quinta-feira, 6 de abril de 2017

A LITURGIA DA SEXTA-FEIRA SANTA

No Seminário de São Leopoldo, que formava padres para o Sul do Brasil, na primeira metade do século XX, os rituais da Semana Santa eram realizados com solenidade. Em nossa Memória Sacra conservamos alguns testemunhos materiais.

Na Sexta-Feira acompanhavam-se, com amostras de dor e arrependimento, as XIV estações da Via Sacra. 
As imagens exibidas são uma versão colorida, em gesso, produzida no seminário, onde os correspondentes moldes até recentemente ainda eram conservados.
À tarde se rezavam as Vésperas diante de um candelabro em que havia 15 velas representando Jesus e seus discípulos. E se cantavam os salmos tristes do dia. Depois de cada Salmo se apagava uma vela, sucessivamente, à direita e à esquerda, até ficar só a do meio, representando Jesus, abandonado por todos.


À noite se fazia a Procissão do Encontro, de Jesus, morto no caixão, com sua Mãe dolorosa. Era o auge da Semana Santa com o povo desfilando suas velas pela rua escura. O corpo de Jesus, de braços articuláveis, durante as cerimônias da tarde estava pregado na cruz, de noite depositado no caixão. O Cristo da grande cruz missioneira usada nas Missões indígenas do Rio Grande do Sul, também tinha braços articuláveis antes da última restauração. 


              O tocheiro, com sua correspondente cruz ladeavam o corpo morto.


Era triste o canto gregoriano, com invocações em Latim, usado nessas cerimônias.

           Tradução: Eis o lenho da cruz da qual pendeu a salvação do mundo. Vinde adoremos.

          As vestes eram pretas, de luto fechado.

Texto: Dr. Pedro Ignácio Schmitz
Imagens: Márcio de Mattos Rodrigues

quarta-feira, 29 de março de 2017

Arqueologia: uma experiência de vida

            Me chamo Jefferson Nunes, tenho 24 anos, desde 2014 sou estudante do curso de Licenciatura Plena em História, pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), e desde o segundo semestre do mesmo ano, tive a oportunidade de entrar para a equipe do Instituto Anchietano de Pesquisa, como bolsista de iniciação científica, sob orientação do Dr. Pedro Ignácio Schmitz.
            Nesse período, tenho podido conhecer melhor o trabalho e a prática arqueológica, através de leitura de bibliografia do tema, estudo de material em laboratório, compilação e análise dos dados no computador, apresentação de trabalhos em eventos, atendimento a alunos de escolas, que vem visitar nossos espaços de memória sacra e indígena, e a escavação em Casas Subterrâneas, sempre no mês de Janeiro de cada ano.
           As escavações, particularmente, foram, para mim, experiências fundamentais no conhecimento da Arqueologia, pois me permitiram o contato direto com o material em seu local de abandono, e o conhecimento do ambiente em que foi constituída toda a forma de vida dos povos que estudamos através de sua cultura material.
            É através da escavação que tem se formado meu “ser arqueólogo”, a compreensão plena de tudo o que envolve a experiência arqueológica, e que vai muito além dos clichês e pré-conceitos do senso comum. Somente no campo tive a chance de ver que a Arqueologia não é só composta por trabalho em laboratório com vestígios materiais e a construção de hipóteses com base nos dados, mas também é composta pelo calor, pelas pancadas de chuva súbitas que nos obrigam a parar a escavação temporariamente, pelos mosquitos e mutucas que insistem em se aproximar mesmo com o uso de repelente, pelos eventuais animais peçonhentos que se aproximam do sítio, pela sujeira e cansaço no final da jornada diária (especialmente após uma chuva).

Desvendando o mundo através da escavação: eu no buraco.

