royal ecles. art Establishment

Atelier de Arte Christã. Roehe & Allgayer. Santo Antônio 716 - Porto Alegre

Sagrado Coração de Jesus
            A devoção ao Sagrado Coração de Jesus teve origem em 1673, quando a Santa Margarida Maria de Alacoque teria recebido revelações de Jesus incumbindo-a de propagar a devoção. Em um total de três momentos de revelação (em 1673, 1674 e 1675), Jesus teria deixado para a Santa doze promessas referentes ao seu Sagrado Coração.
A representação do Sagrado Coração de Jesus comumente apresenta o coração exposto, no cento do peito. O coração é representado como em chamas, circundado pela coroa de espinhos e com o ferimento produzido pela lança na derradeira hora de Jesus. Uma segunda imagem presente no acervo, também representando o Sagrado Coração de Jesus, apresenta os símbolos de sua paixão, depositados a seus pés: uma coroa de espinhos, três cravos, um açoite e uma tocha. A placa refere-se à primeira imagem a segunda não tem placa e provavelmente vem de Munique.



Fábrica de Imagens Röhe & Müller, Porto Alegre

São José
            Declarado Patrono Universal da Igreja em 1870 pelo papa Pio IX, São José foi o pai adotivo de Jesus. Inicialmente São José teve pretensão de abandonar Maria quando esta revelou estar grávida, mas foi advertido por um anjo de que a criança seria o Filho de Deus, fazendo com que José casasse com Maria e criasse o menino. José cuidou e sustentou sua família exercendo o ofício que ensinou também a Jesus, a carpintaria.
            As representações de São José comumente o representam com um manto marrom, simbolizando a humildade e a simplicidade, duas características que o Santo sempre levou consigo em vida; um lírio em uma das mãos, representando a pureza; um olhar voltado para baixo, simbolizando que ele foi o pai terreno de Jesus; o próprio menino Jesus em seu colo, segurando um globo nas mãos, este, por sua vez, representando o domínio de Jesus sobre toda as coisas.
A primeira imagem é de tamanho grande e a segunda pequena. A placa corresponde à primeira imagem, a segunda não tem placa.



Atelier de Artigos para o culto. Fábrica de altares e imagens Henrique Rüdiger. Rua Cristóvão Colombo, 1971, Porto Alegre


São Francisco Xavier no altar
            São Francisco Xavier nasceu na Espanha, no dia 7 de abril de 1506. Aos 18 anos foi para Paris estudar, tornando-se doutor e professor. Após conhecer Inácio de Loyola, tornou-se amigo deste, enfim se convertendo.  Francisco tornou-se padre, sendo co-fundador da Companhia de Jesus.
São Francisco viajou para o Oriente em trabalho missionário, andando pela Índia e pelo Japão, vindo a falecer pouco antes de chegar até a China. É dito que, traçando o caminho total percorrido por ele, em todas as suas viagens missionárias, seria possível percorrer o globo quase três vezes. Francisco foi beatificado pelo Papa Paulo V a 25 de outubro de 1619 e canonizado pelo Papa Gregório XV, a 12 de março de 1622, em simultâneo com Inácio de Loyola. É o santo patrono dos missionários.
Sua representação comumente mostra-o abrindo a batina na altura do peito, representando tanto o fervor de suas orações quanto o calor das regiões missionadas.

