segunda-feira, 15 de julho de 2019

PLANTAS MEDICINAIS E COMESTÍVEIS ESPONTÂNEAS


UNIVERSIDADE DO VALE DO RIO DOS SINOS – UNISINOS
INSTITUTO ANCHIETANO DE PESQUISAS

PLANTAS MEDICINAIS E COMESTÍVEIS ESPONTÂNEAS

O Projeto Plantas Medicinais da Unisinos, iniciado no ano de 1992 pelo Prof. Pe. Clemente José Steffen SJ, tinha, entre outros objetivos, resgatar e divulgar a utilização das plantas espontâneas medicinais e comestíveis. Tal objetivo decorreu da percepção de que diante da crescente industrialização e comercialização de alimentos processados na segunda metade do século XX, a utilização de alimentos in natura de espécies cultivadas e espontâneas decresceu. Algumas espécies que cresciam junto a plantas cultivadas foram denominadas “daninhas” ou “invasoras” e, por isso, precisavam, no entendimento de alguns, ser erradicadas com a utilização de agrotóxicos.

Os movimentos iniciados da década de 1970 por ecologistas, entre eles Pe. Clemente, tinham, entre outras pautas, a discussão sobre as monoculturas, a utilização arbitrária de agrotóxicos, a preservação de espécies vegetais e animais afetadas indiscriminadamente pelo uso de agrotóxicos nas lavouras e a saúde humana. A crescente conscientização de parte da população e de acadêmicos gerou movimentos e pesquisas no sentido de minimizar as perdas ambientais já tão acentuadas na época e as doenças decorrentes.

Nas décadas de 1980 e 1990 era perceptível que o conhecimento sobre a utilização tradicional das espécies medicinais e comestíveis decaia. Neste sentido, Pe. Clemente escreveu vários textos que resgatam o conhecimento popular tradicional e estimulam o consumo de espécies espontâneas, alimentos que agregam nutrientes importantes na dieta alimentar e com grande disponibilidade.

Hoje é crescente a busca pela alimentação equilibrada, com menor consumo de alimentos processados, de menor custo e melhor qualidade, com menor desperdício na cadeia produtiva, proveniente de práticas agroecológicas e acessível a todos.

Resgatando o acervo do trabalho desenvolvido pelo Pe. Clemente, encontramos a coletânea de textos e fotos sobre “PLANTAS MEDICINAIS E COMESTÍVEIS ESPONTÂNEAS” onde informações valiosas resgatam os saberes populares e a importância das plantas espontâneas. Textos muito pertinentes às discussões atuais.

Os textos e fotos que seguem foram digitalizados por Gabriel Azevedo de Oliveira.

            Texto: Denise Schnorr
















quarta-feira, 3 de julho de 2019

Construindo a História do Guarani no Vale do Sinos - TCC em História na Unisinos

Em Junho deste ano de 2019 eu, Jefferson Aldemir Nunes, concluí meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) como requisito para receber o grau de Licenciado em História pela Unisinos. Essa monografia foi o resultado de 4 anos de trabalho como bolsista de Iniciação Científica no IAP, e buscou aprofundar todos os pontos do projeto que foi desenvolvido nesse período.

O estudo foi baseado na junção de duas fontes específicas. Primeiro, os materiais líticos e cerâmicos de 7 sítios Guarani que foram encontrados na região de Santo Antônio da Patrulha (hoje Caraá) em 1967, por Eurico Miller. Segundo, textos de missionários jesuítas que estabeleceram contato com os Carijó (considerados pela literatura arqueológica como pertencente ao grupo Guarani) no início do século XVII (1605-1635), dos quais se destacam Jerônimo Rodrigues e Inácio de Sequeira.

Para trabalhar com essas duas perspectivas diferentes, separei o TCC em três capítulos: um para explorar as fontes arqueológicas, um para as fontes jesuíticas, e um para juntar os dados e montar um modelo de ocupação do Guarani no Alto Vale do Rio dos Sinos, que percebesse o impacto causado pela chegada dos europeus.