               Também faz parte da experiência a convivência próxima e constante com os colegas (que pode gerar conflitos inevitáveis) e moradores da cidade, a alimentação e as horas de descanso, muitas vezes permeadas por debates e conversas com os colegas sobre temas variados, que permitem conhecer outras pontos de vista e ampliar conhecimentos; os debates sobre o avanço da escavação e os imprevistos que obrigam a mudança dos rumos originais do trabalho; os achados inesperados nos cortes, que animam e motivam o seguimento do esforço; o aprendizado com as moradores simpáticos que, através de um cafezinho (ou de um churrasquinho “louco de especial”) e de uma conversa simples e descontraída, nos permitem conhecer melhor a hospitalidade local.
            No contexto dos sítios, a escavação me possibilitou ver além do que os artefatos me disseram somente em laboratório. Ao ver o ambiente em que as Casas Subterrâneas foram construídas, mesmo que alterado ao longo do tempo de abandono, consegui entender melhor a forma como os índios dessa região se estabeleceram, e como deve ter sido sua relação com o ambiente durante a ocupação, já que as casas nunca estão muito longe de algum curso d’água ou banhado, nem de afloramentos de basalto.
Na escavação desse ano, especialmente, tivemos a chance de visitar um sítio composto por 3 aterros plataformas, que fora escavado pelo IAP há alguns anos, mas, à época, estava coberto por uma floresta de pinus. Nesse ano a floresta fora cortada, e pudemos ter uma visão completa do local. Enquanto andamos pelo campo e subimos nas estruturas, fiquei impressionado pelo esforço que deve ter envolvido a construção dos aterros, demonstrando o poder e força do povo que ali viveu, além da estabilidade necessária para deslocar pessoal suficiente para o trabalho.
O entorno mais plano, em cima de uma elevação de terreno, devia proporcionar uma visão bela e privilegiada das redondezas, e, com certeza, o local não foi escolhido por acaso. A falta de Casas Subterrâneas ou outras estruturas nos arredores dos aterros deixou claro para mim que esse era um local especial para os índios que ali viveram. Conforme andávamos pelo local, senti cada vez mais forte uma sensação de reverência pelo local, percebendo a força e a sacralidade que emanam dali, e o quão importe o local deve ter sido na época de sua ocupação.
Aquele não era só um lugar de trabalho com terra, mas um local de cremação e veneração aos antepassados da tribo, ponto de encontro para funerais, festas, rituais, enfim, um centro de atividade e convivência importante, como uma igreja para nós hoje. É uma marca na paisagem, mas, igualmente, uma prova indelével da vitalidade da cultura Jê que ali habitou.
Com experiências desse tipo, o trabalho de campo surge como mais que os olhos podem ver, e a Arqueologia não me aparece mais simplesmente como um campo de saber estanque e engessado no sentido acadêmico, mas ganha vida, corpo e vitalidade, agregando a comunidade ao arqueólogo, permitindo conhecer outras realidades e perspectivas, nos tornando seres humanos melhores, mais conscientes do esforço dos índios para construir sua cultura ante um mundo em permanente mudança, e mais aptos para reconstruir a história desses povos, que também é a nossa.
Por isso, acredito que Arqueologia é muito mais que uma experiência de estudo e trabalho, ela é, acima de tudo, uma experiência de vida, eminentemente humana.

Texto: Jefferson Nunes
Imagem: Vagner Perondi


sexta-feira, 17 de março de 2017

Escavando uma ‘casa subterrânea’ no planalto de Santa Catarina

A casa 5 do sítio arqueológico SC-CL50 aparecia como uma rasa calota de esfera de 10 x 9,5 m com 1,5 m de profundidade, numa plantação de pinus, sobre uma ondulação do terreno, que se inclina suavemente em todas as direções. Ela dista uns 50 m do sítio SC-CL-51 composto por 6 casas subterrâneas e outro tanto das outras 4 casas do sítio SC-CL-50. O interior e entorno imediato da casa estavam sem vegetação, além do pinus.
A casa foi inicialmente limpa da palha do pinus e foi instalado um canteiro de 3 x 2 m, que cobria o centro da casa e avançava sobre a parte baixa da parede.
Os sedimentos foram removidos sem mover os objetos, que foram numerados peça por peça, registrados em planilhas e fotografados. A cerâmica, o lítico e o carvão, assim identificados, foram guardados em sacos plásticos etiquetados. O perfil foi desenhado e fotografado. Concluído o trabalho, a casa foi recomposta deixando-a como a encontramos.
A intervenção esteve a cargo de Raul Novasco e Suliano Ferraço, com alguma colaboração de Ranieri Rathke e se estendeu de 03 a 27.01.2017.
A casa teve uma ocupação, pela primeira metade do século XVII, como as casas vizinhas e deixou para trás recipientes cerâmicos quebrados e alguns artefatos em pedra.  Na preparação da casa, os construtores deram rapidamente num bloco rochoso inamovível que eles aproveitaram juntando outros blocos para formar um raro piso de pedra no centro da casa.