Santo Inácio no altar
            Nasceu em 31 de maio de 1491, na Espanha. Mais novo de 13 irmãos, perdeu seus pais ainda moço, vivendo uma vida leviana na casa de parentes. Na longa recuperação de um ferimento causado por um tiro de canhão na Batalha de Pamplona, dedicou-se à leitura de obras religiosas, que o inspiraram a levar uma vida a serviço de Deus. Abandonou a casa paterna e passou a viver uma vida de penitência e mendicância. Viajou para Jerusalém em 1523, onde tencionava viver e converter os infiéis. Tendo sua estadia negada, voltou a Barcelona e decidiu dedicar-se aos estudos. Estudou em três diferentes universidades, Alcalá, Salamanca e Paris, sendo perseguido e preso nas duas primeiras devido a suspeitas levantadas por suas pregações. Em 15 de Agosto de 1534 ele e seis companheiros fundaram a Companhia de Jesus na cripta da Igreja de Santa Maria, em Montmartre, Paris.
Inácio morreu em Roma em 31 de julho de 1556. Nesta data, os jesuítas eram aproximadamente 1000, espalhados em 110 casas e 13 províncias, possuindo 35 colégios em funcionamento. Santo Inácio de Loiola foi canonizado 12 de Março de 1622 pelo Papa Gregório XV.
A imagem do Santo Inácio presente no altar é sua representação oficial em vestes litúrgicas onde, ao invés da batina negra tradicional da Companhia de Jesus, Santo Inácio é representado com vestes brancas e douradas.

Santo Afonso Rodrigues no altar
            Nasceu em 25 de julho de 1532 em Segóvia, Espanha. De família cristã, teve de interromper seus estudos devido ao falecimento do pai, uma vez que assumiu os negócios da família. Sua esposa e dois de seus três filhos vieram a falecer não muito tempo depois, tornando-o viúvo aos 32 anos. Para complementar, foi a falência, perdendo os negócios que possuía. Abalado espiritualmente, após muito orar, encontrou sua vocação na chamada religiosa.
            Foi recebido pela Companhia de Jesus como irmão e, após seu noviciado, foi enviado ao Colégio de Formação, onde desempenhou a função de porteiro. Era conhecido por suas virtudes de obediência e humildade. Morreu em 31 de outubro de 1617, sendo canonizado pelo papa Leão XIII em 15 de Janeiro de 1888.
            Sua imagem é representada carregando um molho de chaves, símbolo de seus 40 anos como porteiro do Colégio de Formação.


São João Nepomuceno
            João Nepomuceno nasceu na cidade de Nepomuk, em um dos vales da Boêmia, por volta do ano de 1345. Em 1370 obteve o cargo de notário na Cúria Metropolitana. Nove anos depois, foi ordenado sacerdote e nomeado pároco de São Gall. Continuou seus estudos de direito eclesiástico na Universidade de Praga, obtendo o bacharelado. Em 1382, o arcebispo o enviou a Pádua, onde se doutorou em direito canônico, em 1387. Voltando em seguida para Praga, foi nomeado cônego da igreja de São Gall, permanecendo dois anos nesta função. Em agosto de 1390, tornou-se cônego honorário da Catedral de São Vito e vigário geral dessa arquidiocese.
            O desempenho excepcional de João Nepomuceno lhe rendeu um cargo na corte, como confessor da Rainha. Este novo cargo foi também o motivo de sua morte. O rei, desconfiado de que estava sendo traído pela rainha, convocou o confessor, exigindo saber tudo o que ela havia lhe confessado. João Nepomuceno não entregou a confissão, mantendo segredo. O rei mandou tortura-lo, o que não causou nenhum efeito, visto que João manteve o segredo da confissão. Sem sucesso, o rei mandou amarrar o sacerdote e jogá-lo de cima de uma ponte, levando a morte de João Nepomuceno em 20 de março de 1393.
            Mesmo com o rei tendo acobertado o ocorrido, inventando outra história, o povo da cidade sepultou Nepomuceno com as devidas honras a um mártir. Em 19 de março de 1729, na Basílica de São João de Latrão, pelas mãos do Papa Bento XIII, era solenemente elevado à honra dos altares São João Nepomuceno, mártir do segredo da Confissão.
A escultura o apresenta como sacerdote com os ombros cobertos por uma capa de arminho, um barrete na cabeça e uma palma nas mãos (desaparecida).
Escultura em madeira de origem europeia que veio do Seminário São José de Pareci Novo.