Figura 1 – Vale do Rio dos Sinos com a localização dos sítios estudados no TCC. Adaptado de: DIAS, 2015.

Na parte arqueológica (onde utilizei o Histórico-Culturalismo de Betty Meggers para a análise), além de realizar uma descrição dos muitos recursos de flora e fauna disponíveis na Bacia, foi possível perceber a filiação da cerâmica e do lítico desses sítios com toda a cultura material do Guarani no Sul do Brasil descrita por outros trabalhos. Além disso, a presença de alguns fragmentos de cerâmica da tradição Taquara nos sítios, indicou contatos com essa outra população.

Figura 2 – Perfil das bordas cerâmicas do Sítio RS-S-289.


Na parte documental (onde utilizei elementos da Etno-História, Análise de Conteúdo e analogia direta), a descrição de fontes jesuíticas foi importante em vários aspectos. Em primeiro lugar, tive a real dimensão do aprofundamento dos missionários jesuítas no Sul do Brasil, alcançando até o Vale do Rio Caí, no Rio Grande do Sul. Isso aponta para um impacto considerável sobre os povos indígenas da região, que, por sua movimentação constante, estariam sujeitos às doenças e outros problemas decorrentes de contatos tão bruscos.
         

Figura 3 – Expansão missionária jesuítica no século XVII.

Em segundo lugar, as referências encontradas nesses textos sobre as formas de construção das casas, forma de plantar e consumir alimentos, das chefias, das pragas e da queda demográfica entre os Carijó, me permitiu realizar inferências para cobrir as muitas lacunas que são tradicionalmente encontradas no registro arqueológico.

Com tudo isso, consegui entender mais claramente como o Guarani se estabeleceu no Sinos, e como a chegada dos europeus (representados, em muitos momentos, pelos padres jesuítas), afetou toda a sua cultura. Dessa forma, houve o avanço dos indígenas para áreas cada vez menos favoráveis a seu modo de vida tradicional, e a desestruturação de seu padrão de assentamento.

A conclusão do TCC ampliou minha percepção sobre como a junção de fontes distintas permite aprofundar o conhecimento sobre os grupos nativos, e entender melhor seu relacionamento com os europeus no início dos contatos que foram tão importantes para a formação da nação brasileira. Criar pontes entre os diferentes saberes científicos é uma necessidade, e um caminho frutífero para construir um saber cada vez mais significativo.

Texto e Imagens: Jefferson Aldemir Nunes

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Uma Segunda Colonização jesuítica Ultramontana no Sul do Brasil entre os sécs. XIX e XX

O trabalho

Este trabalho, que foi apresentado no evento “Pesquisa + Unisinos”, está inserido no projeto “Memória Sacra na Missão e Província Jesuítica do Sul do Brasil”. O referido, tem por objetivo fazer uma nova análise da ação dos jesuítas espanhóis e alemães na Província de São Pedro do Sul dos séculos XIX e XX, problematizando as informações encontradas na literatura clássica e analisando o material do acervo de Memória Sacra, disponível no IAP (Instituto Anchietano de Pesquisas). Queremos compreender a relação entre o catolicismo ultramontano dos Jesuítas Espanhóis e Alemães com o catolicismo popular encontrado na Província de São Pedro do Sul entre os séculos XIX e XX.  

Utilizaremos para este trabalho a revisão bibliográfica em livros clássicos, bibliografias recentes (Ex.: História das Casas do Pe. Inácio Spohr) e, além disso, consultaremos alguns documentos encontrados recentemente no Instituto Anchietano de Pesquisas, que estão compondo o acervo Pe. Jaeger (ainda em construção).

Através destes documentos e dos materiais sacros-litúrgicos presentes no acervo de Memória Sacra, far-se-á uma reflexão e problematização sobre as relações entre o catolicismo jesuítico e o catolicismo popular gaúcho entre os sécs. XIX e XX. 