As fotos mostram a sequência das ações dos arqueólogos:

Foto 1. A instalação do canteiro

Foto 2. Os fragmentos de uma panela abandonada por ocasião do abandono da casa
Foto 3. O material do final da ocupação: fragmentos cerâmicos, artefatos em pedra e dois blocos que serviriam de assento

Foto 4. Registrando o material
Foto 5. O início da ocupação com o círculo de pedra ao redor do bloco rochoso no centro da casa

Foto 6. A casa recomposta

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Escavações do IAP em janeiro 2017

Durante quatro semanas a equipe de arqueologia do IAP esteve em campo em São José do Cerrito, SC, território de casas subterrâneas, aterros-plataforma e ‘danceiros’.
Casas subterrâneas são habitações indígenas em que as paredes em vez de construídas para cima são escavadas para baixo, para dentro do chão, ficando só o telhado na superfície. No lugar em que trabalhamos há 50 casas medindo desde 20 m de diâmetro e 7 m de profundidade até 5 m de diâmetro e 2,5 m de profundidade.
Aterros-plataforma são monumentos de terra nos quais cremavam os mortos. No lugar do trabalho existe um de 30 m de diâmetro e 2,5 m de altura e três de 20 m de diâmetro e 1 m de altura. 
‘Danceiro’ é um conjunto de montículos cercados por um valo e este por uma taipa de terra, que também eram usados para cremação dos mortos.

As fotos mostram membros da equipe trabalhando em casas subterrâneas e documentando um aterro-plataforma.



1. Casa subterrânea 5 do sítio SC-CL-50 com Raul Novasco, Suliano Ferrasso e Ranieri Rathke.



2. Raul e Suliano documentando e recolhendo o material.

3. Casa subterrânea 5 do sítio SC-CL-51 no começo da escavação com Raul.

4. Marcus V. Beber inspecionando o corte na casa 5.

5. Vagner Perondi demostrando a profundidade da casa 5, de 7,60 m de diâmetro.

6. Uma casa geminada, a casa limpa 1, a casa 2 coberta de capim

7. Ranieri Rathke escavando a casa 1 da foto anterior que mede 5 m de diâmetro.

8. Márcio Rodrigues escavando fogão no pátio da casa 5.

9. P.I. Schmitz controlando a escavação.

10. Jairo H. Rogge em cima do aterro-plataforma 1 do sítio SC-CL-46, de 20 m de diâmetro e 1,20 m de altura.

Texto e fotos de Pedro Ignácio Schmitz.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Minha vivência como estagiário de patrimônio no Museu Capela Instituto Anchietano de Pesquisas/Unisinos

Texto: Eric Franz – graduando do curso de História da Unisinos


ESTUDANDO A COLEÇÃO DE MISSAIS COM O COLEGA FERNANDO ROQUE

Missais – Singularidades num padrão minucioso
Como outrora fora visto em postagens deste mesmo blog, o Instuto Anchietano de Pesquisa conta - no presente momento - com um acervo considerável de obras referentes à liturgia católica. Esta coleção tende a crescer ainda mais com a adição de “novos” exemplares que se incluem periodicamente.
De maneira oportuna, em função de demanda imposta pelo currículo da graduação em História, me foi possibilitado contribuir para com a organização e classificação dos exemplares que então chegavam ao IAP. Assim sendo, entre inúmeras estantes e livros diversos, acabei por entrar em contato com variados tipos de Missais com particularidades que não esperava encontrar.
Mesmo como leigo, é difícil não se deixar levar pela curiosidade e “perder” alguns minutos folheando as páginas tão ricamente ornamentadas destes livros, os quais embora possuam um texto - de uma maneira geral - muito semelhante (quando não, igual), sempre trazem notas que os distinguem uns dos outros. Tais particularidades tornam cada exemplar único e podem se dar em função da editora responsável por sua impressão, pelo período em que foi impresso (encontram-se no acervo exemplares desde meados do XIX até fins do XX) ou mesmo pelas anotações e adendos realizados pelos seus usuários ao longo dos anos. Cabe lembrar, que poucas eram as editoras reconhecidamente aptas para a tarefa, visto que o zelo e a retidão para com a liturgia eram necessários e muito valorizados pela Igreja.
É possível notar, por exemplo, a forma com que o mercado editorial responsável pelas impressões e veiculação dos exemplares estava atento às necessidades práticas de seu público consumidor. Isso se reflete na redução da fonte utilizada (ora maior, considerando a preservação da vista do leitor, que poderia estar fazendo uso de velas, por exemplo), na redução física dos volumes e mesmo na publicação particionada. Exemplo do último caso, são os livros específicos para a celebração da “Missa dos Mortos”, do latim “Missae pro Defunctis” ou “Missae Defunctorum”, que poderiam ser facilmente carregados para onde fossem necessários sem o transtorno que poderia ser gerado pelo peso de um Missal Romano tradicional.