São Luiz Gonzaga
            Nasceu em 9 de março de 1568, na Itália. Filho de nobres italianos, desde cedo mostrou-se inclinado ao caminho religioso, ao adotar para si os votos de castidade. Seu pai, ao saber de suas inclinações para ser padre, tentou desencorajá-lo de todos os modos, levando-o a festas e banquetes, sem obter qualquer resultado. Aos quatorze anos entrou para a Companhia de Jesus, abandonando seu legado e sua nobreza.
            Indo completar seus estudos em Roma, compadeceu-se das pessoas que sofriam com a epidemia de tifo, ajudando quantas pessoas podia, até o ponto em que ele mesmo contraiu a doença, vindo a falecer em 21 de junho de 1591, aos 23 anos. São Luiz Gonzaga se tornou padroeiro da juventude e dos estudantes, sendo canonizado em 31 de dezembro de 1726 pelo Papa Bento XIII. Ele está representado como um noviço com um lírio simbolizando a pureza e um livro representando o estudo.


Fábrica de Imagens Röhe & Müller, Porto Alegre

São Bartolomeu
            São Bartolomeu foi um dos apóstolos de Jesus (Natanael), sendo um dos menos citados na bíblia. Segundo estudos históricos São Bartolomeu teria pregado a palavra de Jesus até na Índia. Teria morrido por esfolamento em Albanópolis, atual Derbent, na província russa de Daguestão junto ao Cáucaso. É o santo padroeiro dos padeiros, alfaiates, sapateiros e dos mercadores de Florença.
            A imagem apresenta-o segurando a própria pele e o objeto que teria sido usado para seu suplício, um alfanje (espécie de faca rudimentar). A pequena estátua não tem placa.

Para concluir
Na Memória Sacra as estátuas vindas dos seminários dos jesuítas são apenas pequena amostra da estatuária que havia em todas as igrejas, muitas delas produzidas em Porto Alegre, as primeiras ainda importadas da Europa.

Texto produzido por Igor Ferreira Komar

quinta-feira, 6 de abril de 2017

A LITURGIA DA SEXTA-FEIRA SANTA

No Seminário de São Leopoldo, que formava padres para o Sul do Brasil, na primeira metade do século XX, os rituais da Semana Santa eram realizados com solenidade. Em nossa Memória Sacra conservamos alguns testemunhos materiais.

Na Sexta-Feira acompanhavam-se, com amostras de dor e arrependimento, as XIV estações da Via Sacra. 
As imagens exibidas são uma versão colorida, em gesso, produzida no seminário, onde os correspondentes moldes até recentemente ainda eram conservados.
À tarde se rezavam as Vésperas diante de um candelabro em que havia 15 velas representando Jesus e seus discípulos. E se cantavam os salmos tristes do dia. Depois de cada Salmo se apagava uma vela, sucessivamente, à direita e à esquerda, até ficar só a do meio, representando Jesus, abandonado por todos.


À noite se fazia a Procissão do Encontro, de Jesus, morto no caixão, com sua Mãe dolorosa. Era o auge da Semana Santa com o povo desfilando suas velas pela rua escura. O corpo de Jesus, de braços articuláveis, durante as cerimônias da tarde estava pregado na cruz, de noite depositado no caixão. O Cristo da grande cruz missioneira usada nas Missões indígenas do Rio Grande do Sul, também tinha braços articuláveis antes da última restauração. 


              O tocheiro, com sua correspondente cruz ladeavam o corpo morto.


Era triste o canto gregoriano, com invocações em Latim, usado nessas cerimônias.

           Tradução: Eis o lenho da cruz da qual pendeu a salvação do mundo. Vinde adoremos.

          As vestes eram pretas, de luto fechado.