Uma segunda colonização

Teremos aqui, como ideia, uma segunda colonização jesuítica (tendo em vista que a primeira seria a colonização católica jesuítica missioneira, findada com a perseguição pombalina), no sentido de organização religiosa, cultural e de formação intelectual-social.
Quando os primeiros jesuítas chegam a Província deparam-se com diferentes realidades, dentre elas:
  • Ignorância religiosa por “abandono” do clero secular.
  • Formação de uma religião popular com a criação das confrarias e ordens terceiras populares, não seguindo o regimento católico romano.
  • Falta de letramento e intelectualidade por parte dos colonos, tendo em vista que estes não tinham grandes colégios ao seu dispor.
  • Falta de casas de formação para clérigos, no Sul do Brasil. 

Deparando-se com esta realidade inicia-se um processo de reerguimento da sociedade, seja religiosa ou civil, através de uma segunda colonização, com valores e regras oriundos da Europa católica e do ultramontanismo jesuítico.
§  Criam-se os seminários
§  Se reestabelecem valores católicos, vivendo a normativa romana.
§  Retoma-se a vida sacramental.
§  Excluem-se com os eventuais “pseudos-sacerdotes” nas colônias alemãs.
§  Iniciam-se as escolas paroquiais.
§  Exige-se o letramento para recepção dos sacramentos. 


Uma colonização “ultramontana”



O ultramontanismo, no século XIX, se caracterizou por uma série de atitudes da Igreja Católica, num movimento de reação a algumas correntes teológicas e eclesiásticas, ao regalismo dos estados católicos, às novas tendências políticas desenvolvidas após a Revolução Francesa e à secularização da sociedade moderna. (SANTIROCCHI, 2010, p. 1)


Entenderemos como uma ação jesuítica ultramontana, o processo de romanização do catolicismo popular presente no estado entre os sécs. XIX e XX.

A realidade católica no Rio Grande do Sul, como demonstrada na carta do Presidente Provincial datada de 1º de fevereiro de 1841, em relação ao colégio de clérigos seculares, não era nada bela. A inconstância moral e a preocupação com poderes e riquezas predominavam na mente dos “parochos” da época. Motivo talvez importante para um fortalecimento do catolicismo popular na província. Como nos mostra os trechos da carta, disponíveis a seguir:

Para leitura, clique na imagem.
Neste primeiro trecho o presidente provincial nos remota a situação religiosa do estado, colocando que a religião cristã “parece estar inteiramente amortecida”. A seguir, apresenta o motivo deste amortecimento religioso que, segundo ele, tem causado tantos males ao estado.

Para leitura, clique na Imagem.
Segundo tal documento a crise religiosas se dá pela má preparação dos curas, ou seja dos sacerdotes, pelo seu interesse em poder e pelo abandono das causas de fé, deixando o povo órfão da Igreja, entrando em um “caos de todas as corrupções de costumes” e continua, “conservando a penas algumas práticas do cristianismo como vestígio de sua antiga crença”. Tais práticas nada mais são que o catolicismo popular fomentado no meio dos leigos na época. Na perspectiva alemã, os pseudos-sacerdotes (“Laiengottesdienst”) e na perspectiva portuguesa açoriana, as confrarias, irmandades e ordens terceiras. Com o fortalecimento destas realidades de religiosidade popular, o catolicismo românico, com suas regras de conduta, dogmas, liturgias, sacramentos, vai se perdendo no meio do povo, dando espaço a estas vivências populares da fé.