*Veja também o texto do colega Fernando Roque.

Minha vivência como estagiário de patrimônio no Museu Capela Instituto Anchietano de Pesquisas/Unisinos

Texto e fotos: Fernando Roque – graduando do curso de História da Unisinos

ESTUDANDO A COLEÇÃO DE MISSAIS COM O COLEGA ERIC FRANZ

O que é um Missal Romano?
Os Missais Romanos são livros que orientam – determinam - o calendário gregoriano cristão e católico constituindo-se em diferentes instruções - regras - de celebrações e solenidades, tanto para os presbíteros quanto para os fiéis. O acervo que se encontra atualmente no Instituto Anchietano de Pesquisa (IAP) está composto por 303 exemplares e há diferentes apresentações das obras que oscilam desde os opulentos Missale Romanum, produzidos pela editora germânica Pustet, a partir do ano de 1840, ou seja, antes do Concílio Vaticano I (1870), aos produzidos pela Editora Vozes, Petrópolis, RJ, a partir do Concílio Vaticano II (1960), que passa a permitir as edições em Português.
Missale Romanum, capa em couro auto-relevo, bordas das folhas em ouro, impresso na cidade de Ratibosnae, atual Alemanha, pela editora Friedrich Pustet, no ano de 1890.

Missale Romanum. Encardenação em couro, travas laterais em metal, bordas das folhas em ouro, impresso em Barcinone – Barcelona, editora: Litúrgica Española, 1922.



Missal Romano, versão simples, capa em papel, impresso pela Editora vozes, RJ, no ano de 1972.

*Veja complementação no texto do colega Eric Franz


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Minha vivência como estagiário de patrimônio no Museu Capela Instituto Anchietano de Pesquisas/Unisinos

Texto: Geraldo de Carvalho Santos – graduando do curso de História da Unisinos

SÃO MIGUEL ARCANJO MISSIONEIRO
Durante duas semanas do mês de novembro de 2016, me vi na contigência de realizar uma pesquisa histórica no Instituto Anchietano de Pesquisas cujo tema se desenrolaria a partir de três imagens de São Miguel Arcanjo que depois de transitarem por ignotos caminhos foram adicionados ao precioso acervo do Museu Capela do Instituto Anchietano de Pesquisas/Unisinos, em São Leopoldo.
Meu primeiro contato com aquelas estátuas foi frio e, aparentemente sem sentido. Sabia, porém, que aquelas imagens, que atravessaram três séculos, percorrendo caminhos imprecisos, traziam em si uma história de significados e representações. Eram símbolos que ainda hoje carregam, na dureza de sua madeira, a materialização da vontade humana, da inteligência humana e, sobretudo, da resistência às iniquidades dos homens e da maldade de seus espíritos (veja as imagens da postagem anterior, em 11/10/2016, que fala de São Miguel).
A lança na mão direita do Arcanjo, fincando de morte o dragão de maldades, enquanto seu corpo era esmagado pelos sagrados pés de São Miguel e, a balança na mão esquerda – símbolo de sensatez, equilíbrio e justiça – atestam, com muita retidão, o significado das lutas dos Guarani e Jesuítas contra a desarrazoada determinação dos homens maus, sequiosos por submeter a sua vontade, um povo que poderia ter sido muito feliz.
O transcurso da pesquisa me levou à outras questões que, embora sejam históricas, parecem pertinentes a uma distinta ordem de considerações que, de toda a sorte, ainda assim, enriquecem o significado daquelas imagens. Estou me referindo em particular ao Movimento Barroco, com sua estética bruta, com a incontida manifestação do espírito criador a se afirmar, na imprecisão das suas formas, dos seus volumes e das suas cores, como algo vivo e pulsante, como testemunho de vida de umas gentes de um determinado tempo, mas sobretudo como um alentado exemplo para os dias de hoje.
Não tenho como avaliar se o resultado da minha pesquisa foi positivo ou não, mas, fica muito viva a sensação de ter feito um trabalho, que por força de causas contrárias à minha vontade e a minha capacidade, se mostra incompleto e, por isso mesmo, é possível que a sua importância tenha ficado aquém da minha vontade.
Não posso deixar de agradecer ao padre professor Dr. Pedro Ignácio Schmitz e a sua equipe do Instituto Anchietano de Pesquisas, pela colaboração e pela paciência que tiveram comigo durante a confecção do meu trabalho.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Minha vivência como estagiário de patrimônio no Museu Capela