Texto: Dr. Pedro Ignácio Schmitz
Imagens: Márcio de Mattos Rodrigues

quarta-feira, 29 de março de 2017

Arqueologia: uma experiência de vida

            Me chamo Jefferson Nunes, tenho 24 anos, desde 2014 sou estudante do curso de Licenciatura Plena em História, pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), e desde o segundo semestre do mesmo ano, tive a oportunidade de entrar para a equipe do Instituto Anchietano de Pesquisa, como bolsista de iniciação científica, sob orientação do Dr. Pedro Ignácio Schmitz.
            Nesse período, tenho podido conhecer melhor o trabalho e a prática arqueológica, através de leitura de bibliografia do tema, estudo de material em laboratório, compilação e análise dos dados no computador, apresentação de trabalhos em eventos, atendimento a alunos de escolas, que vem visitar nossos espaços de memória sacra e indígena, e a escavação em Casas Subterrâneas, sempre no mês de Janeiro de cada ano.
           As escavações, particularmente, foram, para mim, experiências fundamentais no conhecimento da Arqueologia, pois me permitiram o contato direto com o material em seu local de abandono, e o conhecimento do ambiente em que foi constituída toda a forma de vida dos povos que estudamos através de sua cultura material.
            É através da escavação que tem se formado meu “ser arqueólogo”, a compreensão plena de tudo o que envolve a experiência arqueológica, e que vai muito além dos clichês e pré-conceitos do senso comum. Somente no campo tive a chance de ver que a Arqueologia não é só composta por trabalho em laboratório com vestígios materiais e a construção de hipóteses com base nos dados, mas também é composta pelo calor, pelas pancadas de chuva súbitas que nos obrigam a parar a escavação temporariamente, pelos mosquitos e mutucas que insistem em se aproximar mesmo com o uso de repelente, pelos eventuais animais peçonhentos que se aproximam do sítio, pela sujeira e cansaço no final da jornada diária (especialmente após uma chuva).

Desvendando o mundo através da escavação: eu no buraco.

               Também faz parte da experiência a convivência próxima e constante com os colegas (que pode gerar conflitos inevitáveis) e moradores da cidade, a alimentação e as horas de descanso, muitas vezes permeadas por debates e conversas com os colegas sobre temas variados, que permitem conhecer outras pontos de vista e ampliar conhecimentos; os debates sobre o avanço da escavação e os imprevistos que obrigam a mudança dos rumos originais do trabalho; os achados inesperados nos cortes, que animam e motivam o seguimento do esforço; o aprendizado com as moradores simpáticos que, através de um cafezinho (ou de um churrasquinho “louco de especial”) e de uma conversa simples e descontraída, nos permitem conhecer melhor a hospitalidade local.
            No contexto dos sítios, a escavação me possibilitou ver além do que os artefatos me disseram somente em laboratório. Ao ver o ambiente em que as Casas Subterrâneas foram construídas, mesmo que alterado ao longo do tempo de abandono, consegui entender melhor a forma como os índios dessa região se estabeleceram, e como deve ter sido sua relação com o ambiente durante a ocupação, já que as casas nunca estão muito longe de algum curso d’água ou banhado, nem de afloramentos de basalto.
Na escavação desse ano, especialmente, tivemos a chance de visitar um sítio composto por 3 aterros plataformas, que fora escavado pelo IAP há alguns anos, mas, à época, estava coberto por uma floresta de pinus. Nesse ano a floresta fora cortada, e pudemos ter uma visão completa do local. Enquanto andamos pelo campo e subimos nas estruturas, fiquei impressionado pelo esforço que deve ter envolvido a construção dos aterros, demonstrando o poder e força do povo que ali viveu, além da estabilidade necessária para deslocar pessoal suficiente para o trabalho.
O entorno mais plano, em cima de uma elevação de terreno, devia proporcionar uma visão bela e privilegiada das redondezas, e, com certeza, o local não foi escolhido por acaso. A falta de Casas Subterrâneas ou outras estruturas nos arredores dos aterros deixou claro para mim que esse era um local especial para os índios que ali viveram. Conforme andávamos pelo local, senti cada vez mais forte uma sensação de reverência pelo local, percebendo a força e a sacralidade que emanam dali, e o quão importe o local deve ter sido na época de sua ocupação.
Aquele não era só um lugar de trabalho com terra, mas um local de cremação e veneração aos antepassados da tribo, ponto de encontro para funerais, festas, rituais, enfim, um centro de atividade e convivência importante, como uma igreja para nós hoje. É uma marca na paisagem, mas, igualmente, uma prova indelével da vitalidade da cultura Jê que ali habitou.
Com experiências desse tipo, o trabalho de campo surge como mais que os olhos podem ver, e a Arqueologia não me aparece mais simplesmente como um campo de saber estanque e engessado no sentido acadêmico, mas ganha vida, corpo e vitalidade, agregando a comunidade ao arqueólogo, permitindo conhecer outras realidades e perspectivas, nos tornando seres humanos melhores, mais conscientes do esforço dos índios para construir sua cultura ante um mundo em permanente mudança, e mais aptos para reconstruir a história desses povos, que também é a nossa.
Por isso, acredito que Arqueologia é muito mais que uma experiência de estudo e trabalho, ela é, acima de tudo, uma experiência de vida, eminentemente humana.