Resume bem isso, Tavares, quando diz:

Se por um lado, era precário o estado eclesiástico, devido a inexpressiva presença de párocos, no Rio Grande do Sul, especialmente em Porto Alegre, em função das distâncias, principalmente da sede do Bispado, que até meados do XIX ficava no Rio de Janeiro, por outro, as irmandades estiveram presentes, desde cedo, na vida da população para suprir suas necessidades religiosas. (TAVARES, 2007, p. 34)

Com a chegada dos jesuítas, que trazem consigo uma cultura religiosa ultramontanista, em território sulino e com o levantamento das primeiras paróquias por estes religiosos, inicia-se a percepção de que haveriam dificuldades em retomar o fervor do catolicismo tradicional no meio destes povos.  Como diz Schimitz:

Os jesuítas encontravam dificuldades em transformar as famílias lusas da paróquia no modelo que traziam da Alemanha: poucos falavam sua língua e não compreendiam sua religiosidade. Esta se tinha formado num tempo em que a população estava dispersa pelas fazendas, a paróquia era atendida por um isolado sacerdote tradicional [...].  
(SCHMITZ, 2017, apud, SPOHR, 2017, p. 7)

E segue:

Eles (os jesuítas) vinham afiados na doutrina do Concílio de Trento, procediam de paróquias estruturadas e eram muito conscientes de sua catolicidade frente a expansão protestante e o liberalismo veiculado pela maçonaria. [...] compensavam o insucesso com a população lusa com os altos resultados conseguidos nas picadas dos imigrantes, que rapidamente se foram transformando em outras paróquias, nas quais o sistema trazido da Europa funcionava satisfatoriamente.  (SCHMITZ, 2017, apud, SPOHR, 2017, p. 8)

Não são poucos os relatos, encontrados em cartas, de jesuítas reclamando suas decepções enquanto aos seus trabalhos apostólicos, principalmente em meio aos lusos, que, talvez por terem ficados imersos mais tempo que os alemães em um catolicismo popular, tinham maior dificuldade com o catolicismo tradicional vindo junto aos jesuítas, como mostrado no trecho a seguir:

O fruto do nosso trabalho apostólico não correspondeu aos nossos justos desejos, excetuando os colonos alemães nas colônias adjacente. Os lusos evitam a igreja e toda a instrução religiosa e se retraem dos sacramentos. Há muita ignorância religiosa e superstição. Não é permitido ensinar a doutrina cristã nas escolas. Quase a única consolação é que a maioria, ao chegarem a morrer, chamam os padres para receber os sacramentos. (SPOHR, 2017, p. 39)

Considerações parciais

Com a pesquisa, que ainda se encontra em fase inicial, concluímos, até o momento, que o ultramontanismo se fez muito presente na ação jesuítica na província sulina entre os sécs. XIX e XX, e que houveram conflitos e divergências entre religiosos e leigos, principalmente na forma de se praticar o catolicismo. O ultramontanismo jesuíticos se faz provar na rigorosidade de seguimento das normativas litúrgicas, fato passível de observação quando em contato com o acervo de materiais sacros, oriundos de casas e paróquias jesuíticas, disponíveis no Instituto Anchietano de Pesquisas. Tais materiais serão, pouco a pouco, disponibilizados no site do Instituto, iniciando com os Missais. 

Referências Bibliográficas 

AZEVEDO, Ferdinand. Jesuítas Espanhóis no Sul do Brasil (1824 -1867). São Leopoldo: Instituto Anchietano de Pesquisas, série história n.24, 1984.
BOHNEN, A.; ULLMANN, R.A. (coord) A atividade dos Jesuítas em São Leopoldo (1844-1989). São Leopoldo: Unisinos. 1899.
FORTES, Amyr B.; WAGNER, João B. S.. História administrativa, judiciaria e eclesiástica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Globo, 1963.
LUTTERBECK, Jorge A..  Jesuítas no Sul do Brasil. São Leopoldo: Instituto Anchietano de Pesquisas, Publicações avulsas n.3, 1977.
MACHADO, Francisco A. Circular que o Presidente da Província do Rio Grande de S. Pedro do Sul dirige aos Parochos da mesma. 1841. Localizado em: Instituto Anchietano de Pesquisas (Unisinos).
RAMBO, Arthur B.. Jesuítas no Sul do Brasil: O projeto pastoral. São Leopoldo: Unisinos, 2013.
ROCHE, Jean. A colonização alemã e o Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora Globo, vol. I e II, 1969.
SCHUPP, Ambros. A missão dos jesuítas no Rio Grande do Sul. Trad.de Arthur Bl. Rambo. São Leopoldo: Unisinos, 2004.
VILLARRUBIA, Santiago Luís. Relato histórico das atividades jesuíticas no período final dos farrapos (1842 a 1845). Traduzido por AZEVEDO, Ferdinand. Localizado em: Instituto Anchietano de Pesquisas, acervo Pe. Jaeger.  
TAVARES, Mauro D. Irmandades religiosas, devoção e ultramontanismo em Porto Alegre no bispado de Dom Sebastião Dias Laranjeiras (1861-1888). Dissertação de Mestrado (Mestrado em História) – Departamento de Ciências Humanas, UNISINOS, São Leopoldo – RS.
SANTIROCCHI, Ítalo Domingos. Uma questão de revisão de conceitos: Romanização – Ultramontanismo – Reforma. Temporalidades - Revista Discente do Programa de Pós-graduação em História da UFMG, vol. 2, n.º 2, 2010.
SPOHR, Inácio. História das casas: Um resgate históricos dos jesuítas no sul do Brasil. Porto Alegre: Ed. Padre Reus, 2017.