Instituto Anchietano de Pesquisas/Unisinos

Texto: Michel Leite – graduando do curso de História da Unisinos

PADRE INÁCIO DE LOYOLA

Patrimônio cultural é o conjunto de bens materiais e/ou imateriais, que contam a história de um povo através de seus costumes, comidas típicas, religiões, lendas, cantos, danças, linguagem superstições, rituais, festas, imagens e esculturas. Através do patrimônio cultural é possível conscientizar os indivíduos, proporcionando aos mesmos a aquisição de conhecimentos e sentimentos para a compreensão da história local.

Neste trabalho conheceremos mais sobre a estátua do padre Inácio de Loyola, que se encontra no Instituto Anchietano de Pesquisas, na Universidade do Vale do Rio dos Sinos, e é sinônimo de um exímio patrimônio cultural.

Padre Inácio, de nome Íñigo López, nascido em 31 de maio de 1491 em Loyola atual munícipio de Azpeitia, fazia parte de um grupo de espanhóis de muita autonomia e de identidade forte chamados de bascos. Inácio era o mais jovem entre seus treze irmãos, de uma família nobre. Viveu longas jornadas como militar por muitas vezes prejudicando sua saúde em combates, motivo que o levou aos 26 anos a dedicar-se a espiritualidade, na missão de descobrir como ser santo, como se tornar um santo, deste modo foi notória para Inácio a necessidade de estudar, abandando a carreira militar se mudou para estudar na universidade de Alcalá na Espanha, mas não estando satisfeito com o conhecimento ali adquirido, migrou para Paris onde inicia juntamente com mestres em letras e outros nobres a ordem da Companhia de Jesus, conhecidos como Jesuítas. Inácio era o líder, seu desejo e projeto de evangelização se inicia com sete pessoas, entre elas Francisco Xavier que mais tarde ficaria conhecido por suas missões no Oriente.

Aprovados pelo Papa Paulo III em 1540, o Padre Inácio é solicitado a enviar missionários para América, a exemplo do Brasil, onde exerceram um importante papel no inicio do processo de conversão dos indígenas durante a época colonial. Os Jesuítas se caracterizam na divisão por classes, constituindo os Legítimos (Profécios), os sacerdotes (colaboradores espirituais) e os irmãos (administradores das casas sem muita formação). Eles contribuíram com ensino nas regiões por onde passavam, auxiliando diretamente na fundação de varias cidades e construindo colégios em diversos pontos dos territórios de missões, integrando uma rede Jesuíta de educação. Após a difusão dos Jesuítas o Padre Inácio migra para Roma dando continuidade à administração da ordem coordenando e organizando de maneira geral todas as regras.

Nas missões a arte estava a serviço da catequese e do enaltecimento, não apenas dos santos da igreja, mas também dos fundadores da ordem jesuíta. Caracterizado por uma forma de execução coletiva, fato que pode ser observado na construção das esculturas, por encaixes de partes modeladas separadamente, em grande parte importavam peças da Europa para conclusão de algumas obras, de modo que pudesse servir de exemplo para os artistas indígenas. Fabricavam esculturas sacras geralmente de madeira policromada, esses serviços eram realizados junto ao colégio onde ficavam as oficinas, neste local eram trabalhados a madeira, os metais, o barro, o couro, o algodão e os pigmentos.

A construção da estátua do Padre Inácio de Loyola tem como fiel escultura o seu rosto, feito a partir de sua máscara mortuária, com detalhes para suas roupas de trabalho e fisionomia autêntica que retrata a sua figura como um herói fundador, homem de muito trabalho, dedicado à obra de Deus e a organizações sociais, objeto de culto e reverência. Esta estátua é sem dúvidas uma exemplificação de definição de patrimônio cultural, para qualquer pessoa que possa ter a oportunidade de conhecer sua história, estudar e entender sua importância para os Jesuítas, para as universidades e escolas organizadas e formadas pela ordem em muitos locais no Brasil.

Compreendendo a dedicação deste homem de revelar sua paixão por Cristo e pelo reino de Deus através da evangelização, é claramente manifesto que o Padre Inácio construiu um legado com suas obras que colaboraram para o desenvolvimento de diferentes povos, cidades e nações, e que a partir deste movimento passaram a ter acesso a novos conhecimentos e a novas perspectivas de vida. A importância da fundação Jesuíta e a sua iniciativa na história missioneira é motivo de respeito e admiração em todo mundo.