Texto: Jefferson Nunes
Imagem: Vagner Perondi


sexta-feira, 17 de março de 2017

Escavando uma ‘casa subterrânea’ no planalto de Santa Catarina

A casa 5 do sítio arqueológico SC-CL50 aparecia como uma rasa calota de esfera de 10 x 9,5 m com 1,5 m de profundidade, numa plantação de pinus, sobre uma ondulação do terreno, que se inclina suavemente em todas as direções. Ela dista uns 50 m do sítio SC-CL-51 composto por 6 casas subterrâneas e outro tanto das outras 4 casas do sítio SC-CL-50. O interior e entorno imediato da casa estavam sem vegetação, além do pinus.
A casa foi inicialmente limpa da palha do pinus e foi instalado um canteiro de 3 x 2 m, que cobria o centro da casa e avançava sobre a parte baixa da parede.
Os sedimentos foram removidos sem mover os objetos, que foram numerados peça por peça, registrados em planilhas e fotografados. A cerâmica, o lítico e o carvão, assim identificados, foram guardados em sacos plásticos etiquetados. O perfil foi desenhado e fotografado. Concluído o trabalho, a casa foi recomposta deixando-a como a encontramos.
A intervenção esteve a cargo de Raul Novasco e Suliano Ferraço, com alguma colaboração de Ranieri Rathke e se estendeu de 03 a 27.01.2017.
A casa teve uma ocupação, pela primeira metade do século XVII, como as casas vizinhas e deixou para trás recipientes cerâmicos quebrados e alguns artefatos em pedra.  Na preparação da casa, os construtores deram rapidamente num bloco rochoso inamovível que eles aproveitaram juntando outros blocos para formar um raro piso de pedra no centro da casa.

As fotos mostram a sequência das ações dos arqueólogos:

Foto 1. A instalação do canteiro

Foto 2. Os fragmentos de uma panela abandonada por ocasião do abandono da casa
Foto 3. O material do final da ocupação: fragmentos cerâmicos, artefatos em pedra e dois blocos que serviriam de assento

Foto 4. Registrando o material
Foto 5. O início da ocupação com o círculo de pedra ao redor do bloco rochoso no centro da casa

Foto 6. A casa recomposta

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Escavações do IAP em janeiro 2017

Durante quatro semanas a equipe de arqueologia do IAP esteve em campo em São José do Cerrito, SC, território de casas subterrâneas, aterros-plataforma e ‘danceiros’.
Casas subterrâneas são habitações indígenas em que as paredes em vez de construídas para cima são escavadas para baixo, para dentro do chão, ficando só o telhado na superfície. No lugar em que trabalhamos há 50 casas medindo desde 20 m de diâmetro e 7 m de profundidade até 5 m de diâmetro e 2,5 m de profundidade.
Aterros-plataforma são monumentos de terra nos quais cremavam os mortos. No lugar do trabalho existe um de 30 m de diâmetro e 2,5 m de altura e três de 20 m de diâmetro e 1 m de altura. 
‘Danceiro’ é um conjunto de montículos cercados por um valo e este por uma taipa de terra, que também eram usados para cremação dos mortos.