Texto e imagens: Gabriel Azevedo de Oliveira
Instituto Anchietano de Pesquisas

terça-feira, 28 de maio de 2019

UNISINOS 50 ANOS: QUEM É A UNISINOS DE SÃO LEOPOLDO?




A Unisinos é uma grande instituição de ensino, pesquisa e extensão cultural, fundada e mantida pelos jesuítas do Brasil, na cidade de São Leopoldo, RS. Em 31 de julho ela completa 50 anos de atuação como universidade. Ela representa a continuidade do trabalho educacional dos jesuítas na cidade.

A primeira iniciativa educacional dos jesuítas, na cidade, foi o Ginásio Conceição, fundado em 31 de julho de 1869, exatamente um século antes da universidade, quando São Leopoldo era um punhado de casas de imigrantes alemães e alguns lusos, na beira do rio dos Sinos. O seu internato atraía meninos e jovens de diversas partes do Estado e de fora do mesmo. Separado só por uma rua, o ginásio masculino dos jesuítas formava parelha com o Ginásio São José, das Irmãs Franciscanas, fundado em 1872, que, da mesma forma, atendia a juventude feminina. As duas instituições, nesses 150 anos, formaram homens e mulheres importantes para o Brasil.

No começo do século XX, os majestosos prédios, construídos para abrigar os educandários, se transformaram em Seminário Central, que formou gerações de sacerdotes diocesanos e religiosos para o Brasil. Com a transferência do seminário, os bonitos prédios, muito maltratados, se tornaram o berço da universidade, sempre como empreendimento da Companhia de Jesus.

O autor dessa postagem é testemunho desse nascimento e da sua gestação e, em alguns momentos, participou dela como agente. Com o apoio do livro de Bohnen e Ullmann, Atividades dos Jesuitas de São Leopoldo, 1844-1989, UNISINOS, 1989, ele registra alguns eventos dessa trajetória. Sobre o primeiro período Arthur Blásio Rambo em Um Sonho e Uma Realidade. A Unisinos 1953/1969. Editora UNISINOS, 2009 escreveu uma história detalhada.

A gestação: As faculdades de Filosofia, Direito e Economia

Em 21 de fevereiro de 1952 a Assembleia da Sociedade Literária Antônio Vieira (ASAV) funda a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Cristo Rei (a partir de 1964 passa a se chamar de São Leopoldo), na sede da entidade, que era o prédio do Seminário Central, em São Leopoldo. Para a constituição da Faculdade usa os cursos de Humanidades de Pareci Novo e de Filosofia de São Leopoldo, que eram etapas da formação dos padres jesuítas, mas não tinham a chancela do Estado.

Em 24 de novembro de 1953 a Faculdade é autorizada pelo Ministério de Educação e Cultura, mas continua sendo privativa dos estudantes jesuítas. A partir de 1958 ela perde esta exclusividade.