Estátua do Padre Inácio de Loyola no Museu Capela. Foto: do autor

Referências                                      
MALAGOLI, Ado. Museu de Arte do Rio Grande do SulMARGS. 2000
BRUXEL, Arnaldo. Os Trinta Povos Guaranis – Panorama Histórico institucional. 1978
http://coral.ufsm.br/ppgppc/ - Acesso em 20.11.2016

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

NOITE FELIZ, É NATAL, NASCEU JESUS

Iluminura da missa de Natal de Missal Romano de 1923, do Museu Capela.


Stille Nacht, heilige Nacht,
alles schläft, einsam wacht
nur das traute, hochheilige Paar.
Holder Knabe im lockigen Haar,
schlaf' in Himmlischer Ruh',

schlaf' in himmlischer Ruh'!


A poesia, que em sua versão original acima, ou no vernáculo brasileiro do ‘Noite Feliz’ embalou o Natal de muitas gerações de nossos antepassados e também a infância de muitos de nós. 


Pastor de um presépio missioneiro, exposto em nosso Museu Capela

O presépio foi criação de São Francisco de Assis, em 1223, para tornar visível a história do nascimento de Jesus num abrigo de campo onde pastores alimentavam seus animais. Na solidão da noite com a presença dos pais, dos pastores e dos mensageiros divinos nasceu-nos um Salvador. Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos Homens de Boa Vontade. 


FELIZ NATAL. 2017 COM SAÚDE, EMPREGO E AMOR.

Texto Pedro Ignácio Schmitz
Imagens acervo IAP



quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A IMACULADA NO MUSEU CAPELA

A denominação: O título de Imaculada Conceição para Maria corresponde à declaração da Igreja Católica de que ela, em previsão de se tornar a mãe de Jesus, Filho de Deus, desde a sua conceição esteve livre de pecado, inclusive do pecado original no qual nascem todos os humanos.
A veneração: Dia 8 de dezembro é a festa de Maria sob a denominação de Imaculada Conceição, de Imaculada, ou simplesmente de Conceição. Ela é titular de muitas igrejas e santuários, inclusive do Santuário de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Inúmeras mulheres levam o nome de Maria da Conceição ou simplesmente Conceição.
A forma de representação: Sob esta denominação Maria costuma ser apresentada vestida com uma túnica branca, um cinto e um manto azul, em atitude de oração com as mãos juntos ou os braços abertos. Ela está parada no globo sobre o qual está uma serpente, ou um dragão com uma maçã na boca, cuja cabeça ela esmaga; ela usa uma coroa de doze estrelas. Em algumas representações ela ainda tem uma grande lua (nova) sob os pés.
A simbologia: A serpente com a maçã lembra a transgressão de Eva no Paraíso, início de todo pecado. Maria esmaga a cabeça da serpente indicando que está livre do pecado original. O dragão, a lua e a coroa de doze estrelas são de João no Apocalipse (cap. 12) descrevendo o dragão vermelho (demônio) querendo devorar o menino Jesus que Maria estava para dar à luz. O Menino foi levado para junto de Deus e Maria encontrou um lugar seguro. O dragão vermelho, com seus anjos, foi expulso para a terra. ‘Apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida de sol, com a lua debaixo de seus pés e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça...’




Estátuas do Museu Capela:
1. Escultura de madeira, em estilo barroco, recolhida nos Sete Povos das Missões por padres jesuítas historiadores no começo do século XX, guardada por décadas no Seminário de São Leopoldo.
2. Estátua de gesso de capela do Seminário de São Leopoldo trazida da Europa ou comprada em Porto Alegre, onde havia grande fábrica de objetos litúrgicos.
Casulas do Museu Capela:
1. Preciosa Casula do Seminário de São Leopoldo, com bordados a fio de ouro (use zoom para ver a perfeição nos detalhes), certamente trazida da Europa pelos padres jesuítas alemães e usada nas grandes festas religiosas. A Imaculada Conceição era a padroeira do Seminário.
2. Casula mais simples do Seminário de São Leopoldo, com a mesma invocação. As Irmãs Franciscanas do Colégio São José, em São Leopoldo, produziram vestes litúrgicas semelhantes a esta durante décadas.

Texto - Pedro Ignácio Schmitz
Fotografias Casulas - Juarez de Andrade/ Curso de Fotografia UNISINOS
Fotografias Maria Imaculada - Acervo IAP