As fotos mostram membros da equipe trabalhando em casas subterrâneas e documentando um aterro-plataforma.



1. Casa subterrânea 5 do sítio SC-CL-50 com Raul Novasco, Suliano Ferrasso e Ranieri Rathke.



2. Raul e Suliano documentando e recolhendo o material.

3. Casa subterrânea 5 do sítio SC-CL-51 no começo da escavação com Raul.

4. Marcus V. Beber inspecionando o corte na casa 5.

5. Vagner Perondi demostrando a profundidade da casa 5, de 7,60 m de diâmetro.

6. Uma casa geminada, a casa limpa 1, a casa 2 coberta de capim

7. Ranieri Rathke escavando a casa 1 da foto anterior que mede 5 m de diâmetro.

8. Márcio Rodrigues escavando fogão no pátio da casa 5.

9. P.I. Schmitz controlando a escavação.

10. Jairo H. Rogge em cima do aterro-plataforma 1 do sítio SC-CL-46, de 20 m de diâmetro e 1,20 m de altura.

Texto e fotos de Pedro Ignácio Schmitz.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Minha vivência como estagiário de patrimônio no Museu Capela Instituto Anchietano de Pesquisas/Unisinos

Texto: Eric Franz – graduando do curso de História da Unisinos


ESTUDANDO A COLEÇÃO DE MISSAIS COM O COLEGA FERNANDO ROQUE

Missais – Singularidades num padrão minucioso
Como outrora fora visto em postagens deste mesmo blog, o Instuto Anchietano de Pesquisa conta - no presente momento - com um acervo considerável de obras referentes à liturgia católica. Esta coleção tende a crescer ainda mais com a adição de “novos” exemplares que se incluem periodicamente.
De maneira oportuna, em função de demanda imposta pelo currículo da graduação em História, me foi possibilitado contribuir para com a organização e classificação dos exemplares que então chegavam ao IAP. Assim sendo, entre inúmeras estantes e livros diversos, acabei por entrar em contato com variados tipos de Missais com particularidades que não esperava encontrar.
Mesmo como leigo, é difícil não se deixar levar pela curiosidade e “perder” alguns minutos folheando as páginas tão ricamente ornamentadas destes livros, os quais embora possuam um texto - de uma maneira geral - muito semelhante (quando não, igual), sempre trazem notas que os distinguem uns dos outros. Tais particularidades tornam cada exemplar único e podem se dar em função da editora responsável por sua impressão, pelo período em que foi impresso (encontram-se no acervo exemplares desde meados do XIX até fins do XX) ou mesmo pelas anotações e adendos realizados pelos seus usuários ao longo dos anos. Cabe lembrar, que poucas eram as editoras reconhecidamente aptas para a tarefa, visto que o zelo e a retidão para com a liturgia eram necessários e muito valorizados pela Igreja.
É possível notar, por exemplo, a forma com que o mercado editorial responsável pelas impressões e veiculação dos exemplares estava atento às necessidades práticas de seu público consumidor. Isso se reflete na redução da fonte utilizada (ora maior, considerando a preservação da vista do leitor, que poderia estar fazendo uso de velas, por exemplo), na redução física dos volumes e mesmo na publicação particionada. Exemplo do último caso, são os livros específicos para a celebração da “Missa dos Mortos”, do latim “Missae pro Defunctis” ou “Missae Defunctorum”, que poderiam ser facilmente carregados para onde fossem necessários sem o transtorno que poderia ser gerado pelo peso de um Missal Romano tradicional.

*Veja também o texto do colega Fernando Roque.