Em 1957 a Faculdade, que nascera no Colégio Cristo Rei, na periferia da cidade, é transferida aos prédios que até 1956 tinham sido ocupados pelo Seminário Central, na beira do rio dos Sinos.

Os prédios à beira do rio
Em 1958 a Faculdade se compõe dos seguintes cursos: Filosofia, Letras, Letras Clássicas, Letras Anglo-Germânicas, Pedagogia, Ciências Sociais e História Natural.

Em 1959 são acrescentados os cursos de Química e Orientação Vocacional.

Em 1961 é acrescentado o curso de Didática.

Em 1965 vêm os cursos de História e de Matemática.

Em 1968 surgem os cursos de Física e de Licenciatura em Letras.

O primeiro diretor da Faculdade é seu promotor, o P. Urbano Thiesen (1953-1961). Ele foi seguido pelos padres Arno Maldaner, João Oscar Nedel e Pedro Ignácio Schmitz.

Tomada de posse de diretor: Da esquerda para a direita:
o Diretor da Faculdade de Direito Lenine Nequete, o Prefeito
de São Leopoldo Clodomiro Martins, o Padre Provincial
Edvino Friedricha, Pedro Ignácio Schmitz, útimo diretor
da Faculdade de Filosofia, João Oscar Nedel diretor anterior,
Arno Maldander, diretor anterior. Escondido,
Olivio Koliver, diretor da Faculdade de Economia.

Paralelamente à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras nascem outras faculdades.

Em 1959 a Faculdade de Economia, cujo diretor é Olívio Koliver,

Em 1967 a Faculdade de Direito, cujo diretor é Lenine Nequete.

Em 1970 abre Engenharia de Operações, no Colégio La Salle, em Canoas, cujo diretor é Pedro Beirão Capra.

Os cursos se instalam no antigo prédio do Seminário Central: no prédio construído pelos Jesuítas para o Ginásio Conceição e depois ocupado pelos Moinhos Reunidos SA, se instalam os cursos de caráter mais científico, como História Natural, Química, Física, Matemática. No prédio construído pelas Irmãs Franciscanas para o Colégio São José, se instalam os cursos de Humanidades da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, a Faculdade de Direito e a Faculdade de Economia. A Faculdade de Direito ocupava o prédio de manhã, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, de tarde e a Faculdade de Economia, de noite.

O número de alunos nas faculdades era pequeno e oferecia frágil sustento para a manutenção das atividades, sem pensar na restauração e manutenção dos prédios, a mobília e os aparelhos de ensino e pesquisa.

Em 1958 são 116 alunos; em 1959, com a Faculdade de Economia passam a 312; em 1963, com a Faculdade de Direito, passam a 1048; em 1960, com a Engenharia de Operações chegam a 3.590, o total com que começa a universidade.

Os professores jesuítas formavam três quartas partes dos docentes da Faculdade de Filosofia; também colaboravam nas outras faculdades. Não recebiam salários e viviam de migalhas de seus trabalhos pastorais. Os professores jesuítas envolvidos na História Natural tinham acesso a bolsas de pesquisa do CNPq para sua manutenção e verbas para seus projetos e aparelhagens. São inacreditáveis as manobras, leais e nem sempre tanto, que alguns faziam para conseguir os aparelhos óticos indispensáveis.

Padres jesuítas que se destacaram na formação da universidade: Leopoldo Adami (Provincial), João Oscar Nedel, José Marcus Bach, Isidro Salett, Theobaldo Leopoldo Frantz, Luiz Marobin, Pedro Ignácio Schmitz, Egídio Francisco Schmitz, Alcides Mario Giehl, Bruno Hammes e Otto Berwanger.

Seria mais difícil registrar o nome de todos os professores e funcionários leigos que dedicaram sua vida a esta frágil instituição. 

A primeira formatura da Faculdade de Filosofia, 1961, quadro no corredor do prédio B09.

Os professores leigos recebiam salários de forma irregular. Havia muito idealismo e dedicação tanto da parte de uns como de outros para compensar a pobreza e manter funcionando as aulas e as pesquisas.

A Universidade do Vale do Rio dos Sinos: nascimento e primeiros anos

Na década de 1960 dois núcleos educacionais do vale do rio dos Sinos caminhavam para formar uma universidade: em Novo Hamburgo o complexo que se concretizou como FEEVALE e em São Leopoldo o que se desenvolveu como UNISINOS.

Em uma tarde não lembrada, o deputado Arnaldo da Costa Prieto, ligado a ambos os grupos, aparece na sala do Diretor da Faculdade de Filosofia com a seguinte intimação: ‘Senhor Diretor, na próxima semana preciso o estatuto da Universidade para entrar com o pedido no Ministério de Educação. Se não o tiver, o grupo de Novo Hamburgo leva a vaga’. Não existia este estatuto, era preciso criar ao menos um esboço para não perder o lugar. Foi nessas circunstâncias que três padres, escondendo-se, atrás das estantes da biblioteca, para não serem perturbados, produziram este embrião, que garantiu vaga.  Este era o lado político da questão da universidade.

O lado prático é outro. Foi obra de um grupo formado por jesuítas, reunidos na SURGES – Sociedade Universitária da Região Geoeducacional dos Sinos, que elaborou o projeto global da universidade e de sua execução. Tinha como Presidente: P. João Oscar Nedel; como Diretor Administrativo: P. Alcides Mário Giehl e como Diretor de Assuntos Administrativos: P Theobaldo Leopoldo Frantz.

Para constituir a universidade, além das faculdades acima nomeadas, ainda existiam as Escolas integradas de Teologia e o Instituto Musical Carlos Gomes do Colégio São José.

O projeto foi encaminhado ao Ministério de Educação e Cultura, cujo titular era Tarso Dutra, o qual, em 31 de julho de 1969, autorizou o funcionamento da Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Tinha decorrido exatamente um século desde que tinha iniciado o Ginásio Conceição, que funcionou ali até 1912, quando foi transferido para Porto Alegre com o nome de Colégio Anchieta e o prédio foi ocupado por um seminário de formação de clero.

O nome da universidade está ligado ao rio que tem muitos sinos (sinuosidades, ou voltas), mas o logotipo criado na oportunidade eram dois sinos unidos pelas bases. Só muito mais tarde ele foi substituído pelo U com a sugestão de infinitas possibilidades.


Antiga logomarca





Logomarca atual


 O primeiro Reitor (1969-1973) foi o Biólogo P. João Oscar Nedel, Vice-Reitor Acadêmico o P. José Marcus Bach, Vice-Reitor Administrativo o Economista José Bordini Cinel. 

Os seguintes reitores foram: P. Theobaldo Leopoldo Frantz (1974-1977), P. Luiz Marobin (1978-1981), Herbert Ewaldo Wetzel (1982-1985), Aloysio Bohnen (1986-2005), Marcelo Fernandes de Aquino (2006-  ).

Em março de 1970, depois de algumas reformas e acomodações, começaram as aulas. Nos prédios em que, até 1956, tinha funcionado o Seminário Central. O total dos alunos era 3590.

Nesse tempo já se tinha feito a reforma universitária no Brasil. A estrutura de ensino na Unisinos se organizava em três Institutos Centrais: Letras e Artes, Ciências Humanas, Ciências Positivas.

O vestibular, que dava acesso à universidade, era mais formal que seletivo. Mas, para chegar às disciplinas profissionais era necessário cumprir o Ciclo Básico, que tinha a função de nivelamento e abrangia as disciplinas de Antropologia, Estudo de Problemas Brasileiros, Inglês, História, Lógica e Metodologia, Matemática, Português, das quais era preciso aprovar em quatro. Humanismo e Tecnologia e Deontologia também eram disciplinas obrigatórias para todos os alunos.

Com a facilidade de entrada e o bem-estar econômico do momento (‘o milagre brasileiro’), o número de alunos cresceu rápida e continuamente até 1979: dos 3.590 em 1970 subiu para 24.109 em 1979, quando começou a descer, estabelecendo-se ao redor 20.000. Hoje são aproximadamente 23.000.

Para este crescimento, o espaço dos prédios se tornou absolutamente inadequado, com imenso atropelamento especialmente à noite. A solução foi alugar salas grandes em cidades próximas para abrigar os alunos do ciclo básico para este período: no Colégio São Luiz, em São Leopoldo; no Ginásio La Salle, em Canoas; no colégio Santa Terezinha, em Taquara onde se criou uma ‘extensão’; nos colégios Anchieta, Sevigné, São João e no Ginásio da Paz em Porto Alegre. A dispersão também facilitou o acesso aos alunos locais e dispensava a viagem para São Leopoldo.

Mas esta solução resultava em muita despesa, de aluguel das salas e do transporte dos professores e funcionários para este atendimento. Fazendo os cálculos, P. Egídio Eduardo Schneider, que foi Vice-Reitor Administrativo em três mandatos sucessivos da reitoria, chegou à conclusão de que o aluguel de uma sala equivalia ao valor da construção de uma sala do mesmo tamanho.

Esta consideração levou ao planejamento da construção de um Campus universitário. Depois de examinar várias possibilidades, foi comprada uma área de 78,80 ha no fundo dos campos do Colégio Cristo Rei, encostada ao mato de eucaliptos (‘matão’ que faz divisa com Sapucaia do Sul)).

Em 24 de fevereiro de 1974 começou a terraplanagem e a 11 de maio foi lançada a pedra fundamental do primeiro conjunto de blocos, destinado ao Ciclo Básico, que somava 38 amplas salas de aula e uma ala administrativa. É o atual bloco B da UNISINOS.

Dois futuros professores da Unisinos tomaram a si a construção de todo o campus: o engenheiro Dirceu Duarte Galegari e o arquiteto Eliseu Victor Mascarello, sob a coordenação do P. Egídio Eduardo Schneider.

Na noite de 12 de agosto de 1974 se deram as primeiras aulas nas novas salas do Ciclo Básico. A 12 de setembro se dava a instalação oficial do Primeiro Ciclo com a presença do Ministro da Educação Ney Braga e do Ministro do Trabalho Arnaldo da Costa Prieto.

Desde 1974 a 1987 foram construídos 102.011 m2 dos 110.000 m2 previstos. Essa construção do campus, num tempo de alta inflação, foi toda autofinanciada com uma administração cuidadosa e manejo do dinheiro, que vinha basicamente das anuidades pagas pelos alunos. As verbas do Ministério de Educação e Cultura eram insignificantes.

 
A inauguração do Campus com a presença de professores, funcionários, autoridades e de Dom Vicente Scherer.
A construção do campus teve grande cuidado em preservar elementos do ambiente e implantar outros para lhe dar a fisionomia que, hoje, todos nós usufruímos. O naturalista P. Clemente Steffen precisa ser lembrado nesse contexto. A testemunha lembra do tempo em que, no espaço que será o campus, o Colégio Cristo Rei plantava trigo e depois encheu de eucaliptos dos quais sobra um pequeno canteiro de árvores hoje gigantescas.

Com a entrada do Plano Cruzado e o congelamento das anuidades dos alunos, ao tempo do reitorado de Aloysio Bohnen, começaram as dificuldades e o movimento de construções foi contido.

Com o campus construído e o incêndio, em 1981, de um dos prédios do centro de São Leopoldo e a reforma do prédio restante, as atividades se foram concentrando no Novo Campus.


Vista do Campus construído.


Estas são lembranças que à testemunha pareceu útil lembrar por ocasião do aniversário da UNISINOS. Referem-se à gestação, nascimento e infância da Universidade. Sua adolescência e maturidade exigem uma história mais refletida e documentada, que se espera alguém conte por ocasião do aniversário, dia 31 de julho de 2019.